A ORDEM DE CAVALARIA DE SANTIAGO DA ESPADA

Barão de Santa Alda

Por Evandro Monteiro de Barros Jr. 14/07/2021 - 20:53 hs

 

Com o notável crescimento do movimento monarquista, muito tem sido falado nas redes sociais sobre Ordens de Cavalaria e temas correlatos. São inúmeras publicações, lives e vídeos, porém ainda é difícil encontrar algo de qualidade. Não faz muito tempo, me deparei com blasfêmias jurídicas a respeito de Ordens Religiosas em uma das páginas mais conhecidas dentre as que defendem a restauração da monarquia no Brasil. Levando em conta que tal publicação foi um tiro que saiu pela culatra, não me darei o trabalho de comentá-la.

Nesta oportunidade encerrarei o ciclo introdutório sobre a história das três Ordens Religiosas de maior relevo no Império do Brasil, apresentando de forma sucinta a Ordem de Cavalaria de Santiago da Espada. 


Santiago Espatário e a Gesta de Cavalaria – Por Vitor Manuel Adrião |  Lusophia - Vitor Manuel Adrião

          

  Os Santiaguistas ou Espatários são oriundos de freires de Cáceres, também conhecidos como irmãos da Espada. Nas palavras de Isabel Lago Barbosa:

 

Uma confraria de cavaleiros, criada em 1160, ligada aos cónegos regrantes de Santo Agostinho terá constituído o embrião de onde se formou a Ordem de Santiago, reconhecida pelo rei Fernando II de Leão (1137-1188).

 

Criada no Reino de Leão em 1170 em Cáceres, que segundo Claudio Rendina era “una fortezza del re di León e Galizia Ferdinando II”, a Ordem de Cavalaria de Santiago da Espada era composta de um grupo de bravos cavaleiros religiosos que foram incumbidos pelo Rei, segundo Antonio Luiz Costa,  da “missão de defender dos mouros a cidade de Cáceres, onde foram derrotados em 1174”.

Naquele contexto, defende Luís Adão da Fonseca que os Cavaleiros da Ordem tinham um espécie de arquétipo de soldado que  “luta em nome de Cristo contra os seus inimigos, combinando a actividade guerreira, do mundo secular, com a motivação religiosa”. Essa característica de motivo religioso e atos guerreiros foi classificada por Fernando Manuel Marques Apolinário como: “Uma guerra material e espiritual contra os inimigos da Cristandade, mas também contra «os pecados» da própria existência social e interior dos monges”[1]

Conta-se que em sua maioria, os Cavaleiros da Ordem de Santiago eram da mais alta nobreza e segundo afirma Luís Adão da Fonseca:

 

De acordo com o relato do prólogo da Regra, os seus primeiros membros terão sido cavaleiros que depois de abandonar uma vida desregrada se reuniram sob a cruz e as insígnias do Apóstolo São Tiago Maior.

           

A principal missão desses corajosos cavaleiros era proteger os peregrinos do Caminho de Santiago e combater os muçulmanos da Península Ibérica. A eles, por Regra baseada na Agostinha (Ordem de Santo Agostinho), era recomendada a castidade, porém não obrigada. Seu símbolo é cruz florente vermelha cujo ramo inferior termina numa espada.


OSA - Ordem de Santo Agostinho - Vicariato do Santíssimo Nome de Jesus do  Brasil :::


Em pouco tempo a Ordem se estendeu aos de Portugal, Castela, Aragão, Inglaterra, Lombardia e França, tendo estado presente até mesmo na Antioquia (Oriente Médio), como salienta Antonio Luiz M. C. Costa. Ainda, segundo o referido autor:

 

Leão e Castela disputaram a sede da Ordem até 1230, quando os dois reinos foram unidos e a ordem passou a ter uma sede única em Uclés, Castela. Por ter regras menos rígidas e aceitar cavaleiros casados, atraiu mais cavaleiros e reuniu mais bens que as ordens de Calatrava e Alcântara juntas e se tornou a maior das ordens ibéricas de cavalaria, chegando a governar duas cidades e 178 condados e aldeias.

 Cruz Sant'Iago da Espeda.png

O rei da Espanha passou a ser grão-mestre da Ordem em 1493, que nos séculos XVII e XVIII se tornou uma das maiores ambições da nobreza espanhola e, ao longo do tempo, já em 1653 suas exigências se tornaram ainda mais rígidas. A esse respeito se manifesta Antonio Luiz M. C. Costa:

 

 

Em 1653, tornou-se ainda mais exigente quanto ao “sangue azul”: o candidato não podia ter nenhum ancestral não cristão e era preciso provar que os quatro avós eram fidalgos (e não apenas plebeus enobrecidos) e jamais exerceram ofícios manuais ou industriais (antes se requeria apenas que os avós paternos fossem fidalgos).

 

 

            Para o autor supracitado ainda existe essa Ordem na Espanha e conta com 30 cavaleiros. Já sobre a Ordem em Portugal, Antonio Luiz M. C. Costa afirma que:

 

 

Como as outras ordens portuguesas, foi secularizada no século XVI, abolida em 1834 e depois transformada em ordem honorífica, usada para premiar o mérito literário, científico e artístico. Seu símbolo é a mesma cruz da ordem espanhola, mas em Portugal é roxa e não vermelha.

 

Olímpio de Melo corrobora nesse sentido:

 

A Ordem de Sant’Iago foi extinta, junto com as demais Ordens, com excepção da Torre e Espada, depois da Implantação da República. Só em 1º de Dezembro de 1918, no mandato do Presidente Sidónio Pais, voltou a ser restabelecida a Ordem, ficando determinado que a Ordem de S. Tiago da Espada é destinada a premiar, em nacionais ou estrangeiros, o mérito scientífico, literário ou artístico. 



           

O único condecorado encontrado, em rápida consulta ao Archivo Nobiliárchico Brasileiro, foi o Barão de Alto Mearim (José João Martins de Pinho), nascido em Portugal, comendador dessa Ordem.

 

O DIREITO NOBILIÁRQUICO E DINÁSTICO  Evandro Monteiro de Barros Jr. 



 REFERÊNCIAS:

BARBOSA, Isabel Lago. “A Ordem de Santiago em Portugal” in As Ordens de Cristo e de Santiago no Início da Época Moderna: A Normativa, Militarium Ordinum Analecta. No2. Direcção de Luís Adão da Fonseca, Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida, 1998, pp.114-115.

RENDINA, Claudio. Il Grande Libro Degli Ordini Cavallereschi – Epopea e Storia. Ressegna araldico-cavalleresca di Filippo Maria Berardi. P. 143. Newton Compton Editori. 2006.

FONSECA, Luís Adão da. “Ordens Militares”, in Dicionário de História Religiosa de Portugal. Direcção de Carlos Moreira de Azevedo P.335. Vol. I - J-P, 1a Edição, Lisboa, Círculo de Leitores. 2000.

APOLINÁRIO, Fernando Manuel Marques. A Ordem de Santiago. A Arte como manifestação de culto e cultura. P. 6-9. Dissertação Final de Mestrado Integrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, sob orientação de: Prof. Doutor Peter Damian Francis Stiwell. Lisboa. 2013.

COSTA, Antonio Luiz M. C. Títulos de Nobreza e Hierarquias: um guia sobre as graduações sociais na história. P. 159. São Paulo: Draco. 2014.

MELO, Olímpio de. Ordens Militares Portuguesas e outras Condecorações. P. 27/48. Imprensa Nacional, Lisboa, 1922.

VASCONCELLOS, Barão de; VASCONCELLOS, Barão de Smith. Archivo Nobiliarchico Brasileiro. P.40/413/414.Lausanne.(Suisse). Imprimerie La Concorde). 1918.

[1] Conforme o autor em comento: “No princípio, os cavaleiros santiaguistas foram conhecidos por Cavaleiros de Cáceres, «freires de Cáceres», por ter sido nesta cidade onde teria sido fundada a irmandade, uma espécie de confraria de cavaleiros. Depois da bula da confirmação e aprovação de 1175, dada pelo Papa Alexandre III, e após um acordo estabelecido entre D. Pedro Fernandez e o arcebispo de Santiago de Compostela, a irmandade passou a chamar-se Ordem de Santiago”.


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