O SENSO DE DEVER

Coisas ruins também acontecem com pessoas boas

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 16/05/2022 - 20:46 hs

Acabei de assistir ao maravilhoso filme Downton Abbey 2- Uma Nova Era, no cinema. Desde que a série terminou, e deixou seus fãs órfãos, ao redor do mundo, essa foi a alternativa criada, para manter viva sua chama. Neste segundo filme, bem como no anterior (o qual, inclusive, acabei de rever), o senso de dever é o norteador das condutas e decisões, e a todo instante é evocado, pelos personagens.

            A família Crawley, protagonista da série, encabeçada pelo Conde e a Ccondessa de Grantham (Hugh de Boneville e Elizabeth Mc Govern), vive na propriedade herdada de seus antepassados, possui dezenas de criados, e precisa rebolar para sustentar a todos, em Downton Abbey. A cereja do bolo é a Condessa Violet, mãe do Conde, interpretada por Maggie Smith, cujas tiradas são, desde a primeira  temporada da série, imperdíveis.

A filha mais velha do casal, Lady Mary (Michelle Dockery), auxilia o pai, juntamente com o cunhado, Tom Branson (Aleen Leach), viúvo de sua irmã, Sybil (Jessica Brown), na empreitada de tornar a propriedade produtiva, contrariando a tese de que os nobres não precisam trabalhar, para sobreviver. A filha do meio, Edith (Laura Carmichael), é editora de uma revista, juntamente com o marido.

A série iniciou-se na primeira década do século XX, atravessou a primeira guerra mundial, terminou nos anos 20, e retornou, sob a forma de filmes, para seu público ávido por novidades da família mais amada da Inglaterra. Ao longo de suas 5 temporadas, mostrou nascimentos, mortes, erros e arrependimentos, triunfos e vitórias, alegrias e tristezas e, sobretudo, superação de desafios os mais diversos, por todos os personagens.

Os comentários daqui por diante contém spoilers. Lady Mary ficou viúva, no mesmo dia do nascimento de seu primeiro filho, tendo seu marido sofrido um acidente automobilístico. Veio a casar-se novamente. Lady Edith manteve uma gravidez em segredo, pois era solteira. Lady Sybil faleceu, deixando uma filha pequena e seu esposo, Tom, que foi motorista da família, no passado.

A casa da família tornou-se um hospital improvisado, durante a Primeira Guerra, e Sybil foi enfermeira. Mary precisou, desde cedo, abandonar seus sonhos de princesa e assumir as rédeas de negócios familiares. Edith, mais frágil e insegura, necessitou fortalecer-se e encarar as vicissitudes de sua vida real.

Em paralelo a tudo isso, as vidas dos empregados da mansão misturam-se com as dos protagonistas, gerando uma deliciosa receita de sucesso e muitas emoções. Anna (Joanne Froggatt), Barrow ( Robert-James Collier), Bates (Brendan Coyle), Daisy(Sophie Mc Shera), Mr Carson (Jim Carter), Mrs Hughes (Phyllis Logan) e muitos outros, orbitam em torno dessa família, de tudo fazendo para proporcionar-lhes conforto e bem-estar.

Mas por que cargas d’água estou narrando tudo isso? Ora, para dizer o que falei lá em cima: em todos os personagens da série, pode-se encontrar a exata noção do que é certo e errado, e mesmo quando estes dão passos em falso, sabem exatamente o que estão fazendo.

Desde o mais humilde ao mais nobre, todos ali evidenciam o rosto de um tempo que se perdeu, em que bem e mal não eram relativizados, e no qual cada um sabia o seu papel social, familiar e profissional. Mesmo quando algum dos personagens age de forma antiética ou desleal, há sempre outro que intervém, pontuando a conduta e demonstrando que esse não é o melhor caminho a ser seguido.

Nesse segundo filme, a determinada altura, lady Mary diz, a um admirador, que suas escolhas precisam estar pautadas em prol do bem maior – a estabilidade familiar.

Cora, a Condessa de Grantham, em outro momento, estando sob a suspeita de um câncer, conforta o marido dizendo-lhe que, na iminência da morte, ela podia ter a tranquilidade de dizer-lhe que viveu uma boa vida, repleta de amor, rodeada da família e recheada de boas escolhas, e que não possuía arrependimentos.

            O senso de dever está ali, em cada diálogo, em cada atitude, em cada gesto. Talvez esse tenha sido o grande feito da série: mostrar que tanto as pessoas humildes, quanto as mais abastadas, podem fazer boas escolhas, podem perseguir o bem viver, sendo vigilantes e honestas com suas condutas.

            Saí do cinema emocionada e inspirada. Emocionada com o enredo, inspirada a buscar ser melhor a cada dia. Não é uma tarefa fácil. Mas é possível, se temos a humildade de reconhecer as nossas fraquezas e más tendências, nossos defeitos e dificuldades. Podemos, sim, errar, acertar, cair, levantar...mas precisamos aprender com esses erros e tropeços.

            Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre quem eu quero me tornar, o legado que pretendo deixar, a trajetória que desejo seguir. Tem sido muito importante para minha evolução, até porque, como costumo dizer, meu temperamento colérico me atrapalha bastante, no controle dos impulsos, o que exige maior vigilância e autoanálise.

            Sei que estou no caminho certo. A felicidade, nesse mundo, é possível, ainda que jamais seja completa. Entretanto, quando olhamos parta a frente e para o alto, esta se torna mais palpável e real.

Há momentos muito duros, na vida. Situações desesperadoras, trágicas, tristíssimas. Faz parte. Coisas ruins também acontecem com pessoas boas. O filme mostra isso com exatidão. Mas também deixa uma lição de esperança: tudo passa. Tudo serve para nossa evolução. Downton Abbey é uma preciosidade, em meio a tanta porcaria que há, nos canais de streaming. Vale à pena assistir e emocionar-se.