OS REVOLUCIONÁRIOS DE FÁBRICA: Parte 4

A igualdade é um valor absoluto?

Por Francisca Irina 09/11/2021 - 14:07 hs

 

A actual obsessão pela igualdade produz neuroses que se manifestam em diversas outras obsessões inconscientes: obsessão pela hierarquia, obsessão pela diferença, obsessão pela superioridade.

 

Podemos facilmente observar nas atitudes daqueles que se consideram paladinos da igualdade uma pretensão de superioridade quando procuram impor a sua narrativa aos que não se vergam a ela, e esta é uma atitude que, se não admite, pelo menos pressupõe um sentido de hierarquia.

 

Na realidade, a igualdade é um ideal que serve como condimento, não como prato principal. Na cadeia de relações e dependências, antes da igualdade está a hierarquia, e entre elas medeia o princípio da proporção; por isso, a igualdade deve manter-se circunscrita aos seus limites e à sua base real, pois a sua abstração pode transformá-la em obsessão ou compulsão, e é esse movimento que dá origem às neuroses.

 

Para começar, devemos deduzir da observação da realidade que não existe igualdade no sentido absoluto, isto é, os homens não nascem iguais nem em aparência, nem em posição social, nem nos laços familiares, no lugar, nas capacidades, na saúde, na beleza, nas tendências, nos talentos, nem nas personalidades. Porém, nascemos iguais no sentido da espécie. Todos temos o mesmo círculo de latência (1) que circunscreve a espécie, isto é, todos pensamos, sentimos, agimos, queremos, contemplamos, amamos, enfim, em tudo aquilo que é próprio do homem, ao menos em potência, somos iguais.



Há coisas que temos em comum, às quais não nos é possível escolher que seja de outro modo, por exemplo, todos nós nascemos de uma mulher, e todos nascemos nus. Quando morremos, fazemos a passagem sozinhos, ou pelo menos, sem companhia humana. O momento da morte restringe-se à consciência individual, tal como os pensamentos, os sentimentos, e todas as coisas impossíveis de partilhar directamente com outras pessoas. Esta é a nossa condição: iguais nuns aspectos, perfeitamente distintos em outros.

 

Aqueles que procuram impor um modelo de sociedade baseado numa igualdade impossível, buscam operar uma mudança artificial que, para ser bem sucedida, terá de mutilar a natureza humana. Terá também de mutilar muitas naturezas pessoais, restringir muitas vocações, e limitar muitos potenciais génios.

 

Se há uma vontade de operar uma mudança na sociedade, pressupõe-se que alguém tem de ser testemunha dessa mudança. Neste caso, e para os efeitos da narrativa igualitária, a testemunha seria um observador inventado, abstracto, impessoal, numa palavra, a própria sociedade. Mas a sociedade não tem olhos para ver, nem juízo para ajuizar. As testemunhas reais seriam cada um de nós. Deparamo-nos então com uma limitação, pois cada um de nós é demasiado pequeno para testemunhar todos os seres humanos. A única testemunha da humanidade como um todo é o todo omnisciente, e se é testemunha tem de ser uma pessoa. É o mesmo a quem chamamos Deus.

 

Acontece que, se somos iguais de alguma forma, somo-lo por causa Desse que nos fez assim. Por mais tautológica que esta dedução pareça, em determinadas coisas, isto é, nas coisas estruturais da nossa realidade, não podemos dizer outra coisa que não “é assim porque é assim que é”.

 

Nunca seremos iguais perante outros olhos que não os de Deus. E é um mistério que aos seus olhos sejamos tanto iguais como únicos e distintos. E nunca seremos absolutamente iguais, mas sim em valor, perante Ele, e nunca perante a sociedade.

 

A crescente obsessão pela igualdade, por se tratar, na prática, da defesa de um conceito abstrato e relativo, manifesta-se de uma maneira bem intrigante, e até aparentemente contraditória, na sociedade atual. Observamos que muitos daqueles que militam por uma suposta igualdade tendem a apresentar-se de forma cada vez mais diferenciada. A obsessão pela igualdade vem junto com uma obsessão pela diferenciação. Daí vermos muitos jovens que se apresentam com uma estética cada vez mais extravagante, contra-canónica, chocante, e no fundo, individualista. Junto com a sua obsessão pela igualdade veio a exigência de serem aceites na sua individualidade. Porém, essa pretensa individualidade não se ancora no ser real, essencial, substancial da pessoa, mas apenas na aparência, na matéria. Não é o verdadeiro indivíduo que ali se manifesta, mas uma simulação de originalidade.

 

Isto acontece, parece, porque estes indivíduos pretendem obter igualdade na sua individualidade, e esta é a boa raiz de uma perversa e desviante loucura. Ao exigir que a sociedade os veja a todos como iguais em valor, apesar das suas individualidades, colocam-se numa posição de palrador sem audiência, pelos motivos que já explicamos acima. O único capaz de nos dar a consciência do nosso valor é o observador omnisciente, Aquele que gerou cada individualidade, cada “pessoalidade”, à sua própria imagem.

 

Assim, o ideal da igualdade deve manter-se dentro do seu limite, que é o espírito humano. Serve como referência para nos olharmos a nós próprios, mas de nenhum modo ele é sinónimo de justiça. Pelo contrário, aquilo que é justo é aquilo que é apropriado, adequado, certo, e é, portanto, relativo especificamente a cada contexto. A justiça é um ato profundamente complexo e exige o conhecimento de toda a conjuntura da realidade, e sendo de tal modo, a nossa só pode ser imperfeita. A justiça só pode ser perfeita quando aplicada por Aquele que tudo vê e tudo sabe, pois só com o conhecimento da verdade absoluta é possível o julgamento verdadeiro.


 

(1) “Todas as percepções sensíveis são acompanhadas de um círculo de latência que já nos dá uma ideia das possibilidades de acção e transformação dos entes, e isto não é acrescentado à percepção por raciocínio.” Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho, Exercícios e Indicações Práticas, Mário Chainho e Juliana Camargo Rodrigues, 2012