MUNDO BANI

o nem tão admirável amanhã...

Por FABIO COSTA PEREIRA 24/08/2021 - 22:09 hs

Nem bem começou a pandemia provocada pelo novo coronavírus e as nossas certezas civilizatórias foram colocadas na berlinda.


Grande parte dos avanços que duramente galgamos em termos de sociedade, nos primeiros ecos da grave doença que nos espreitava , viraram pó.


Ao mesmo tempo em que muitos humanos se lançaram aos supermercados para comprar todo o papel higiênico disponível, a revelar que o seu medo vinha das entranhas, outros, sem que lhes fosse dado o direito a contestar, viram as suas garantias e liberdades individuais solapadas.


Mesmo diante do inusitado e da novidade da grave enfermidade global que começou o seu curso no final do ano de 2019, consensos científicos, que precisam de tempo para se sedimentar, imediatamente foram adotados.


Todos quantos opiniões divergentes tivessem, ainda que estruturadas em evidências, passaram a ser chamados de “negacionistas” ou “terraplanistas”, palavras que muito evocam e pouco dizem, tornando, cada vez mais presente em nossas vidas, o direito à liberdade de expressão em termos, aquela que permite ao interlocutor expressar apenas aquilo que o receptor da mensagem quer ouvir.


Não bastasse isso, medidas restritivas das liberdades deambulatórias e sem nenhum sentido foram adotadas, tais como a de redução dos horários de circulação do transporte coletivo, a propiciar a superlotação destes nos poucos em que disponível.


Se você, dentro desse contexto, acredita-se preso dentro de uma obra ficcional ao bom estilo de 1984, Fahrenheit 45 ou Admirável Mundo Novo, seja bem-vindo, acabas de perceber o seu ingresso no Mundo Bani.


Em 2018, antes do início da pandemia, o antropólogo Jamais Cascio, para explicar o horizonte que se descortinava, cunhou o acrônimo BANI (Brittle, Anxious, Non-linear e Incomprehensible) que em português podemos traduzir como Frágil, Ansioso, Não-linear é Incompreensível.


Este mundo, então uma perspectiva quando o termo foi cunhado, no curso da pandemia se tornou uma triste realidade, nunca nos sentimos tão frágeis diante da escancarada efemeridade da vida; a ansiedade do dia a dia da pandemia foi-nos fiel companheira; o trôpego curso da razão humana mostrou-nos como a linha reta nem sempre é a menor distância entre dois pontos; e que tentar entender e compreender o humano durante crises é quase impossível.


Agora, no que parece ser o estertor da pandemia, é hora de se fazer o rescaldo do que nos aconteceu, de bom e de ruim, e prever o futuro que nos aguarda.


Infelizmente, ao que tudo indica, o Mundo Bani e as suas tristes mutações vieram para ficar e o que perdemos perdido está sem a mínima chance de recuperação.


A certeza que resultou da crise é que certezas não existem.


E que Deus tenha piedade de nós!