ORDEM ILEGAL NÃO SE CUMPRE!

Para além das questões ideológicas, essa lição precisa ser lembrada, de tempos em tempos...

Por Lorena (Duquesa Bessières D´Ístria) 26/11/2021 - 19:50 hs

(...) A decisão é tua! Deves vir diretamente a Brasília, correr o risco e pagar para ver. Vem. Toma um dos teus filhos nos braços. Desce sem revólver na cintura, como um homem civilizado. Vem como para um país culto e politizado como é o Brasil e não como se viesse para uma republiqueta, onde dominem os caudilhos, as oligarquias que se consideram todo-poderosas. (...) – Leonel Brizola, dos porões do Palácio Piratini em Porto Alegre, sob ameaça de bombardeio aéreo em 1961, narrando ao povo o que disse por telefone a João Goulart, em Paris.

 

Em agosto de 1961, Leonel Brizola - então governador do Rio Grande do Sul -, requisitou a Rádio Guaíba e a instalou nos porões do Palácio Piratini. De lá, ele transmitiu a Campanha da Legalidade, convocando os brasileiros de todas as partes a se unirem em defesa da Constituição Federal e da posse do vice-presidente João Goulart.

O governador daquele povo com fama de bravo, no extremo sul do Brasil, foi mais longe: conclamou os demais latino-americanos a se apoiarem mutuamente pela liberdade, pela legalidade e para protegerem a soberania das suas nações. A Rede da Legalidade estava formada: milhares de estações radiofônicas atentas, em todo o continente, retransmitindo o apelo gaúcho.

Aderiram milhares de jornalistas, professores, militares, gente de vários lugares. As testemunhas contam que quando Brizola começou a discursar, havia aproximadamente 5 mil pessoas diante do Palácio. Apenas uma hora depois, havia mais de 50 mil pessoas aglomeradas em frente ao Piratini, em demonstração de apoio à Legalidade, após saberem do risco de bombardeio.

Orlando Geisel – Wikipédia, a enciclopédia livre

(...) diz o general Orlando Geisel, da ordem do marechal Odílio Denys, ao III Exército: "(...) O III Exército deve agir com a máxima urgência e presteza. Faça convergir contra Porto Alegre toda a tropa do Rio Grande do Sul que julgar conveniente. A Aeronáutica deve realizar o bombardeio, se for necessário. Está a caminho do Rio Grande uma força-tarefa da Marinha de Guerra e mande dizer qual a reforço de que precisa. (...) – Leonel Brizola, dos porões do Palácio Piratini em Porto Alegre, sob ameaça de bombardeio aéreo, 1961, relatando ao povo o que acabara de saber e confirmar, por mais de uma centena de telefonemas. Temendo a união entre as lideranças gaúchas civis e militares, o governo central decretou Ordem de Bombardeio ao Palácio Piratini, sede do governo sul-rio-grandense, no coração de Porto Alegre.

Havia uma grande mobilização local. O Regimento Bento Gonçalves, da Brigada Militar, montou barricadas na Praça da Matriz e metralhadoras antiaéreas foram instaladas no terraço do Palácio. Voluntários armados surgiram de várias partes, convocando a cidadania ao alistamento da iminente guerra civil, tão somente 116 anos após o fim da Guerra dos Farrapos.

Corajosamente, os combatentes da Base Aérea de Canoas, apesar de incomunicáveis, sob ameaça e desarmados, se recusaram a cumprir a Ordem de Bombardeio, mantendo-se fiéis a Porto Alegre a à Constituição Federal, evitando que o sangue brasileiro fosse derramado. Sabotaram o carregamento dos caças, esvaziaram pneus, asseguraram a inacessibilidade ao material necessário para a decolagem.

Na capital, de um lado a outro do Morro dos Quarteis, havia uma linha de defesa de metralhadoras, pois a maioria dos aquartelados defendia o respeito à Constituição. Diante desse cenário, o general Machado Lopes, comandante do III Exército, percebeu que não teria o menor apoio da tropa e aderiu à Legalidade.


NGB - Contratorpedeiro Ajuricaba - A 3/D 11


A bordo do contratorpedeiro Ajuricaba, destinado a bloquear o porto de Rio Grande contra os legalistas, os oficiais da Marinha foram aprisionados por seus subordinados, em um motim histórico.

Aqueles insurgentes lutaram pela legalidade, defenderam a Constituição Federal com as suas próprias vidas, impediram a morte de inocentes e mostraram que ordem ilegal não se cumpre.

Essa lição que precisa ser lembrada, de tempos em tempos.