SOBRE A ARTE DE ESCREVER

No exato instante em que vos escrevo essa crônica, parto rumo ao desconhecido. Empreendendo na arte de ensinar em Portugal!

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 02/11/2021 - 20:58 hs

Apaixonei-me pelo livro A Vida Intelectual, de A D. Sertillanges. A obra explica como é o processo que leva do pensamento à escrita, e que transforma integralmente a trajetória de uma pessoa. Parafraseando Aristóteles, “o começo é mais da metade do todo”, e essa é uma sentença que impulsiona a todos para que comecem.

E como encontrar um estilo, uma inspiração, um método para escrever? Afinal, colocar pra fora o que vem da alma não é algo simples, tampouco corriqueiro. Hoje, lê-se muito pouco, a internet está no celular, na palma da mão, e à medida que o imaginário não é despertado, por meio da leitura, a transpiração de idéias é reprimida.

Até a década de sessenta do século 20, antes do advento da televisão, lia-se muito, escrevia-se mais ainda, e o fluxo de correspondências era imenso. Cartas eram trocadas, emoções registradas, impressões postas no papel, para eternizarem-se. Do mesmo modo eu as fotos reveladas, as cartas e cartões escritos contavam histórias.

Sertillanges escreveu este livro no começo do século 20. À época, era imperioso escrever. E através do que ensinava, ali, criava um manual para os que desejavam a evolução pessoal, por meio da vida intelectual. Tudo isso deixou de ser importante, no mundo instantâneo e tecnológico em que vivemos. Estamos pagando um preço alto pelo abandono da intelectualidade.

Compartilharei aqui algumas pérolas, contidas em seu livro, as quais evidenciam o quanto escrever organiza o pensar, o ser, o existir.  Eu mesma, somente na segunda metade da vida, passei a me dedicar a isso. Nunca soube qual era meu estilo, não colocava minhas idéias no papel. E não conseguia me organizar por dentro.

No caminho evolutivo que venho percorrendo, entretanto, escrever tornou-se algo fundamental: escalona meus pensamentos, estrutura minha ação, ressignifica as coisas da vida para mim. Ao reler o que eu mesma criei, analiso se tenho andado na estrada correta, ou se é preciso corrigir o percurso.

Uma das passagens que adoro, no livro de Sertillanges, é: “O estilo forma-se portanto junto com o escritor, o mutismo é uma diminuição da pessoa. Se você quer ser em plenitude, do ponto de vista intelectual, é preciso pensar alto, pensar explicitamente, quer dizer, formar por dentro e por fora o seu verbo” (pág 172).

O que o autor quis dizer com isso? Creio tratar-se, claramente, de um convite ao amadurecimento. À medida que se vai evoluindo como pessoa, ousando, inovando, conhecendo-se, transformando-se, vai-se tendo a necessidade de externar, registrar, e com isso, deixar uma marca no mundo. O que se pensa, julga-se importante de ser escrito, e o que se forma internamente, surge no mundo real, no papel.

Se o que importa, nessa vida, é a sua narrativa como ser humano, estar totalmente conectado com a verdade, e poder externa-la, por escrito, é a prova de que você entendeu o caminho. Por isso, o autor diz que o importante é escrever com verdade, individualidade e simplicidade. E pondera: “Um estilo é verdadeiro quando responde a uma necessidade do pensamento e se mantem intimamente em contato com as coisas” ( pág 173).

O padre Antonin Dalmace Sertillanges foi um clérigo francês, que difundiu o pensamento de Santo Tomás de Aquino. Escrevia de modo simples e direto, objetivo e claro, de modo a ajudar leigos e religiosos, na compreensão da obra tomista. Escreveu “La Vie Intellectuelle” (A Vida Intelectual) em 1921.

Santo Tomás foi um grande estudioso da obra de Aristóteles. Se Platão revelou Sócrates para o mundo, após ter sido seu aluno, uma vez que Sócrates não deixou obra escrita, Aristóteles bebeu da fonte de ambos, e registrou a filosofia de sua época. Muitos séculos se passaram, nos quais essa filosofia restou esquecida. Até que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino lançaram luz sobre esses pensadores gregos, trazendo para o mundo tesouros dantes esquecidos.

Em determinada passagem do livro, o autor nos diz que, com muita frequência, procrastinamos o começo das coisas, por achar que agora não há tempo suficiente, ou que não poderemos dedicar-nos por inteiro à tarefa. Isso vale, também, para a leitura e a escrita. Ora, nunca sabemos quando será nosso último dia, nossa última hora, nosso último suspiro. É imperioso começar uma obra ou uma atividade enobrecedora já. A acertar, aprende-se errando.

Diz, também, que “buscar a aprovação pública é negar ao público uma força com que ele contava”. Quantos não escrevem somente pensando na aceitação? Quantos não represam suas opiniões, por medo da não aceitação? Ou sua força interior é suficiente para blindá-lo do receio da opinião alheia, ou você não estará compromissado com a verdade.

No exato instante em que vos escrevo essa crônica, parto rumo ao desconhecido. Empreendendo na arte de ensinar em Portugal, e ajudando a realizar o sonho de muitos, que não imaginavam ser tal feito possível, sinto-me realizada.

Minha realização pessoal iniciou-se com a aprovação no concurso para Promotora de Justiça, em 1997. O nascimento de meu primeiro filho, em 1999, coroou esse primeiro estágio de conquistas e vitórias. Outras sucederam-se. Mais um filho chegou. A vida intelectual foi postergada, para depois que tudo se acalmasse.

Anos se passaram, e em 2016 voltei a estudar. Contudo, a realização pessoal plena somente tornou-se possível com o início da escrita. A arte de escrever foi desenvolvendo-se aos poucos, dentro de mim, após começar a me aprofundar com seriedade em temas outros, que não o Direito.

A História, a Filosofia, a Antropologia e a Simbólica trouxeram, para minha existência, sentido e pertencimento. O conhecimento por presença, a aplicação prática dos ensinamentos intelectuais adquiridos, tornou-se uma realidade. Passar isso adiante, uma necessidade.

Um ano e meio depois, mais de duas centenas de artigos publicados em diversos veículos, mormente na Tribuna Diária, e um livro lançado, pela Editora Armada, com assuntos que retratam essa minha busca (não à toa, chama-se Em Busca da Verdade), tais feitos autorizam-me a alçar novos voos.

A partir do início do ano que vem, turmas inteiras de alunos desembarcarão em Coimbra, para uma imersão em Direitos Humanos, por dez dias, que lhes conferirá um título de especialização. Possibilitar-lhes isso é realizar um projeto que alia História, estudo, cultura, arte e congraçamento de todos, em busca de algo maior: a sabedoria. 

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Sou coordenadora desse projeto, juntamente com um amigo de quase três décadas. Nossas trajetórias são parecidas, e nossos objetivos, similares. Posso dizer com convicção plena que a escrita me possibilitou isso, expandindo minha consciência, explorando meu imaginário, realçando meus planos. Escrever é desnudar a alma. E junto com isso, muita coisa boa vem.

O nome do nosso projeto é TriviumEstudos. Trivium foi o nome dado, na Idade Média, às três artes do conhecimento: a lógica, a gramática e a retórica. E conhecimento é o que desejamos trazer, para todos os que embarcarem nessa aventura conosco.