A METAMORFOSE DO PROCESSO

Ainda bem que tudo isso não passa de mera ficção e que Kafka pode descansar em paz.

Por FABIO COSTA PEREIRA 13/07/2021 - 17:50 hs


O escritor austro-húngaro Franz Kafka, nascido no final do século XIX, dono de uma escrita ao mesmo tempo fantástica e peculiar, repleta de arquétipos e sutilezas, foi um dos mais influentes de sua geração.


Kafka, cujos livros por todos deveriam ser conhecidos, escreveu algumas obras-primas que, por incrível que pareça, ainda permanecem extremamente atuais.


O Processo e a Metamorfose estão entre os livros seminais de Kafka, onde o autor se vale do universo ficcional para descrever as realidades que apreende no mundo exterior.


Em O Processo, Joseph K, personagem central da trama criada pelo autor, é preso, julgado e processado por um crime que não sabe qual é ou sequer se o cometeu.


Em a Metamorfose, ao seu turno, Gregor Sansa, um caixeiro-viajante cuja vida é apenas trabalho, certo dia acorda tendo se transformado em um inseto gigante, o qual mais se parece com uma barata.



Como suprema ironia Kafkiana, Sansa, no livro, ao se transformar em barata, fica mais inquieto com o fato de se atrasar para o trabalho do que, propriamente, no ter se transformado em uma barata.


Imaginemos que Kafka, redivivo, dado dia, fosse despertado na atualidade, este, com certeza não resistiria à tentação de fundir as suas duas grandes obras em uma só.


O seu Processo, que na altura já era de exceção, sofreria uma Metamorfose e se transformaria em um monstrengo, sem forma jurídica, cuja missão de vida seria a de devorar  adversários.


A diferença crucial da nova obra simbiótica, é que Joseph K. não mais seria uma só figura atingida por um processo que, por algum desvio padrão, tornou-se excepcional.


Na Metamorfose sofrida pelo Processo, este deixaria de ser de exceção, passando ser a regra,  e dezenas de Josephs K., com nomes diversos, passariam a ser processados por fatos dos quais se defender seria impossível.


Ao final do processo metamorfoseado, como inevitável desfecho, todos resultariam condenados, obviamente por crimes que sequer saberiam o qual.



Ainda bem que tudo isso não passa de mera ficção e que Kafka pode descansar em paz.


Será?


E que Deus tenha piedade de nós!

 FÁBIO COSTA PEREIRA para o Tribuna Diária




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