O "ARGONAUTA" E O "ESFREGÃO"

Por Eduardo Vieira 20/07/2021 - 18:51 hs

Hoje minha filha foi assistir ao filme Pequenos Espiões 4. Perguntou-me então qual seria a tradução para o inglês da palavra "Esfregão". Fui me inteirar do contexto e lá estava um belo exemplo da situação cultural que acomete o nosso país. Pois estávamos tratando do nome de um cachorro. No original, "Argonaut". Ora, a tradução de tal nome é imediata e facílima. Argonauta é o membro da tripulação da famosa nau Argos, na qual o herói Jasão realizou sua célebre viagem em busca do Velo de Ouro.



Não posso saber de imediato se a substituição de uma bacana referência a um mito grego por um vulgaríssimo item do armário de limpeza foi algo intencional, motivada pela rejeição à uma obra dos "white dead men"¹ ou motivada pela total ignorância da referência, tal e qual o Capitão América durante quase todo o filme "Vingadores". Nesse último caso, substituir uma palavra aparentemente sem sentido por "Esfregão" poderia até representar um avanço. Jamais em relação ao arcabouço cultural do tradutor, evidentemente.

Cá estamos nós então neste país onde o funk é considerado expressão cultural, onde o Abaporú, uma ode ao nariz, é considerado plasticamente brilhante e onde Romero Britto é tido como referência de obras bonitas. Não é à toa que vemos aqui peças de teatro do calibre de um "Macaquinhos" e exposições de arte que são verdadeiros crimes contra a criança, defendidos com unhas e dentes por psolistas com cannabis e soja correndo nas veias.

É preciso produzir, é preciso criticar e acima de tudo é preciso formar uma fortíssima frente contra os imbecilóides e canalhas que propagam e aplaudem todas essas barbaridades. Que seu eterno mimimi seja atropelado por homens sem medo de dizer que o feio é feio e de mostrar o contraste deste com o Belo. Aquele que começa e termina em Deus.

Que a tolerância não seja mais aceita como pretexto para a cruel destruição da capacidade estética do nosso povo. Que nossas crianças - em particular nossas crianças pobres - tenham a possibilidade de ver Rembrandts e Monets, de ouvir Tchaikovskis e Beethovens, além da paz de contemplar um mero pôr-do-sol sem o desagradável aplique de balas traçantes.

Para que isso ocorra é necessário em primeiro lugar a ascensão da coragem, da disposição ao sacrifício e da inabalável fé de que esta é uma luta que precisa ser lutada com todas as nossas forças. Na cultura de um povo está a sua alma, tanto a artística como a imaterial e eterna, aquela criada por Deus e nos entregue num gesto de incomensurável Beleza e Bondade.

Façamos jus a esse incrível presente.

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¹ - White dead men - Expressão comum na Academia americana entre os regressistas, que se refere aos autores de diversos clássicos, brancos, mortos e homens.



colunista  EDUARDO VIEIRA para o Tribuna Diária


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