VALORES INEGOCIÁVEIS

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 22/11/2021 - 21:51 hs

Ontem à noite eu desliguei a TV e fui dormir, com a sensação de haver tomado um soco no estômago. Terminei de assistir à série MAID, na Netflix, e independentemente dos (péssimos) comentários feministas que li sobre esta, fato é que a série gira em torno do título deste artigo: quais valores são, verdadeiramente, inegociáveis para você?

            Alex, vivida pela atriz Margaret Qualley, deixa um relacionamento abusivo, fugindo com a filha, Maddy, em plena madrugada. Sem poder contar com parentes ou amigos, Alex vê-se em uma encruzilhada, na qual precisa encontrar meios de prover o sustento de sua pequena, cuja guarda não admite perder.

            O valor inegociável da vida de Alex, percebe-se claramente desde o início, é criar a própria filha. Por esta, Alex sacrifica-se, vai ao limite de suas forças, submete-se a situações terríveis, busca meios de dar a Maddy um mínimo de normalidade, muito embora sua realidade esteja absolutamente caótica.

            A série é baseada no livro homônimo da escritora Stephanie Land, e narra a trajetória desta, de um modo relativamente fiel aos fatos, desde o momento em que deixou um relacionamento em que sofria violência psicológica severa. Ao vislumbrar as dificuldades e frustrações que a autora superou, pus-me a pensar sobre os valores que defendemos e as coisas que amamos.

            Alex ama duas pessoas: sua filha e sua mãe, uma mulher com transtorno borderline, que jamais conseguiu exercer seu papel de modo adequado. A mãe, também vítima de violência, perpetrada pelo pai de Alex, vai de um relacionamento abusivo para outro, negando a realidade o tempo todo.

            A protagonista, em contrapartida, vive totalmente inserida em sua própria realidade: sabe que não pode contar com a mãe para nada (inclusive, cuidou desta desde os seis anos de idade), deseja com todas as forças ficar com a filha, entende que o único emprego viável para ela, no momento, é o de faxineira, e busca, dentro dessas circunstâncias, organizar-se.

            Esses são dois fatores que chamaram minha atenção, na série: a capacidade de Alex, de aceitar a própria circunstância e sua convicção ferrenha de que, por Maddy, tudo vale à pena. Quantos de nós seríamos capazes de manter a fé, a dignidade e a força de nossa personalidade, dentro desse contexto?

            Wolfgang Johanes Von Goethe, escritor alemão, autor de FAUSTO e outras obras primas, cunhou a seguinte frase- “a maior força do ser humano é a sua personalidade”. E foi sobre isso que MAID me fez refletir. Alex consegue, por meio de uma personalidade amadurecida e voltada para o bem do outro, evoluir e entregar o seu melhor, mesmo dentro das adversidades que enfrenta.

            Ao invés de vitimizar-se, culpabilizar terceiros, buscar o caminho mais fácil ou acomodar-se em situações confortáveis ( como por exemplo hospedar-se na casa do pai), seu desejo de proporcionar uma vida diferente da que teve, para sua filha, é o que a move, para frente e para o alto.

            Normalmente, em situações de extrema dificuldade, não somos capazes de adotar essa postura. Buscamos culpados, brigamos com Deus, tentamos justificar atitudes equivocadas e covardes, afinal, somos humanos. Então, quando nos deparamos com a força de uma personalidade madura, nos constrangemos, por não sermos capazes de entregar a mesma resposta.

            Alex, no caminho que escolhe trilhar, ao longo dos dez episódios da série, dispensa romances com pessoas a cujo sentimento de amor não corresponde e favores, cujo preço a pagar será alto demais para ela. Aceita ajuda governamental, para não aceitá-la de pessoas pouco confiáveis, como seu pai, por exemplo.

            Seus valores inegociáveis não autorizam-na a pegar atalhos, os quais a levariam a situações que ela conhece, pois lembra-se, com clareza, da trajetória da mãe. Ela compreende que precisará lutar, contando somente consigo mesma, e que ninguém nos deve nada, nessa vida.

            Em determinado momento, como todos nós, Alex sucumbe. Entrega os pontos após ser demitida da empresa de faxina, aceita ajuda do ex-marido e retorna ao ciclo vicioso de violência e desrespeito que vivera antes. O amor por Maddy, contudo, salva Alex do abismo, e ela retoma seu próprio caminho.

O amor pela mãe, desenvolve nela a compreensão de que cada um é o melhor que consegue ser. Alex tem compaixão e paciência, é cuidadosa e prestativa, amorosa e amiga. Essa redenção que advém do amor pelo próximo, aliada ao desejo de sair de sua situação precária, impulsiona a protagonista.

            Discurso feministas absolutamente inócuos tomaram conta de debates, acerca da série. Frases como “mulheres só se ferram”, “por isso que não quero ter filhos”, “mulher tem que se casar com o emprego”, “homem não presta” e outros, foram frequentes em fóruns de discussão sobre o programa.


            Entretanto, essa é apenas uma forma simplista de definição da realidade. O que Alex traz, com sua conduta, é totalmente diferente disso, é o outro lado da moeda. Ela mostra que filhos podem, sim, transformar nossa vida, e que o amor pode nos salvar, principalmente de nosso próprio egoísmo.

            Mostra-nos, também, que nenhuma situação é tão ruim, que não possa ser revertida, e que o vitimismo no qual as minorias baseiam-se (inclusive o movimento feminista), paralisa a ação e impede que realizemos o nosso potencial, alimentando em nós a raiva e o ressentimento. Sobretudo, ela nos dá um testemunho de que a bondade, a verdade, a honestidade e a firmeza de propósitos têm lugar, neste mundo, e nos levam à evolução.

            A mensagem da série é potente, ainda, no sentido de demonstrar que não podemos ficar presos ao nosso passado, repetindo padrões no presente e no futuro, responsabilizando eternamente os nossos pais. Se o que nós vivenciamos foi ruim, doloroso, traumático ou limitador, sempre é possível focar no agora, avançar, modificar a realidade, dispensando narrativas que nos impedem de seguir em frente.

            Recomendo fortemente que todos assistam a MAID. Eis uma série moderna e atual, que nos permite, entretanto, absorver valores e ensinamentos muito frutíferos para nossas vidas. Ao invés do discurso lacrador que norteia alguns artigos sobre os episódios, podemos extrair beleza, nobreza e maturidade, de toda a aridez ali exibida.

            Quais são os seus valores inegociáveis?