O BONZINHO

Onde a babaquice não tem fim.

Por DIOGO SIMAS 01/12/2021 - 22:38 hs

O bonzinho era calvo. A barriga era farta, inversamente proporcional aos raros fios de cabelo. Eu tinha uns vinte anos. Eu lia algo que não tinha a ver com a matéria que o professor lecionava enquanto eu fumava (sim, eu e nós fumávamos em ambientes fechados) um charuto que um amigo da época de Universidade e de hoje conseguia a preço de custo.

Eu estava na minha. O bonzinho falava sobre os bons costumes e fazia um abaixo-assinado para proibir, digamos, revistas e filmes impróprios.

Eu pedi licença. Falaria sem licença.

— O senhor tem quantos anos?

— Setenta e cinco.

— O senhor se converteu há quantos anos?

— Há cinco anos mudei de vida.

— Então o senhor viveu na putaria a vida inteira e agora, na minha vez, você virou bonzinho e quer os bons costumes?! Quando eu tiver a sua idade assino sua lista.

Costumes? Não exatamente, mas a hipocrisia aliada à babaquice é digna dos santos que não saem dos puteiros.

Vamos seguir.



Eu não ligo para o que falam de mim. Não por falta de vaidade, ou para pagar de gostoso, de quem não liga, de quem é superior. O fato é que eu não ligo. Não sei a razão e não tenho saco para buscar a razão ou o sentido de tudo. Para mim, muitas coisas não têm sentido e a contingência mostra isso todos os dias. De fato, meu tempo é escasso, eu sou viciado em trabalho, sou ansioso e acaba que não me sobra muito tempo para me preocupar com o que falam de mim.

E tenho a total noção da minha irrelevância. Minha opinião é puramente o que eu penso com base nas minhas experiências, conversas, leituras, músicas, filmes, peças, viagens.

Por que eu escrevo?

Porque eu gosto.

Eu gosto e eu faço.

Quem não gosta, que não leia.

Simples, não?

Há bonzinhos.

Há quem se incomode. Há quem não consiga suportar minha arrogância, minha deselegância, minha falta de respeito com quem pensa diferente e não consegue fingir que minha falta de educação não o incomoda.

Vamos lá...

Eu não necessariamente respeito a opinião alheia. Eu necessariamente respeito a vida, a liberdade — por isso respeito o direito de cada um falar o que bem entende ou não entende bem — e a propriedade alheia, mas não pise em mim.

Eu não respeito opiniões erradas e, sim, usando a razão é até fácil discernir o que é certo e errado.

Mas o bonzinho se dói.

Afinal, quando alguém não lhe dá a devida e merecidíssima atenção, trata-se de um crime mais indigno que os crimes que o bonzinho conhece e digno de seu ódio duradouro e fiel. Caso a vítima do crime da desatenção se trate de uma criatura pura, o choro copioso é belo e moral. Caso o justiceiro, bondoso e atencioso, trate-se de um marido cujo amor fraternal a todos, sem distinção de raça, cor ou parentesco, é caridosamente dado, isso é belo, moral e digno de acusar e julgar.

O bonzinho ama.

O bonzinho ama e sua vida é de uma pureza sacrossanta.

Deselegância?

Jamais.

Tudo em dia, produtos comprados e pagos e empréstimos sempre devidamente pagos.

O bonzinho jamais perderia sua carteira pela enésima vez para outros pagarem suas bebedeiras.

Mentir?

Jamais, nunca, em tempo algum.

Mas é tudo brincadeira, afinal, o bonzinho é adolescente e é tudo por amor. É tudo porque é bonzinho.

O bonzinho existe?

Sempre há um muito próximo a você.

Eu exponho o próximo?

O próximo há muito se expôs, pois sua bondade não encontra fronteiras.

Mas bonzinho, não me queira mal por outros me ouvirem e me lerem, pois se você não é ouvido e lido, eu não tenho culpa por você nada ter lido, nada ter feito e por você ser desinteressante.

Bonzinho, fale de mim e escreva sobre mim. Não caia na asneira de outro bonzinho que, amoroso como você, afirmou que eu não posso falar antes de meu irmão ser assassinado pela milícia. A bondade católica é imensa em seus corações.

Eu não tenho dúvida: você nasceu para ser padre, é um santo, um anjo. Você é bonzinho.

Você vai pro céu.



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