UMA QUESTÃO DE TEMPO

Estou exatamente onde devo estar, e sei disso.

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 29/11/2021 - 22:12 hs

De vez em quando, a Netflix nos presenteia, com aquele tipo de filme que se deseja que jamais termine, pelos sentimentos que nos desperta, ao ser assistido. Assim é QUESTÃO DE TEMPO, que, muito mais do que uma comédia romântica, é uma lição de vida.

            Estrelado por Rachel Mc Adams e Domnhall Gleeson, sua sinopse gira em torno de uma revelação feita ao esquisitão Tim, por seu próprio pai (Bill Nighy) quando o jovem completa 21 anos, de que os homens da família podem viajar no tempo, revisitando momentos de seu passado e até mesmo alterando situações.

            A narrativa mostra, então, como Tim faz para corrigir uma série de atitudes que considera terem sido idiotas, revivendo-as de outro modo. Age assim, inclusive, para reformular seu primeiro encontro com a futura esposa, vivida por Rachel.

            O filme consegue ser muito profundo, sem perder a graça e a leveza, e me fez lembrar da frase de C. K. Chesterton, que diz que felicidade consiste, de verdade, em viver uma vida normal, com sua família absolutamente normal, ou seja, pode-se ter um cotidiano de gostos e hábitos corriqueiros e simples, mas repleto de amor e generosidade.

            E assim transcorre o filme. O casal de protagonistas namora, se casa e vive sua história de amor, em companhia de suas famílias, seus amigos e, posteriormente, seus filhos, do modo mais singelo, despretensioso e afetuoso possível. Ali sobram virtudes e bons sentimentos, o que torna tudo mais fácil, até mesmo os momentos mais pesarosos.

            A certa altura do filme, Tim descobre que, embora tenha o dom de  reviver momentos, não deseja mais voltar atrás e modificar o passado: faria tudo exatamente do mesmo modo, caso pudesse escolher, pois gosta de toda a sua trajetória, e das escolhas que fez até chegar ali.

            E que coisa maravilhosa ter essa sensação! Quantos de nós podemos dizer, que caso houvesse chance, não mudaríamos nada, pois nos orgulhamos do caminho percorrido? É realmente um privilégio que, dentro de uma vida absolutamente normal, não se deseje alterar o passado, para impactar deferentemente o futuro.

            É exatamente neste argumento que reside a beleza do filme, no qual o diretor Richard Curtis esbanja delicadeza e sensibilidade. Porque infelizmente, nesse mundo de prazeres efêmeros e amores instantâneos, é cada vez mais difícil gostar do cotidiano, do jeito que este se apresenta, com suas nuances e desafios, suas alegrias e tristezas, sem querer testar outras combinações.

            Sempre desejamos mais. Queremos fazer tudo diferente, o tempo todo. Nos questionamos, diante do mundo de possibilidades que a modernidade nos apresenta, se fazemos as escolhas certas. Temos ânsia de viver, e não percebemos que, nessa urgência, deixamos de desfrutar cada dia mais um pouco.

            Tim decide, após alguns anos, que melhor do que viver voltando no tempo, para consertar comportamentos, é viver cada dia prestando a máxima atenção aos detalhes. Percebe que o importante é estar presente, em tudo que se faz, para que se possa absorver o máximo da realidade, e se exercite a gratidão.

            A logoterapia é uma modalidade de tratamento psicológico que exercita esse tipo de postura perante a vida: a de agradecimento e observação, baseada na vivência do presente. Porque, quanto mais inseridos estivermos nas nossas realidades e em nossas ações, mais seremos capazes de valorizar as dádivas diárias que recebemos de Deus, enxergando beleza em nosso cotidiano.

            O grande problema da velocidade e da instantaneidade dos tempos atuais é esse: as pessoas não se detêm nas coisas mais simples. Na pressa de tudo realizarem, de não terem tempo, de desejarem sempre tantas coisas, perdem a oportunidade de valorizar os instantes e os pequenos gestos.

            Um poema que é atribuído ao escritor Jorge Luis Borges, já falecido, embora seja de autoria desconhecida, já trazia essas preocupações, há 4 décadas. Chama-se INSTANTES, e dizia, em seu finalzinho: “pois disso é feita a vida, de momentos, não percas o agora”.

O texto discorria sobre todo o tempo que o escritor desperdiçara ao longo da vida, encerrando com a melancolia de quem constatava que já não havia mais chance de mudar o modo como fizera as coisas, pois estava morrendo.

Eis aí mais um aspecto do filme que me encantou: como o pai do protagonista, por já ter voltado no tempo diversas vezes, sabia que morreria cedo, aposentou-se bem cedo, para dedicar-se à família o máximo possível. Valeu-se de uma revelação preciosa- a da hora de sua morte - para tornar sua vida diferente e doar-se integralmente aos que amava.

Nós não possuímos essa informação. Não podemos prever quando e como partiremos. Precisamos, por isso, viver cada dia de um modo pleno e útil aos que amamos, para que não tenhamos motivos para arrependimentos. Precisamos agir como se fôssemos partir. Esse é o recado mais importante do filme.

Portanto, nesse domingo nublado em que vos escrevo, eu já desfrutei da companhia dos meus filhos, cozinhei para eles, estudei, fiz exercícios, cuidei da minha cadelinha, assisti a um filme maravilhoso, e espero o entardecer com a sensação de dever cumprido, e de que meu dia não podia ter sido mais especial.

Hoje, com felicidade constato que não desejo, do meu dia-a-dia, nada muito diferente do que ele me oferece, e aproveito todas as oportunidades e situações que se apresentam. Estou exatamente onde devo estar. E sei disso.

As oportunidades que nos são concedidas, diariamente, podem ser de crescimento ou de doação, de oração ou de estudo, de convivência, de gratidão, de autoconhecimento e cuidado, de afeto e muitas outras. Não saberia elencar quantos pequenos milagres nos acontecem todos os dias, sem que estejamos atentos para percebê-los.

Então, o que eu desejo a todos, nessa semana que se inicia, é que prestem atenção, e colham da realidade as manifestações diárias que Deus nos dá, de que nos ama, está conosco e espera de nós a realização de nosso potencial. Esse é o maior presente que podemos receber.