MULHERES QUE ATIRAM

As mulheres que vivem e se expressam de modo diverso dessa histeria coletiva

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 30/08/2021 - 21:02 hs

Sexta feira foi um dia especial para mim. Estive no Gunner, o melhor clube de tiro do Rio de Janeiro, e iniciei a minha jornada nesse delicioso mundo que é o de saber atirar, como forma de defesa pessoal. Lá, existem cursos exclusivos para mulheres, instrutoras também mulheres, e que sabem fazer a abordagem correta - mulheres são diferentes de homens em altura, força física, velocidade de reação, e na hora de atirar, isso precisa ser levado em conta.

            Achei fascinante o fato de ter podido manter minha feminilidade ( eu havia ido ao Gunner para o lançamento de um livro, e estava usando jóias, salto alto, saia... ), sem que esta fosse um impeditivo para que eu empunhasse uma Glock dourada, e começasse a disparar no alvo. Uma frase da instrutora me chamou muita atenção: “a arma é como a caneta que você usa no seu trabalho e no dia a dia - pode servir para o bem e para o mal, pode destruir pessoas ou escrever coisas belas e verdadeiras, dependendo do uso que se dá a esta. Com a arma, ocorre o mesmo”.

            A agenda progressista fez com que, no mundo todo, fosse criada uma mentalidade pró-desarmamento, por meio de idéias falsas que vão sendo incutidas nas mentes das pessoas. As mulheres, sobretudo, foram absolutamente desestimuladas a saberem atirar e se defender, como se, diante de um ataque, fosse possível dialogar, cantar “imagine” ou oferecer flores, a fim de demover o bandido de praticar a violência iminente.

            Violência se combate com força. E é por isso que precisamos saber atirar. Vivemos tempos terríveis, em que as agressões aos direitos e liberdades nos chegam de todo lugar. Sou uma defensora fervorosa de que homens e mulheres são diferentes, e possuem funções complementares, na vida e na sociedade. Mas isso não retira das mulheres, de forma alguma, o direito de aprenderem a se defender.



            Creio firmemente que a mulher, mesmo em um cargo militar ou de comando, age de modo diverso dos homens, com muita sensibilidade e evitando posições de ataque, valorizando mais as de defesa e prevenção. Entretanto, ainda assim, precisa ter a capacidade de repelir uma injusta agressão, com os meios necessários para fazê-lo.     

            Embora seja promotora de justiça há 24 anos, e atue em área criminal, tendo porte de arma autorizado, em decorrência da função, nunca tive arma de fogo. Achava difícil a logística de aprender a atirar, não possuía local para treinar, fui deixando para lá, acreditando que isso nem combinava comigo. Há cerca de um ano, comecei a pensar seriamente sobre o assunto, e o desejo de me armar surgiu. Mas, para isso, seria preciso, antes, saber manejar a pistola ou o revólver.

            Pois bem, desse problema eu já estou tratando, tendo aulas de tiro. Tenho certeza que isso não me torna menos feminina, não modifica meu papel, tampouco me transforma em algo que não sou. Apenas me dá maior potência para proteger a mim e aos meus filhos, e até mesmo a terceiros, de ameaças.

            A sociedade foi desarmada, no Brasil, sendo o porte de arma autorizado em hipóteses bem restritas. Foi difundida a idéia de que possuir arma é perigoso e desaconselhável, e que devemos buscar soluções pacíficas para os conflitos. Bem, isso seria maravilhoso, desde que fosse respeitado por todos. Porque aqueles que se dedicam à criminalidade e à ilegalidade, estão armado até os dentes, e não tem escrúpulos de usar suas armas contra os que estão indefesos.

            Cria-se, então, uma situação de absoluto desequilíbrio de forças, que faz da coletividade presa fácil para os bandidos. As mulheres, sobretudo, pela menor força física e pela quase absoluta certeza de que estarão desarmadas, são o alvo preferido dos criminosos. O criminoso tem a convicção de que suas vítimas estarão sempre em situação vulnerável.

            As mulheres não possuem como primeiro instinto a força bruta. A sensibilidade, a compreensão e a piedade são as primeiras características que emergem da figura feminina, e em situações de confronto não é diferente. A natureza humana organizou-se assim, e sempre coube às mulheres o papel de contemporizar e buscar soluções, orquestrando as relações de seu entorno, enquanto a reação violenta é inerente aos homens.

            Portanto, muito embora o mundo esteja de cabeça para baixo, e falar de feminilidade e suavidade esteja fora de moda, a mulher que porta uma arma, somente a saca com a finalidade de defesa, evitando ao máximo a sua utilização desnecessária, por não ser de sua natureza agir de forma diferente.

            Todo esse discurso ideológico do desarmamento, reverbera sobretudo entre o público feminino, uma vez que a imagem da mulher moderna tem sido representada por corpos sarados, rostos modificados, lábios preenchidos, seios turbinados, esvaziando-se completamente a importância dos demais atributos da personalidade, como intelectualidade, capacidade de conduzir-se no mundo e deixar um legado, maturidade...

No modelo de mulher atual, o porte de arma fica fora de contexto, já que a mulher tem que estar sempre pronta para seduzir e chamar a atenção dos homens. Chega a ser engraçado: a mulher lutou tanto para garantir direitos similares aos dos homens, para agora aceitar passivamente ser exibida diuturnamente como um objeto sexual, sendo coisificada o tempo todo, ficando sua personalidade, suas virtudes e sua trajetória de vida em segundo plano.

            As mulheres que vivem e se expressam de modo diverso dessa histeria coletiva, firmando-se por seus feitos e atitudes, acabam por ter um papel importante na modernidade: podem ser arautos da Inteligência e do amadurecimento da personalidade, em um mundo dominado por modelos que não se sustentam após uma breve análise. Poder portar uma arma e defender os seus entes queridos, faz parte desse posicionamento. Sem perder sua feminilidade ou negligenciar seu papel na sociedade, na família e no ambiente de trabalho, a mulher ganha potência.

“Empoderada”, para utilizar um termo que está em alta, não é a mulher que abusa de seu sex appeal, de roupas decotadas e curtas demais, e de seu poder de sedução, mas depois diz “meu corpo, minhas regras”. Tampouco a que compete com os homens, tornando-se agressiva e agindo com brutalidade, quando contrariada. Não é também, de modo algum, a que se vitimiza para conseguir o que deseja, colocando-se sempre em situação de suposta inferioridade, e depois comemorando o que obteve por meio de manipulação e mentiras.

Desejo a todas as mulheres uma vida plena de realizações, cada uma podendo exercer seus direitos e escolhas com autonomia e liberdade, sem os rótulos e modelos pré-fabricados, que tanto mal fazem a todas nós. Cuidar do corpo e da aparência é muito importante e saudável, mas não devemos dar a alguns atributos valor maior do que estes devem ter, sob pena de nos tornarmos frívolas, superficiais e inseguras, sempre dependendo da legitimação alheia. Quem não amadurece a personalidade, tomando posse de si mesmo, não é capaz de conduzir-se de forma plena no mundo.