ALTA CULTURA NA CIDADE DAS ÁGUAS

IV FESTIVAL DE MÚSICA DE PARAGUAÇU PAULISTA

Por Davi S. Valukas Lopes 16/01/2022 - 19:30 hs

 

INTRODUÇÃO

 

Entre os dias 01 e 05 de dezembro de 2021, ocorreu a quarta edição do FEMUSPP, Festival de Música de Paraguaçu Paulista, cidade do interior de São Paulo já próxima do estado do Paraná.

 

Eu tive a oportunidade de estar no FEMUSPP pela segunda edição seguida, já que estive lá também em 2019 (a edição de 2020 foi cancelada por conta da pandemia).

 

Esse tipo de evento é sempre uma oportunidade de se encontrar pessoas que pensam a vida, a Cultura e a arte como eu. Tidos como idealistas ou até mesmo um pouco malucas por aqueles que só enxergam o lado materialista e econômico da vida, essas pessoas têm uma visão aguçada sobre educação, políticas públicas e de nação, pois possuem o refinamento intelectual, filosófico e espiritual para isso.

 

Eu cheguei a Paraguaçu no dia 30 de novembro e tive a oportunidade de já encontrar alguns velhos amigos, como o editor audiovisual Israel Mattos, a professora Leila Santos e o músico e pesquisador Roberto Kalili, que também escreve neste espaço, com sua sempre amável esposa Solimar. Já nesta primeira noite, eu escrevi, a pedido do Maestro Dante Mantovani e de seu sempre fiel assistente Samuel Nascimento, um texto em homenagem ao nosso amigo em comum, o genial professor Eloi Veit, que esteve na edição de 2019 do festival e infelizmente nos deixou pouco tempo depois. Eu recitei esse texto na penúltima noite do festival.

 

O INÍCIO DO FESTIVAL

 

O IV FEMUSPP teve início oficialmente na manhã seguinte, com uma palestra de Roberto Kalili sobre Alta Cultura e a importância do resgate cultural da tradição musical brasileira, e de como isso pode ser feito pelos músicos que devem estudar e gravar partituras importantes de nossos compositores que ainda permanecem inéditas.

 

Após a palestra, foram iniciadas as oficinas de instrumentos e de regência orquestral.

 

Uma curiosidade sobre esta edição do festival reside no uso inédito do Teatro Lucila Nascimento, que esteve em reforma durante as edições anteriores.

 

SOLENIDADE DE ABERTURA: A PRIMEIRA NOITE

 

Na noite do dia 01 de dezembro, ocorreu a solenidade de abertura do festival, com a presença de algumas autoridades do município, tanto do poder público quanto da sociedade civil. A patronesse do teatro, Dona Lucila Nascimento, esteve presente e foi agraciada com uma homenagem acadêmica por conta de seus serviços prestados à cultura. Além disso, a Sra Elza Vasconcellos Mantovani recebeu também uma homenagem acadêmica por conta de seu histórico empreendedor na cidade, ao lado de seu saudoso marido, o Sr. Dervil Mantovani.

 

Após a solenidade de abertura, pudemos apreciar um belo concerto de cellos e baixos com o conjunto Jup Graves, da cidade de Presidente Prudente-SP.

 

 

 

Nos dias subsequentes, além das oficinas musicais promovidas pelo festival e ministradas por renomados professores, como Marcelo das Virgens (metais), cellos (Júlio Possetti), regência orquestral (Dante Mantovani) e Natanael Fonseca (violino), eu pude ministrar uma palestra sobre cultura caipira, que chamei de "Trovadores da Paulistânia - O som da cultura caipira", título que faz menção ao imenso território composto pelo que hoje são diversos estados da federação e são fruto da colonização bandeirante, os responsáveis pela expansão do que viria a se tornar a cultura caipira.

 

Um festival de música é não apenas um encontro de profissionais, mas também de amigos. Comer um pastel e jogar conversa fora com meus amigos Leila, Roberto e Solimar após a minha palestra e comer uma pizza com eles e o maestro Dante Mantovani na noite de estreia, por exemplo, foi tão marcante quanto as atividades musicais realizadas nos cinco dias de evento. Comida, amizade e cultura são coisas que se harmonizam de maneira quase que sobrenatural.

 

Voltando à agenda oficial do IV FEMUSPP, o Grand finale de cada dia de evento eram os concertos noturnos no Teatro Dona Lucila Nascimento. Excetuando-se a noite de abertura, eu tive a honra de ser o mestre de cerimônias de todos os concertos, algo que me alegrou a alma.

 

O FUTURO DA MÚSICA DE CONCERTO: A SEGUNDA NOITE

 

Na segunda noite, tivemos a oportunidade de ouvir a Orquestra Jovem de Paraguaçu Paulista, grupo formado por talentos promissores do município, alguns em pleno florescer da adolescência. Ver jovens que normalmente não se interessariam por música erudita tocando violinos, trompetes, eufônios i tutti quanti encheu meu coração de esperança e felicidade. Pode ser que nosso futuro não seja tão sombrio quanto eu imaginara até ali.

 

A DIVA DO PIANO: A TERCEIRA NOITE

 

A terceira noite reservou a todos os espectadores que tiveram a sorte de ir ao Teatro Dona Lucila Nascimento naquela noite um momento épico: a diva do piano brasileiro, Eudóxia de Barros, executou um programa simplesmente assombroso, como tem feito nas últimas décadas. Eu tive a oportunidade de ouvir o programa que ela preparou para a temporada 2021 algumas semanas antes, de forma virtual, pois ela brindou a todos com um belo recital na residência do desembargador Dr. Paulo Lessa, na cidade de Cuiabá-MT, que foi transmitido ao vivo pelo YouTube. Mas vê-la ao vivo por trás das cortinas do teatro não tem preço!

 

Em 2019 ela já havia tocado no III FEMUSPP, na Catedral Nossa Senhora da Paz, e reencontrá-la pessoalmente foi um grande e distinto prazer.

 

OS CONJUNTOS DE CÂMARA: A QUARTA NOITE

 

A quarta e penúltima noite do festival foi reservada aos conjuntos de câmara, pequenos grupos que contêm de 2 a 15 músicos e recebem esse nome por conta da forma que nasceram: no final da Idade Média e início da Renascença, os reis e nobres contratavam poucos músicos para tocarem privativamente nas câmaras dos palácios.

 

Nos dias anteriores, eu pude acompanhar os ensaios do grupo que abriu a noite, o quarteto de madeiras, composto por Gabriel Goulart na flauta, André Matos e José Vitor nos clarinetes e Gerson Lins no fagote, músicos da cidade de Londrina-PR.

 

Em seguida, tivemos um duo: Natanael Fonseca no violão e Jairo Chaves na viola de arco, também de Londrina. Na sequência, Jairo continuou no palco para formar um duo com Eudóxia de Barros.

 

Depois disso, o pianista Hélder Araújo fez uma apresentação solo.

 

O jazz e o rock também tiveram espaço na noite, respectivamente com o quarteto formado por Hélder Araújo no piano, Gerson Lins no sax alto, Gilberto de Queiroz no baixo e Eddy Ieger na batera, e com o quinteto que contou com Hélder Araújo no piano, Marcelo Rondon na guitarra, Alice Sousa no baixo e Eddy Ieger na batera. Foi um encerramento em ritmo quente, ao som do melhor do rockabilly!

 

O GRANDE CONCERTO: A QUINTA NOITE

 

No domingo, dia 5 de dezembro de 2021, ocorreu o concerto de encerramento do IV FEMUSPP. Depois de tantos ensaios, todos tiveram o dia de folga a fim de recarregarem as energias para a grande noite.

 

Lembra que eu citei lá no início do texto que eu havia escrito uma homenagem ao nosso amigo Eloi Veit? Pois bem, pouco antes do início do concerto de encerramento, eu tive a oportunidade de ler o meu texto para o público, enquanto um slide exibia fotos do nosso amigo, algumas inclusive comigo.

 

Passado o momento de emoção, deu-se início ao espetáculo.

 

Foram executadas algumas obras do repertório clássico da música erudita, que são as seguintes:

 

- Abertura das Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart

- Primeiro movimento da Quinta Sinfonia de Ludwig van Beethoven

- Segundo e Quarto movimentos da Sinfonia Novo Mundo, de Antonín Dvoŕak

- Trecho da Primeira Sinfonia de Gustav Mahler

- Danúbio Azul de Johann Strauss

 

A abertura das Bodas de Fígaro foi conduzida pelo maestro Carlos Alberto Baxter, do Rio de Janeiro, aluno da Oficina de Regência Orquestral do IV FEMUSPP. As demais peças foram conduzidas pelo maestro Dante Mantovani.

 

Na valsa de Johann Strauss, O lago dos cisnes, houve a participação das alunas do balé do Paraguaçu Tênis Clube, que teve como uma das solistas a filha do Maestro Dante, Agnes Popovic Mantovani.

 

Para encerrar o IV FEMUSPP em alto astral, a esposa do Maestro Dante cantou, junto com  orquestra do festival e do guitarrista Marcelo Rondon a música Bohemian Rhapsody, da banda Queen. Nada melhor que um bom roquenrou para deixar a energia nas alturas!

 

E TUDO ACABOU EM PIZZA

 

Para encerrar a participação de todos os professores com chave de ouro, nos reunimos na tradicional pizzaria Dardanella, que é toda decorada com temática musical e já foi condecorada como melhor pizza do estado. Felizmente, tudo acabou em pizza... no sentido mais positivo do termo!