A VINHA COM SEDE

EVOÉ!

Por RÔMULO PAIVA FILHO 28/11/2021 - 10:09 hs


Bom dia, amigos do vinho. Hoje vamos falar um pouco sobre a água, fonte de toda a vida. Sem água não conseguimos sobreviver e obviamente isso se aplica também a vinha que produz a uva a partir da qual é feito o vinho nosso de cada dia. Diferentemente de outras plantas que florescem e dão bons frutos quando estão em solo rico e com abundância de água, a vinha precisa sofrer. Quanto mais pobre for o solo, mais ela lutará para sobreviver e dar o melhor de si para produzir bons frutos. Como dizem os franceses, “Il faut que la vigne souffre” (a vinha precisa sofrer) e isso se aplica tanto aos nutrientes contidos na terra quanto à água. O estresse hídrico, ou seja, a pouca irrigação da vinha, é extremamente benéfico para a qualidade da uva, mas até que ponto? É justamente sobre isso que vamos falar hoje.


Se a vinha tiver acesso abundante à água, ela vai se dedicar apenas a crescer e não a produzir bons frutos. Por outro lado, se cortarmos uma boa parte da irrigação, ela produzirá frutos de má qualidade e poderá até mesmo morrer. O alquimista suíço Paracelso dizia que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem, por isso os vitivinicultores encaram o grande desafio de graduar com perfeição o abastecimento de água das vinhas de modo a produzir as melhores uvas. Vamos imaginar uma vinha submetida a um estresse hídrico extremo, tendo que se esforçar ao máximo para achar a água, qual seria o resultado? Certamente muito açúcar, nenhuma acidez, taninos duros, sabores flácidos. Já no outro extremo surgiriam frutos com muito pouco açúcar, muita acidez e vinhos muito ligeiros.


Inúmeras pesquisas vem sendo desenvolvidas nos últimos anos visando encontrar o ponto ideal do estresse hídrico. Em 2017 especialistas chilenos e alemães estudaram o efeito do manejo de água nas Vinhas de Carmenere em Peumo, Chile. Eles aplicaram cinco tratamentos diferentes na irrigação das vinhas: 0%, 20%, 40%, 75%, 100% da evapotranspiração (perda de água estimada do vinhedo) durante três safras consecutivos, entre 2004 e 2007. A aplicação de 100% não teve efeito substancial nos parâmetros de qualidade avaliados. A irrigação de 0% resultou em produção significativamente reduzida. Já a irrigação de 20 a 40% produziu um alto rendimento de 13 a 16 toneladas por hectare, o dobro da produção média histórica, e vinhos de alta qualidade. Esses vinhos foram avaliados por um painel de análogos da concha e Touro. As utilizações dos tratamentos de 20 e 40% foram apontadas como semelhantes ao tratamento sem irrigação, porém com o dobro do rendimento. Dadas as condições da região produtora, é possível aumentar os níveis de produção da uva, como nas duas últimas safras, sem reduzir a qualidade do vinho, concluiu a pesquisa liderada por Jorge Zara, da Universidade de Concepcion. Segundo o mito que mencionei no início do artigo, a  vinha precisa de muito estresse para produzir boas chuvas e consequentemente um bom vinho. Mas os estudos feitos, como esse que mencionei acima, indicam que embora esse estresse seja bom, em algum ponto ele pode se tornar prejudicial. Vinhas com muita água e nutrientes crescem muito a cobertura das folhas, sombreando as frutas, resultando em uvas grandes, de pouca cor e com sabores diluídos. Por outro lado, vinhas com pouca água e nutrição não produzem folhas com qualidade suficiente para amadurecer os frutos e podem deixar os cachos expostos as queimaduras do sol. O ideal, então, é ter vinhas equilibradas e em “Cachinhos Dourados”, nem muito nem pouco, na medida certa suficiente para a fotossíntese e sombra intermitente.


Bem, amigos, vou ficando por aqui. Domingo que vem tem mais, se Deus e Baco assim o permitirem. Até lá!

EVOÉ!