A FÁBRICA PATRIÓTICA DE SÃO JULIÃO

Conheça Romualdo José Monteiro de Barros (Barão de Paraopeba) e a primeira indústria nacional

Por Evandro Monteiro de Barros Jr. 23/11/2021 - 18:27 hs

 

Romualdo José Monteiro de Barros (Barão de Paraopeba) nasceu em Congonhas do Campos-MG, aproximadamente em 1766. Ele era o quarto filho dos Patriarcas da Família no Brasil, Manoel José Monteiro de Barros (Guarda-Mor das Minas de Ouro Preto) e de Margarida Eufrásia da Cunha Matos, e era irmão de Lucas Antônio Monteiro de Barros, Visconde de Congonhas do Campo com Grandeza.

Consta no Livro de Casamentos da Paróquia da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica, aberto em 1782 e encerrado em 1827, o seguinte: “No dia 21 de Novembro de 1795, Romualdo José Monteiro de Barros casou-se com dona Francisca Constância Leocádia da Fonseca, filha de José Veríssimo da Fonseca e Ana Felizarda Joaquina de Oliveira; o casamento ocorreu na Capela da Ordem Terceira de São Francisco”.



O Barão foi um homem prolífero que colaborou com o surgimento e desenvolvimento da indústria nacional, destacando-se pela primeira fábrica de fundição de ferro no Brasil, a Fábrica Patriótica de São Julião, criada em 1812 contando com a ajuda do Barão Wilhelm Ludwig Von Eschwege (1777-1855), um engenheiro alemão que chegou ao Brasil em 1810 com o intuito de empreender nas áreas de mineração e siderurgia, Von Eschwege assumiu o Real Gabinete de Mineralogia no Rio de Janeiro, pois havia sido contratado pela Coroa portuguesa por indicação de José Bonifácio em 1803 para realizar estudos do potencial mineralógico do Brasil.


Aventuras na História · José Bonifácio: o nome pouco lembrado no processo  de Independência do Brasil


Em 1811, após o Decreto que permitia o estabelecimento de fundições no Brasil promulgado pelo Príncipe Regente Dom João VI, houve a criação da Companhia Patriótica pelo Barão de Paraopeba e seus irmãos Lucas Antônio Monteiro de Barros (Visconde de Congonhas) e Coronel José Joaquim Monteiro de Barros, empreendimento que deu origem a Fábrica que ficou sob a liderança do Barão de Eschwege, devido ao seu conhecimento sobre mineração.

A produção do ferro pela fábrica iniciou-se em 12 de dezembro de 1812 e consistia no carregamento dos fornos com carvão e minério. Sabe-se que no auge de sua produção eram produzidas cerca de duas mil arrobas de ferro anuais, que eram utilizadas na fabricação de pregos e ferraduras para a região.



Além da Fábrica Patriótica, o Barão de Paraopeba possuía uma mina de ouro chamada Veeiro, localizada em Congonhas do Campo – MG.  Na Mina do Veeiro encontram-se diversos trilhos e vagonetes que estiveram em plena atividade até o final da década de 1850, como é possível contemplar nas fotos inéditas do acervo de Diego Costa.

Segundo o Barão Eschwege, Romualdo utilizava animais de carga para conduzir vagonetes pelos trilhos buscando empregar o mínimo de trabalho escravo. Segue uma nota feita pelo Barão de Paraopeba a respeito do assunto:

 

“Romualdo José Monteiro de Barros, Professo na Ordem de Cristo e Coronel de Milícias: Atesto e faço certo, que por insinuação do Tenente-Coronel Guilherme, Barão de Eschwege, fiz construir uns engenhos para reduzir a pó e ao mínimo tempo lavar a formação de pedra da minha lavra, seguindo-se em tudo a sua direção com que principiei logo a perceber a grande vantagem de tirar 26 oitavas de uma mina abandonada pela sua pobreza, no curto espaço de mais de dois dias de trabalho, em que foram ocupados apenas dois escravos, vantagem esta que não percebia com 30 praças ocupadas na mesma mina, em uma semana, e por esta me ser pedida a passei para constar. Morro de Santo Antônio, 13 de maio de 1815. R. J. M. de B.”

Consta nas fontes que o Guarda-Mor Manuel José Monteiro de Barros, pai do Barão de Paraopeba, recebeu 14 sesmarias quando veio do norte de Portugal. Assim deu início ao complexo sistema produtivo na esfera agrícola, formado por um conjunto de fazendas que juntas totalizavam cerca de 25.000 alqueires de terras.


Os primeiros anos da siderurgia : Revista Pesquisa Fapesp


O Barão de Paraopeba possuía diversas fazendas e lavras como, por exemplo, Goiabeiras, Veeiro, Santo Antônio, Figueiredo, Três Forquilhas, Gentio, Grota Falcão, dos França e Cafundó. Ocorre que sua residência era na Fazenda da Boa Esperança, cujas terras foram adquiridas em 1790 com a finalidade da mineração das lavras de ouro. A residência foi construída durante os primeiros anos do século XIX e finalizada em 1822. O casarão possui cerca de vinte e quatro cômodos com forro em gamela, trinta e seis portas de cedro, trinta e sete janelas, e uma extensa varanda com forro feito em madeira de taquara, que em um de seus lados possui mais de vinte metros de comprimento, contando com arcadas e janelas compostas de treliças.

A Capela foi construída colada à varanda, no edifício principal, e foi pintada e ornamentada em estilo rococó, contando com altar decorado em ouro pelos artistas Francisco Viera Servas e João Nepomuceno. O Mestre Manoel da Costa Ataíde fez os painéis e os quadros da capela que retratam o evangelho. A Capela dispõe de janelas no interior da casa, de onde as mulheres da família ou convidadas assistiam as missas realizadas.

Em frente da casa foram plantadas quatro sapucaias das quais duas existem até hoje e no meio delas havia antigamente um chafariz, que era utilizado pelos moradores da Casa para a captação de água, ao redor da residência principal existe um pomar composto principalmente de jabuticabas e outras frutas.

A Fazenda de Boa Esperança foi sede de inúmeros encontros políticos devido à participação do Barão de Paraopeba no Governo Provincial de Minas Gerais. Recebeu inclusive  uma vista do Imperador Dom Pedro II e de sua esposa a Imperatriz Teresa Cristina, que lá pernoitaram nos fins da década de 1840.

Em 1959, a Fazenda da Boa Esperança, foi tombada pelo IPHAN com o aval de Gustavo Capanema e Lúcio Costa. Ela está sob administração do IEPHA desde 1974 e foi restaurada desde 1990 e mais recentemente em 2018.

Romualdo José era Cavaleiro da Ordem de Cristo e seu título de Barão consta no decreto imperial de 02 de dezembro de 1854. Ele foi soterrado por conta de um acidente enquanto supervisionava uma de suas minas, tendo sido retirado com vida do local, mas não resistiu e faleceu no dia 16 de dezembro de 1855.



 Príncipe e Duque de Campos, Marquês Monteiro de Barros. Jurista e professor. Membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Congonhas (IHGC). Chanceler do Círculo Monárquico de Campos dos Goytacazes – RJ e Grão-Chanceler da Ordem Fanariota de Cavalaria.



 

REFERÊNCIAS:

ANTEZANA, S. L. V. Projeto Fazenda Boa Esperança: Diagnóstico sociocultural das comunidades quilombolas de Boa Morte e Chacrinha dos Pretos, Belo Vale em Minas Gerais. Belo Horizonte: IEPHA-MG, 2016.

BROTERO, Frederico de Barros. In: A Família Monteiro de Barros. São Paulo: (s.n) 1951. p. 16-25; p.273-275. ESCHWEGE, Wilhelm L. Von. In. Pluto Brasilienses – Primeiro Volume. Tradução de Domício de Figueiredo Murta. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1944. p. 45; 70; 315 e 353-355.

MARTINS, Tarcísio. In: Fazenda Boa Esperança – Belo Vale. São Paulo: Giz Editorial, 2007. p.23. PINHO, F. A. & NEIVA, I. K. D. A Fábrica Patriótica In. PINHO, F. A. & NEIVA, I. K. D. A. 200 anos Fábrica Patriótica: a primeira indústria de ferro do Brasil. Belo Horizonte: VALE, 2012. p. 30-37. TICLE, Maria L. S. In. Fazenda Boa Esperança: História e novos usos de um patrimônio cultural tombado. In. Revista IEPHA 2019. Belo Horizonte: Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais. p. 93- 104. Sites: Genealogia do Barão de Paraopeba: https://ancestors.familysearch.org/en/LHRM-9YW/romualdo-jos%C3%A9-monteirode-barros-1766-1855 Acessado em 02/10/2021. Genealogia da Baronesa de Paraopeba: https://ancestors.familysearch.org/en/LHRM-9YG/francisca-const%C3%A2ncialeoc%C3%A1dia-da-fonseca-1773-1855 Acessado em 05/10/ 2021. O Barão de Paraopeba e seus descendentes: http://alemparaibahistoria.blogspot.com/2010/08/o-barao-de-paraopeba-e-seus.html Acessado em 28/09/2021. Vídeos: A Fazenda Boa Esperança e suas contribuições para o Vale do Médio Paraopeba: https://www.youtube.com/watch?v=1SXLGCssYE0 Acessado em 10/10/2021. Fazenda Boa Esperança- Belo Vale, MG: https://www.youtube.com/watch?v=9c_qG1um7A8