A BOLHA E A GUERRA ASSIMÉTRICA

Como acontece a vila cruzeiro!...

Por SILVIO MUNHOZ 26/05/2022 - 15:32 hs

 “’No dia que vesti aquele uniforme azul, perdi o luxo de lidar com os problemas interpessoais sob circunstâncias tranquilas e cuidadosamente controladas’. Enquanto um professor universitário é uma espécie de ‘sonhador subsidiado’, recompensado pela sociedade para se ocupar com temas abstratos, tangenciado as necessidades do ‘aqui e agora’ – pensou ele – o trabalho de um policial exige atenção permanente aos eventos do mundo real, mesmo em seus detalhes aparentemente insignificantes, pois distrações e devaneios tendem a ser fatais nos ambientes caóticos onde atua a polícia.”[1]    

       

         O relato da epígrafe é do Professor Kirkham, que ministrava aulas de criminologia em uma Universidade nos EUA e aceitou o desafio de um aluno para experimentar a vida de  policial na ativa, por um tempo. Sua experiência resultou no livro Signal Zero, retratado na monumental crônica de Diego Pessi, cujo endereço está na nota de rodapé.

             Os intelectuais - sonhadores subsidiados - é o início da formação da bolha. Pagos, no mais das vezes, com o dinheiro da sociedade, vivem criando teses esdrúxulas, alijadas da realidade das ruas e do permanente perigo que cerca a atividade policial. A grande maioria vestido com o véu ideológico, pois sabemos do aparelhamento das universidades brasileiras após mais de duas décadas de governo comuno/socialista. Nos ambientes confortáveis e controlados criam suas teses, que possuem endereço certo, “demonização da polícia e idolatria ao bandido”, para o ‘progressismo’ polícia é inimigo, não deve existir, e seus membros não são gente (engraçado é que a procuram quando o crime achaca seus familiares)...

            Para cumprir sua finalidade, como narrei nas duas últimas crônicas – falácia das chacinas[2] e falácia da letalidade policial[3]–, não se preocupam em distorcer dados, lê-los de modo enviesado, em usar técnicas de distração para não mostrar equívocos de embasamento, em fazer comparações de coisas incomparáveis, em síntese, verdadeira engenharia social visando mudar a mentalidade, a cultura das pessoas de bem que, por óbvio, não gostam dos bandidos, que afrontam a sociedade, as Leis, trazem lágrimas, sofrimento e morte às famílias das vítimas e às comunidades, e admiram, apoiam a polícia, última proteção contra a verdadeira matilha que se tornaram as Organizações Criminosas brasileiras.

            À bolha junta-se a “ex-imprensa” que, valendo-se desses ‘estudos abstratos’ alienados do dia a dia do confronto entre as Orcrins e a Polícia, só pensa em idolatrar bandidos e demonizar a polícia, usando inúmeras táticas como a da confirmação, faz a matéria com o objetivo visado e busca algum “especialista” para confirmar, quase sempre os mesmos que escreveram as teses para agregar o ‘argumento de autoridade”, o criminólogo ou outro ‘ólogo’ qualquer, que escreveu o estudo tal!...

            Por essas razões se vê jornalista[4] lamentando quando, em operações, ocorre a neutralização de criminosos, mas não morrem policiais e teimam em chamar CONFRONTO/COMBATE de chacina/massacre. Quantos policiais teriam de morrer para a jornalista achar válida a operação??

            Por isso, igualmente, se vê manchetes absurdas chamando o certo de errado e o errado de certo como vimos há poucos dias quando um delinquente entrou em luta corporal e conseguiu tirar a arma de um agente da PRF e matou 02 policiais, um terceiro vendo o fato e o assassino ainda com a arma, matou-o. A manchete com tal inversão de valores visa atingir quem não lê a matéria e forma sua opinião pela manchete. No caso narrado o delinquente foi chamado de “suspeito” e o policial que agiu em legítima defesa e estrito cumprimento do dever legal de “assassino”.


“Globo na mesma linha de policiais não são gente” Adriano Klafke[5].

 

         A bolha continua se formando, pois esse material criado pelos “intelectual/sonhador subsidiado” – alguns bem mais comprometidos que meros sonhadores – e explorado maldosamente pela imprensa acaba muitas vezes sendo utilizado para orientar políticas públicas sobre segurança, para servir de argumentos a alguns parlamentares com finalidades espúrias a fazerem mais e mais leis bandidolatras e finda todo esse maléfico mecanismo por desaguar nas decisões dos Tribunais, por isso a cada dia mais vemos decisões passando a ‘mão na cabeça do criminoso’ e achando inúmeros subterfúgios para cada vez mais dificultar e impedir a ação da polícia no combate ao crime, como retratado na triste charge publicada por Roberto Motta e usada como abertura desta crônica. É a imagem que fala...

            Aconteceu na malfadada ADPF 635, como denunciei no artigo que escrevi para o livro Guerra à Polícia[6], as decisões estão embasadas em matérias jornalísticas e em estudos feitos por “intelectuais” – comprometidos ou sonhadores, a discussão não importa neste momento -,  ambos criando só teorias inaplicáveis às realidades das ruas.

            As decisões da ação mencionada só tornaram a “verdadeira guerra” que é vivenciada no Rio de Janeiro totalmente assimétrica, pois serviram, unicamente, para “empoderar” – usando a palavra, embora a deteste -, as Orcrins, uma delas considerada uma das maiores do Brasil e com ramificações internacionais e com evidentes características expansionistas.

            Vejam o que ocorreu, após a decretação das medidas houve uma disputa imensa entra facções por territórios na cidade, o Rio de Janeiro se tornou o verdadeiro QG do crime, pois Chefetes das facções em outros Estados, quando ameaçados, correm para se abrigar no verdadeiro bunker do crime – onde a polícia só deve entrar com autorização, não pode usar helicópteros, as operações necessitam ser comunicadas para várias pessoas e entidades antes, informações que muitas vezes vazam, como ocorreu em Jacarézinho, fazendo os bandidos se prepararem para esperar a polícia prontos para o confronto.

            Após a decretação das medidas, diminuiu o número de drogas apreendidas (em 2019 foram 22.749t em 2020 após as liminares 20.790t), menor o número de apreensão de armas (8.423 em 2019 e 6.440 em 2020), o mesmo ocorrendo com fuzis apreendidos (550 em 2019 e 284 em 2020), diminuiu, igualmente, o número de criminosos presos em flagrante (35.219 em 2019 e 31.162 em 2020) ou o de menores infratores detidos (6.056 em 2019 e 4.583 em 2020)[7].

            O crime se robustece com as medidas, menos droga, armas e soldados retirados das ruas, ou seja, capitaliza-se, pois não precisa repor e, ao mesmo, coloca cada vez mais obstáculos à atuação policial, tornando a guerra cada dia mais assimétrica, pois manieta a polícia, protege os criminosos, concede-lhes meios e os torna mais ousados, pois sentem a proteção do judiciário.

            Funciona? Não e nem pode funcionar, pois o cenário criado pela bolha não atenta ao que acontece na realidade e, infelizmente, a realidade cobra seu preço...

            Aconteceu no episódio da Vila Cruzeiro (local onde Tim Lopes foi torturado e morto no “micro-ondas” em 2002 por traficantes)... A polícia necessitou fazer a operação, pois sabedora da existência do QGC[8] (quartel general do crime) com a presença de lideranças criminosas procuradas de outros Estados que lá se homiziam, e a “inteligência” apontando movimentos expansionistas (gerando provável guerra de facções) e de vários outros fatores que determinavam a intervenção da polícia no local.

            Fez tudo nos moldes estabelecidos na malfadada ADPF, comunicou a operação ao MP[9], que autorizou etc.. Se houve vazamento, como ocorreu em Jacarézinho, ainda não foi esclarecido, o fato é que os policiais foram recebidos a bala...

            Como reagir? Rezar, declamar um poema, soltar balões brancos... Claro que não, pois são as vidas dos policiais colocadas em risco, por QUEM NÃO RESPEITA A LEI, tem de responder a altura e aí se forma o confronto/combate... e morrem pessoas, como costuma ocorrer em tiroteios, inclusive de bala perdida (que não se sabe de que arma partiu, dos bandidos ou da polícia).

            Pronto, é o que basta para começar o mimimi: “mas não morreram policiais”... claro são treinados, vão em carros blindados, usam coletes à prova de bala e armamento à altura dos portados pela bandidagem, e, quando permitido, têm o apoio aéreo.. Queriam o quê? Jogá-los aos Leões desarmados, sem condições de resistirem para serem mortos? Não é lógico, embora uma dessas mentes brilhantes já tenha dito que “policiais são pagos para morrer”, isso não é verdade e só demonstra a insensibilidade do autor da frase...

Na operação foram apreendidos 13 fuzis, 12 granadas (armas de guerra), 4 pistolas, grande quantidade de entorpecentes e inúmeros carros e motos utilizados por criminosos para suas práticas nefandas. Com todo esse arsenal (sem contar o que não foi apreendido), vocês podem imaginar, é claro, que os bandidos esperaram a polícia cantando Imagine... e sua intenção era propor a criação de um grupo de “constelação familiar”...

            Realmente, a guerra assimétrica criada pela bolha é, com certeza, o mal que assombra a sociedade nos dias atuais.

Encerro, deixando mais um frase do Professor Kirkham, que largou a bolha e foi conhecer a realidade das ruas e da atuação da polícia.

 

 “Agora não mais: o crime era algo pessoal. Ele tinha face. Ele tinha mãos. As mesmas mãos que, por mais de uma vez, ameaçaram tirar-lhe a vida. À súbita consciência da possibilidade de uma morte iminente nas ruas e becos escuros e desoladores do gueto que patrulhava, somava-se a triste certeza de que, tal como certa vez lhe dissera seu parceiro veterano, ninguém dá a mínima para o que acontece com os policiais. Nem a justiça, nem as pessoas a quem eles tentam proteger. Ninguém!.”

 

Que Deus tenha piedade de nós!..