SENTIMENTALISMO NO XADREZ INTERNACIONAL

Fatos não se importam com boas intenções

Por LUIZ MARCELO BERGER 01/04/2022 - 08:08 hs


As regras que regem o xadrez internacional tem sido particularmente cruéis e implacáveis ultimamente, em especial quanto à realidade daquilo que é mostrado nos meios de comunicação. Felizmente, graças aos quase infinitos mecanismos proporcionados pela internet, manchetes trazidas pelos novos cavaleiros do apocalipse instalados no que convencionamos chamar atualmente de "midia" tradicional são desmentidas diariamente.

 

Para entender a extensão do fenômeno, basta perceber que até bem pouco tempo atrás o acesso àquilo que realmente está acontecendo no Brasil e no mundo estava condicionado ao filtro daqueles mesmos agentes que em menos de setenta e duas horas retiraram a pandemia das páginas  principais de todos os jornais e a substituíram pelo conflito na Ucrânia.

 

Muito provavelmente porque a intenção era justamente esta mesmo, criar factoides para gerar reações emocionais nas pessoas e assim favorecer interesses espúrios inconfessáveis, ainda que saber disto não altere em nada a gravidade do horror ora em curso naquele teatro de guerra.

 

Estes eventos trazem a lembrança uma já antológica entrevista ocorrida no Hoover Institution. O entrevistador Peter Robinson perguntou ao economista Thomas Sowell, por que ele havia deixado de ser marxista. Com o seu inigualável bom humor recheado da mais fina ironia, Professor Sowell respondeu: "fatos".

 

O problema para aqueles que propõem medidas desconectadas da realidade é que um tomador de decisão pode perfeitamente ignorar os fatos, mas nunca deixará de ser escravo das consequências,  ainda que não intencionadas.

 

O atual estado de beligerância estabelecido entre Rússia de um lado e Ucrânia e seus aliados na Europa Ocidental e Estados Unidos do outro é revelador desta lei imutável.

 

Ao invés de tentar desarmar os ânimos e desescalar as ações bélicas,  parte do establishment politico-militar ocidental decidiu dobrar a aposta, impondo aos russos medidas econômicas  sancionadoras sem precedentes na história, buscando de forma explícita colocar a Rússia de joelhos, colapsando sua economia.

 

Se existe uma lição de Sun Tzu que nunca deixou de ser atual é aquela que recomenda jamais  encurralar o adversário, deixando pouca ou nenhuma opção alternativa a não ser lutar, muitas vezes até a morte.

 

Não é preciso muito esforço cognitivo para constatar que a Rússia não é apenas mais um país na longa lista de nações no mundo. A Rússia tem importância. Muita importância. 

 

Sua longa história tem demonstrado à exaustão que estratégias de ameaça e intimidação normalmente não apenas fracassam, como em geral provocam reações contundentes e arrasadoras. O atual momento não é exceção a esta regra secular.

 

Medidas punitivas  tomadas no campo financeiro e econômico, estão até o momento longe de mostrar os resultados esperados, pelo contrário. Tem provocado efeitos indesejados consideráveis.

 

Países com  peso geopolítico e econômico no cenário global  não apenas estão reticentes quanto às ações tomadas pelos aliados de Zelensky como estão abertamente trabalhando contra elas, com especial destaque para China e em grande medida por países como Índia e Arábia Saudita.

 

Mais do que qualquer outro efeito, o atual estado de coisas tem demonstrado que o dólar, e particularmente o petrodólar, não tem mais o peso estratégico de outrora, demarcando uma visível  perda de importância americana na diplomacia mundial. A caótica e incompetente administração politica americana capitaneada pelo atual Presidente Biden é sintomática, neste aspecto.

 

Trata-se, portanto, de uma constatação  factual, como observaria Thomas Sowell, com enormes consequências, como por exemplo a destituição da moeda americana como reserva de valor e meio monetário global de transações, com severas implicações mundiais e especialmente para a saúde da economia americana.

 

Ao tentar encurralar um país como a Rússia, a elite financeira de Wall Street e da City de Londres empurrou o Urso asiático para os braços do Dragão chinês, ou seja, fez uma aposta arriscada demais até mesmo para a banca.

 

Pode-se, talvez, especular se esta medida radical não tenha sido uma ação desesperada para provocar o Great Reset de Klaus Schwab, em virtude do fracasso da histeria midiática covidiana em atingir este objetivo.

 

Neste caso, seria recomendável aos ilustres políticos envolvidos revisitar autores como John Mearsheimer, Thomas Sowell e Sun Tzu, entre tantos outros que oferecem bases teóricas  mais racionais para eventos tão explosivos como estes que estão ocorrendo entre Rússia e Ucrânia.

 

Fatos não se importam com boas intenções, muito menos com sentimentos, especialmente quando estão em jogo interesses geopolíticos de atores globais claramente conflitantes entre si. As pessoas estão percebendo a diferença, que agora não consegue mais ser escondida com tanta facilidade.