O VINHO DO DESCOBRIMENTO

EVOÉ!

Por RÔMULO PAIVA FILHO 01/08/2021 - 03:26 hs


Bom dia, amigos do vinho. No dia 22 de abril de 1500 aportavam na Praia da Coroa Vermelha, hoje município de Porto Seguro - BA, treze embarcações portuguesas, entre naus, caravelas e uma naveta de mantimentos, capitaneadas pelo navegador Pedro Álvares Cabral. Nascia naquele dia o nosso Brasil. Diz a lenda que haviam várias pipas de vinho nas embarcações, fato mencionado por Pero Vaz de Caminha em uma de suas cartas, onde ele narra que o vinho foi compartilhado com os índios: “Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco o que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho”. Imagino que vocês devem estar se perguntando que tipo de vinho foi trazido pelos portugueses e dividido com os nativos e é justamente esse o assunto do artigo de hoje. 


O vinho trazido nas caravelas de Cabral é até hoje um dos ícones dos vinhos portugueses. Apreciado no mundo inteiro, o Pera Manca possui uma enorme legião de apreciadores aqui no Brasil, dentre os quais eu me incluo, obviamente. Um vinho de mais de 500 anos de história e tradição. Seu nome remonta aos frades do Convento do Espinheiro, em Évora, os quais foram donos de vinhedos nos Séculos XV e XVI que se situavam num terreno com muitas pedras soltas de granito que “mancavam”, oscilavam. E das “pedras mancas” surgiu o nome Pera Manca. Na época do descobrimento o vinho já era famoso, tanto que Cabral o trouxe em suas embarcações.


Produzido atualmente pela Fundação Eugenio de Almeida, através de sua vinícola Cartuxa, desde a primeira colheita o vinho é feito a partir das uvas Aragonez, que lhe aporta estrutura e Trincadeira, que traz acidez. Ambas as cepas são provenientes do solo granítico que seu origem ao nome do vinho e desde 2015 as vinhas são tratadas seguindo a biodinâmica. A percentagem de cada cepa varia de acordo com a safra mas é quase sempre similar. As uvas são provenientes de três talhões com aproximadamente 35 anos de idade na Herdade dos Pinheiros, uma das quatro pertencentes à Fundação Eugenio de Almeida. As uvas são vindimadas e fermentadas em separado e os vinhos seguem estágios autônomos até o momento do lote final, decidido pelo enólogo da Cartuxa Pedro Batista. A produção normal do Pera Manca não ultrapassa as 30 mil garrafas, sendo que a de 2013 foi a menor de todas: apenas 19 mil garrafas, o que obviamente faz com que seu preço seja bastante elevado. Para vocês terem uma ideia, muitos brasileiros costumam viajar para Portugal para comprar garrafas de Pera Manca e Barca Velha, ícone da região do Douro, e revender com um bom lucro aqui no Brasil. Aqui uma garrafa custa entre 3 e 8 mil reais, dependendo da safra. Em Portugal, evidentemente, os preços são muito mais em conta, oscilando entre 400 e 1000 euros.


A Casa Agrícola José Soares era a antiga detentora da marca Pera Manca e durante muitos anos produziu um vinho com esse nome. Em 1920, com a morte do proprietário e a destruição causada pela filoxera, a casa fechou e o vinho não voltou mais a ser produzido. Até que em 1987, o herdeiro da Casa Soares, José Antonio de Oliveira Soares, ofereceu gratuitamente a marca Pera Manca a Fundação Eugenio de Almeida, com uma única condição: Que o nome “Pera Manca” fosse atribuído ao melhor vinho produzido, o que foi aceito e até hoje a promessa vem sendo religiosamente cumprida.


Uma curiosidade a respeito do Pera Manca é a enorme diferença de preço entre o vinho tinto e o branco. O primeiro é muito mais caro que o segundo, muito embora a qualidade do branco seja tão boa quanto a do tinto. Já paguei a bagatela de 30 euros em um restaurante do centro de Lisboa por uma garrafa do branco para escoltar um bacalhau. Aqui, com um pouco de sorte vocês podem encontra-lo por algo em torno de 450 reais.


Bem, meus amigos, vou ficando por aqui e sugiro a vocês degustarem essa joia na versão branco com um bom bacalhau. Harmonização perfeita, eu garanto. Semana que vem tem mais, se Deus e Baco assim o permitirem. Bom domingo a todos.


EVOÉ!