CONFUSÕES IMEDIATAS DA TERCEIRA INSTÂNCIA

Por DARTAGNAN ZANELA 12/09/2021 - 22:29 hs

Bolsonaro é o Jango da direita. Isso mesmo. O Jango da direita.

 

Tempos atrás, estava matutando e, como todo caboclo que gosta de deitar gostosamente suas vistas nas páginas empoeiradas da história, ocorreu-me essa analogia entre o presidente Jair Bolsonaro, e seu conturbado mandato, com o finado João Goulart, quando este ocupou a cadeira presidencial dessa pátria de chuteiras.

 

Sim, eu sei que existem boleiras de diferenças entre ambos. Se olharmos com atenção a biografia, a personalidade, o contexto vivido por cada um, encontraremos muitíssimas diferenças. Muitas. Sei disso, cara pálida.  Mas também encontraremos pencas de semelhanças.

 

Por isso, ciente desse fato, proponho a realização de uma comparação entre alguns pontos que me levaram a afirmar que o atual presidente da república pode ser considerado, em alguma medida, o Jango da direita.

 

Dito isso, vejamos. Ponto um: Jango quando assumiu a presidência do Brasil, assumiu por meio de uma gambiarra jurídica que transformou nossa república presidencialista numa estrovenga parlamentarista. Já no primeiro ano do mandato de Bolsonaro, tentou-se implantar o que a grande mídia e muitos parlamentares convencionaram chamar de “parlamentarismo branco”. Inclusive muitos órgãos da grande mídia tratavam o então presidente da câmara, Rodrigo [Botafogo] Maia, como sendo o “primeiro ministro” do hipotético e hiperbólico “parlamentarismo branco”.

 

Ponto dois: Jango, pobre homem, tinha contra ele praticamente toda grande imprensa, exceto, é claro, o jornal Última hora de Samuel Wainer. Bolsonaro, por sua deixa, mesmo antes de receber a faixa presidencial, já tinha toda a grande mídia contra ele e, ao que tudo indica, continuará tendo-a como inimiga até o final dos tempos.

 

Ponto três: havia um clima de conspiração no ar no tempo em que João Goulart governou o nosso triste país. Haviam conspiração à esquerda, à direita e vindas, inclusive, do centro fisiológico; e Jango, tentava de tudo que era jeito uma maneira de permanecer na presidência até o fim do seu mandato. A tensão era geral e, para engrossar mais ainda o caldo, o ambiente internacional estava condicionado pelas tensões fomentadas pela Guerra Fria.

 

Bem, atualmente, não podemos negar que há um tremendo clima conspiratório no Brasil, vindo da esquerda, dos fisiológicos, da esquerda da direita e, é claro, da direita também; e, tudo isso, devidamente misturado dentro duma crise sanitária e política internacional, fomentada em boa parte pelo imperialismo Chinês e pelo desenrolar acelerado da agenda do famigerado Great Reset. E, Bolsonaro, no meio desse furdunço todo tentando se manter na presidência.

 

Quarto ponto: Jango realizou no dia 13 de março de 1964, numa sexta-feira, um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde reuniu aproximadamente duzentas mil pessoas. Após esse ato, no dia 30 de março do mesmo ano, participou de uma reunião com a Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, na sede do Automóvel Clube do Rio de Janeiro, proferindo um discurso bastante contundente e, no dia seguinte, como todos nós sabemos, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação de tropas de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro. Game over.

 

Jair Bolsonaro, por sua deixa, também tem recebido o apoio de muitos policiais em muitos Estados (o quanto essas manifestações são sinceras nós não sabemos). No dia 07 de setembro de 2021, como todos muito bem sabemos, ocorreram manifestações no Brasil todo. Não apenas nas capitais, mas também em inúmeras cidades do interior. Boleiras de pessoas foram às ruas e, inclusive, uma multidão [portentosa] se fez presente na praça dos três poderes onde o “Presidente Motoqueiro” fez um discurso contundente. Não apenas em Brasília, ele também o fez na pauliceia desvairada. Está faltando apenas a reunião com os oficiais de baixa patente para o caldo entornar.

 

Existem outros pontos de encontro, porém, creio que esses são mais do que suficientes para vermos que o próximo passo dessa história pode ser, sim, um golpe e Bolsonaro pode terminar sua carreira política de forma similar a Jango e, se isso ocorrer, as próximas páginas da história do Brasil podem ser similares à história que foi vivida em nosso país após 1964; porém, não serão páginas fardadas não. As vestes serão outras e o passo truculento que poderá ser implantado por aqui irá nos levar para um rumo totalitário incerto à bombordo.

 

Enfim, como havia dito no início dessa escrevinhada, essa não é uma análise política, nem um prospecto histórico, nem um exame sociológico. O que esse escrevinhador procurou apresentar foi apenas um modesto exercício imaginativo a partir de alguns pontos de encontro entre dois momentos históricos. E espero, francamente, que esse exercício imaginativo esteja redondamente errado.