MORAL OU AMORAL?

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 02/08/2021 - 21:19 hs

Natalia Sulman é uma jovem talentosa, que cursa mestrado em filosofia, na Universidade Federal de Pernambuco e criou um Instagram, no qual responde questões e explica conceitos, de forma simples e objetiva. Conheci seu perfil semana passada, após ela ter sido entrevistada pelo Flavio Morgestern, e fiquei encantada com a facilidade com a qual a moça se expressa.

            Um dos muitos temas filosóficos abordados por ela é a moralidade. O que é moralmente aceitável, na civilização ocidental, hoje, é algo bem difícil de se qualificar. O conceito foi sendo tão incessantemente esgarçado, que torna-se quase impossível adentrar esse terreno pedregoso, sem que digam-nos que tudo é relativo, e depende do ponto de vista.

Afinal, em uma era em que verdades e certezas estão fora de moda, e na qual a hipocrisia desfila em carro aberto por aí, querer buscar moralidade e ética no ser humano é complicado... Entretanto, uma esperança nasceu em meu peito, quando li o post de Natalia sobre o tema.

Ela descreve quatro estágios necessários, para atingirmos um comportamento moralmente adequado, e por via transversa, acaba nos dando as dicas para reconhecermos o amoral, o que tornou-se normal nesse mundo de hoje, que está tão desprovido de valores e virtudes.

            A  forma que há, por aí, de justificar um comportamento amoral, é a COLETIVIZAÇÃO. Imputando culpas aos outros, as pessoas vão retirando a responsabilidade de seus ombros, justificando atitudes por meio de frases feitas do tipo: “ a culpa do comportamento do brasileiro é do Estado, que cobra impostos tão altos, que nos obriga a sonegar”. “No Brasil, com tanta desigualdade social, delinquir acaba sendo a alternativa dos mais pobres”.

Desse modo, o indivíduo tem, ao seu ver, passe livre para seguir nesse caminho escolhido (da corrupção, da sonegação, do crime, etc), como se fosse o único possível, indignando-se com críticas, pondo-se como uma eterna vítima, e lavando as próprias mãos no tocante a escolhas e consequências.

            As soluções para esse modo de proceder são de duas naturezas: externa e interna. A externa vem do Poder Judiciário, que pode aplicar uma pena àquele comportamento indesejado e moralmente errado, cessando ali a ofensa ou agressão a um bem, pessoa ou direito. Isso, embora socialmente estanque o problema, em termos pessoais, só aumenta a vitimização do próprio culpado, que agora, sim, tem motivos de sobra  para potencializar seu discurso.

 A solução interna , para que alguém pare de fazer isso, consigo e com os outros, vem por meio de uma autoanálise ( e aí entra a filosofia, como a ciência do autoconhecimento), para que o indivíduo inicie um processo de HUMANIZAÇÃO, INDIVIDUAÇÃO, INTERIORIZAÇÃO e CIVILIZAÇÃO. Não entenderam? Eu explico.

Somente enxergando suas responsabilidades pessoais, abandonando a postura de buscar culpados para todos os seus atos, identificando suas condutas equivocadas, essa pessoa poderá abdicar de um modo de proceder abusivo, que atinge terceiros e traz consequências nefastas, para ela e para a sociedade.

            Somente desconstruindo essa sua crença de que o mundo lhe deve algo, ou de que merece mais da vida, o indivíduo poderá desenvolver responsabilidade e consciência plena sobre seus atos, tornando-se apto ao cumprimento de seu dever, ainda que não esteja muito disposto a isso, mas tão somente por saber que é o melhor a ser feito, dentro dessas circunstâncias.

            Acontece que muitos grupos também adotam esse modus operandi, justificando todo e qualquer ato praticado, como sendo “em defesa de uma causa”, na base dos “fins que justificam os meios”. Se estão lutando pelo que acreditam, vale tudo, por mais amoral e terrível que possa parecer. Tivemos grandes exemplos disso com a Revolução Francesa, que matou milhares de inocentes, em nome de “igualdade, liberdade e fraternidade”.

Para que não seja influenciado pela coletividade, o homem precisa, mais ainda, saber quem é e quais são seus valores inegociáveis, a fim de que não se deixe tratar como massa de manobra, despersonalizando-se e agindo feito um selvagem ou um louco. De posse de sua personalidade, ele é capaz de resistir até mesmo aos apelos mais sedutores.

            Bernardo Guimarães Ribeiro, em seu livro Personalidade e Pertencimento – Efeitos das Massas em Nossa Individualidade, e Ortega Y Gasset, em seu maravilhoso A Rebelião das Massas, tratam desse tema com maestria, explicitando que, quanto a mais a pessoa se deixa levar pelos discursos, pelas convicções e pelas ideologias de grupos, mais perde a própria identidade, bem como a capacidade de realizar-se e de fazer julgamento de valor sobre qualquer coisa.

            A multidão ou grupo estimula a atitude de rebanho, e os indivíduos passam a comportar-se todos de modo muito semelhante, sem questionamentos. O maior temor, daquele que deposita nesse agrupamento de pessoas, suas frustrações, expectativas, medos e anseios, é ser rejeitado, discriminado, alijado do convívio social. O homem fraco busca, no grupo, a força e a coragem que lhe faltam.

São Tomás de Aquino, dentre tantos outros, deixou um ensinamento valioso:  idem velle et idem nolle:  devemos ser amigos daqueles que amam e repelem as mesmas coisas que nós. A frase, proferida, no contexto de buscarmos amizades que nos elevem, pode do mesmo modo, ser utilizada, na compreensão de pessoas que se atraem e aproximam, movidas por instintos menos nobres.

            Mas, como conviver em sociedade, sem contaminar-se pelos comportamentos coletivos e pela sedução das massas, pela imitação de atitudes e pelo julgamento externo, tendo a moralidade como um norte a ser seguido e mantendo a opinião pessoal preservada? Em seu livro, Bernardo Guimarães, citando George Simmel, nos dá uma pista sobre como devemos agir:

 “Quanto mais completamente o ser humano retorna ao seu próprio coração, tentando captar o seu interior absoluto, em meio às relações externas, mais forte flui nele, isto é, em cada indivíduo de maneira igual, a fonte do bem e da felicidade. Quando o ser humano é realmente ele mesmo, ele tem uma força concentrada que ultrapassa a mera preservação de si mesmo; e, por assim dizer, pode fazê-la fluir em direção aos outros, e por meio dela integrar os outros dentro de si, identificar-se com eles”(Personalidade e Pertencimento, página 26).

O segredo, portanto, está no “conhece-te a ti mesmo, e a verdade te libertará”, ensinado por Sócrates, há 2400 anos. Apenas alguém conectado com a própria essência, detentor de valores sólidos, é capaz de fazer boas escolhas, sem receio da solidão ou do julgamento alheio. Agindo de forma moralmente adequada, sem culpar terceiros por seus atos e decisões.

E fecho com Ortega Y Gasset, que sobre os dilemas do homem moderno, e a atração que as ideologias exercem sobre este, diz o seguinte: “vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar, mas não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido em sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnicas que nunca, o mundo atual acaba sendo o mais miserável que já houve: à deriva, nada mais (...).Hoje, de tanto que tudo nos parece possível, pressentimos que também o pior seja possível: o retrocesso, a barbárie, a decadência”(A Rebelião das Massas, páginas 113/114).

 

 EGOÍSMO Erika Figueiredo


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