O CANTO DO CISNE DO BASTARDINHO DE AZEITÃO

EVOÉ!

Por RÔMULO PAIVA FILHO 17/10/2021 - 03:11 hs


Bom dia, amigos do vinho. Hoje o tema da coluna remete à tristeza e a saudade de um precioso vinho que infelizmente está extinto: o Bastardinho de Azeitão. Vinho licoroso português produzido na Península de Setubal, mais precisamente no sul do Rio Tejo, entre a Costa da Caparica e o Lavradio. As vinhas que produziam esse raríssimo vinho infelizmente foram arrancadas na década de 1980 em nome da expansão urbana. A empresa produtora José Maria da Fonseca efetuou a última vindima em 1983, com uma tonelada de uvas provenientes de vinhas com 90 anos de idade, as quais tinham cerca de 18 graus de graduação alcoólica. Em 2005 a José Maria da Fonseca tentou ressuscitar o vinho plantando meio hectare da casta Bastardo (Trousseau) numa de suas propriedades mas os próprios produtores reconhecem que será muito difícil fazer o mesmo vinho num futuro próximo. 


Segundo Domingos Soares Franco, enólogo da José Maria da Fonseca, sobraram apenas 2.300 litros do Bastardinho, o que exige todo rigor e solenidade no ato de degusta-lo: “É o verdadeiro canto do cisne, um dos vinhos que mais me emocionou ao ser lançado no mercado”. Quando se fala no Bastardinho de Azeitão, o sentimento que aflora é um misto de saudade, tristeza e melancolia, ingredientes típicos da alma portuguesa. O Bastardinho de 40 anos é, segundo Domingos, “Um vinho de aromas muito intensos e complexos, de grande intensidade em boca e com um final de prova muito prolongado e equilibrado, dada a acidez que ainda mantém”. Deve ser servido como vinho de aperitivo ou sobremesa a 16 graus de temperatura. Como passou por uma oxidação natural durante o período de envelhecimento, o vinho não terá qualquer evolução após o engarrafamento mas uma vez aberta a garrafa, pode-se consumi-lo por um longo espaço de tempo.


Eu tive a chance e a sorte de adquirir uma garrafa dessa joia em estado líquido, graças ao meu mestre Gerson Lopes, que certa vez fez uma degustação desse precioso néctar e disponibilizou algumas poucas garrafas para venda. Minha garrafinha de 30 anos está adormecida na adega, aguardando uma ocasião muito especial para degustarmos esse espécime extinto do mundo do vinho. Em 2017 ele foi considerado um dos melhores vinhos de Portugal por uma conceituada revista. 


Certamente quando eu abrir essa garrafa, vou sorver gota a gota e tirar o máximo de prazer, da mesma forma que a vida deve ser vivida.


Bem, amigos, vou ficando por aqui. Até domingo que vem, se Deus e Baco assim o permitirem.


EVOÉ!