CLAUSEWITZ CONTINUA ATUAL

“A guerra é a continuação da política por outros meios”

Por LUIZ MARCELO BERGER 15/03/2022 - 18:52 hs

  

Não existe guerra aceitável. Não existe guerra justificável. Todas as guerras são catastróficas. Todas as guerras impõem tragédias, destruição e perdas inenarráveis, muitas vezes irrecuperáveis. No entanto, elas existem e continuarão existindo por um bom tempo. Pelo menos enquanto valer a máxima de Clausewitz: “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Portanto, para entender uma ação militar da magnitude da que ocorre na Ucrânia é necessário ultrapassar a casca superficial dos clichês midiáticos e buscar os reais interesses políticos e estratégicos que determinam a medida extremada do conflito bélico.

Afirmar por exemplo, que Vladimir Putin tem delírios de imperador romano tardio que busca anexar toda a Europa ocidental para assim formar um novo império, parece uma leitura reducionista, em desacordo com a biografia do líder russo, e principalmente com a histórica doutrina geoestratégica que tem orientado há décadas os líderes civis e militares daquele país.

 


 

É importante ressaltar que potências como Estados Unidos, Rússia e China possuem interesses de ordem global em permanente conflito desde o término da segunda guerra mundial, quando apenas de forma circunstancial se aliaram para destruir um mal maior, o nazi-fascismo.

O surgimento do bloco formado pela União Europeia é fenômeno recente e mesmo a OTAN, aliança militar ocidental, tem sua formação atual muito distinta de sua constituição original, consideravelmente menor do que seu estado atual. Ocorre que o avanço constante da aliança ocidental em direção ao leste europeu desempenhou papel decisivo no atual estado de beligerância.

De fato, uma análise mais serena e racional permite compreender que o atual estado de coisas não surgiu do dia para a noite, mas foi incubado ao longo de décadas, posicionando interesses diametralmente opostos em confronto aberto entre si, ainda que sobre as ruínas do extinto Pacto de Varsóvia, sepultado junto com o colapso da antiga União Soviética.

Para apreciar melhor o cenário que foi se formando ao longo do tempo e assim entender porque a Rússia tomou a decisão de atacar militarmente a Ucrânia alguns pontos fundamentais precisam ser expostos, ainda que sob hipótese nenhuma justifiquem ou sejam avalistas da medida extrema tomada.

A Rússia tem como doutrina estratégica prevalente a concepção de multipolaridade do poder global, recusando terminantemente papel acessório nas decisões tomadas no âmbito da governança global. Neste sentido, está alinhada com a China, que segue rigorosamente o mesmo curso de atuação política em relação a seus interesses no resto do mundo.