REVOLUCIONÁRIOS DE FÁBRICA - Parte 5

A encruzilhada dos direitos e deveres

Por Francisca Irina 17/11/2021 - 19:31 hs

Este ponto é delicado, confesso. Falar de direitos como sendo “alienáveis” ou, como eu pretendo explicar, como sendo criados em conjunto de algum modo, e não dados à priori, pode parecer contrariar a noção de “direito natural”. Porém, não é isso que se pretende. Já dizia o nosso Professor Olavo de Carvalho que os direitos que o conservador geralmente chama de naturais são, em maior rigor, sobrenaturais.

 

Digo que qualquer direito estabelecido na esfera humana é passível de ser alienado, e para entender isso basta olhar ao nosso redor. O facto de haver um esforço humano interminável na defesa dos direitos prova que eles são facilmente violados.

 

Por que relaciono com a mentalidade revolucionária a ideia de que os direitos são inalienáveis e absolutos? É simples, porque os revolucionários pensam e agem como se eles fossem – e também o dizem. Ou melhor, pensam e agem como se os SEUS direitos fossem absolutos, pois na sua concepção do mundo, toda a moralidade é subordinada ao plano revolucionário.

 

 

Estamos num ponto na nossa história política em que os movimentos de esquerda conseguem mobilizar multidões que marcham incansavelmente pela ideia de que todas as necessidades humanas são direitos, e todas elas devem ser supridas pela via política. No entanto, como abordo de forma simples neste vídeo, os direitos que este grupo reivindica não são acompanhados dos deveres correspondentes. Esses deveres ficam a cargo do Estado, libertando o indivíduo da sua responsabilidade moral. Isto é uma perversão do conceito de direito. E se formos analisar quais são mesmo os direitos que esse grupo reivindica, vemos que eles são perversões daquilo a que temos chamado de direitos naturais, por exemplo:

 

        o Direito à Propriedade, que não só exige da pessoa o respeito pela propriedade do outro, como também exige que ela carregue o peso e a responsabilidade de cuidar e manter a sua própria propriedade, transfigura-se nas noções de “Direito à Habitação”, “Direito ao Rendimento Básico Incondicional”, e outros produtos do mesmo tipo das políticas revolucionárias. Estes “novos direitos” à habitação ou ao rendimento básico não pressupõem qualquer esforço ou dever por parte do requerente. Segundo a ideologia, a pessoa não precisa fazer nada além de existir para ter uma casa e remuneração. Não é preciso pensar durante muito tempo para entender que esta é uma atitude de extorsão;

 

        o Direito à Liberdade Individual, que, como no anterior, exige do indivíduo o respeito pela liberdade do outro e a responsabilidade de conduzir bem a sua própria vida, transfigura-se no direito à libertinagem, no direito ao auto-engano como nos casos do transtorno de identidade de género, enfim, é a velha história da serpente no jardim: o homem torna-se o conhecedor do bem e do mal, não como o observador do bem e do mal, mas sim como o criador do bem e do mal. É, numa palavra, uma pretensa ascensão que oculta a verdadeira Queda.

 

O Direito à Vida, que nasce do valor intrínseco do indivíduo, e que pressupõe que ele não se criou a si mesmo, mas foi criado pelo Supremo Bem, transfigura-se num direito narcísico, como se vê nitidamente nas argumentações em favor do aborto: segundo esta concepção do mundo, o direito que a mulher alegadamente tem de tomar decisões relativas à sua vida justifica o assassinato do seu filho no ventre. O direito à vida não se estendeu a esse filho, mas ficou contido na mãe. O Direito à Vida, que envolvia o reconhecimento, por parte do indivíduo, do seu Criador, bem como a consciência de ser co-criador, participante na aventura da vida, chamado a ela por esse mesmo Criador, transfigurou-se no direito da pessoa ditar o seu próprio valor em função da sua auto-imagem, e independentemente da estrutura da realidade.