RETRATOS QUEBRADOS... FACES REVELADAS...

Por ADRIANO MARREIROS 10/01/2022 - 22:02 hs

Certos defeitos sanados com o tempo

Eram o melhor que havia em você

Oswaldo Montenegro

 

“Seu rosto em pedaços misturado com o que não sobrou do que eu sentia[1]...  Seu rosto?!  Não! SEUS rostos: muitos porta-retratos quebrados.  Muitos sentimentos que mudaram... decepção...  Como o Cavaleiro Inexistente do Ítalo, aqueles retratos não existiam de verdade, não correspondiam à realidade.  As rachaduras e rasgos já estavam lá — como eu não via?  Talvez a perda do olfato me tenha, só há pouco, aguçado a visão.  Sei lá.

Vejam o rosto dele: preto e branco, sorriso aberto, olhar firme.  Há pouco me trazia boas lembranças.  Você foi colorizado de forma estranha – você não foi hábil com os lápis —  e exibe alguém em busca de aceitação acadêmica, em busca de não destoar da manada e “certas canções que você não cantava, hoje assovia pra sobreviver[2].  Pior: você as berra com o entusiasmo de alguém que sempre as cantara... Pra que nem desconfiem do seu passado...



E o sarcasmo dela nesta outra?!  Uma risadinha irônica de quem acabara de debochar de uma coisa absurda que ouvira.  Lembro até hoje do comentário que você fizera.  Eu me cortei ao catar os cacos e a dor parece me impedir de ironizar você dizendo aquele mesmo absurdo que repudiava.  E só porque que te  chamaram pra entrar na ciranda: não na principal, que é de pedra[3], só pra eles, mas naquela dos figurantes que fazem qualquer coisa só pra ficar perto dos atores.

Já que falamos de atores, está bem rasgada esta foto deste conhecido.  Mas dá pra ver a convicção em seus olhos.  Qualquer um te acharia um cara resoluto.  Eu achei...  Mas você foi mais fácil, durou menos tempo meu engano.  Mas se antes eu achei que era pela liturgia da política, engolindo um sapo ou outro por ideais, depois eu vi que sopa de sapo poderia ser seu prato favorito, bem como um ridículo churrasco de melancia na segunda e que você até proporia que se comesse tofu com boldo na Terça.  Você degustaria, elogiando, qualquer coisa, lambendo os beiços, numa atuação digna de Oscar (dos tempos de Oscar politicamente correto), se isso te pudesse fazer aparecer mais, ganhar mais títulos e cargos.  Pior, você até ia querer obrigar outros a comer também.

Ah, quanta personalidade exala este outro rosto, agora esverdeado pela luz forte da janela.  Cheguei a achar que seria talhado para liderar em algum momento.  Mas, que tristeza, vi que era um daqueles que o João Guilherme descreveu certa vez: um chuchu – que tem gosto de carne ou de camarão, dependendo de quem manda no guisado...

Destes outros, caídos sob a mesa,  eu tenho mais pena.  Tão autossuficientes na imagem, tão senhores de si.  Mas trocaram todos os seus valores por causa do  novo emprego do filho ou pra ganhar pontos com a namorada nova...

Lembro do dia desta outra foto.  Você fez questão de tirar ao ar livre com um pássaro voando ao fundo.  Só falava em liberdade, até pra bandidos.  Tinha horror de tempos em que havia censura.  Hoje escreve inventando argumentos para justificá-la, fala de razões extraordinárias para se passar por cima de cláusulas pétreas; mas, temos que ser justos, você não mudou em tudo: continua defendendo a liberdade, mas só pra bandidos.  Pra quem não reza pela sua cartilha prega desumanização, prisão, cancelamento, silenciamento...

Ah, esta sala está uma bagunça...

 Ainda há muitos pedaços de vidro, madeira e de rostos pelo chão. 

Ainda há muitos móveis a empurrar para achá-los para poder ver suas verdadeiras faces.  Estou desanimado, vai dar muito trabalho, vou me ferir muito nos cacos, vou manchar ainda o chão com muitas gotas de sangue e, ferido, derramar muitas lágrimas porque os cortes e a Verdade doem...

“Ela pensa que vai ser protagonista

e acaba sendo cunhada de um amigo

 de um cachorro da Glória Pires na novela

Oswaldo Montenegro

 

Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)

 


Que já errou muito, mas que, ao menos, continua não cantando aquelas



[1] Tudo que vai: Capital Inicial

[2]  A Lista: Oswaldo Montenegro

[3] Ciranda de Pedra: Lygia Fagundes Telles