MÍSEROS CORAÇÕES

O amor reduzido a uma ação burocrática

Por DARTAGNAN ZANELA 02/06/2022 - 18:48 hs

É muito fácil falarmos em misericórdia, muito fácil mesmo, agora, manifestarmos ela em nossos atos cotidianos, e reconhecermos a sua presença nas ações dos outros, são outros quinhentos.

 

Quando nos vemos diante dos desvalidos da terra, que vivem costeando o latifúndio da existência, muitas vezes dizemos para nós mesmos, como uma forma de justificativa para a dureza do nosso coração, que os infelizes desse mundão, sem eira nem beira, estão a sofrer justamente porque o Estado não cumpre devidamente a sua “função social”, porque as autoridades não desenvolvem políticas públicas com vistas a resolver as inúmeras questões de “justiça social” pendentes em nossa sociedade, ou porque milionários e bilionários pouco ou nada fazem por eles.

 

Que muitas autoridades e poderosos se fazem de Pilatos diante do sofrimento de inúmeras pessoas, esse é um ponto que não se discute. O que não reconhecemos é que nós também portamo-nos feito Pilatos, quando delegamos ao Estado a realização de atos que deveriam refletir a virtude teologal da caridade e esperamos, não, exigimos que o Leviatã os realize com uma perfeição sacramental.

 

Mas o Estado, o mais frio dos monstros frios, como bem observou Nietzsche, facilmente transforma uma obra de caridade no seu oposto e, faz isso, sem o menor pudor. E o que viria ser uma manifestação de amor de um indivíduo por seu semelhante, acaba se convertendo na criação de um vínculo de dependência perene de inúmeras pessoas a grupelhos que instrumentalizam a maquinaria política, a estrutura social e, até mesmo, a vida daqueles que padecem.

 

Infelizmente, todo aquele que chega ao poder, cedo ou tarde, acaba adotando a regra que todos aqueles que lá estão, há muito tempo, embrenhados nas vísceras estatais, religiosamente seguem: eles irão fazer de tudo para permanecer por cima da carne seca. Por isso, instrumentalizar a desgraça alheia, para gente deste naipe, é café pequeno.

 

Não apenas as potestades estatais agem desse modo. Ora, quantas e quantas empresas não realizam ações similares para marcar alguns pontinhos como empresa “socialmente responsável”? Quantos e quantos movimentos políticos, ditos sociais, não fazem obras similares para mostrar para todos que eles fazem o que os seus desafetos políticos deveriam estar fazendo, mas não realizam? Pois é, a lista é grande e vai longe.

 

Agora, se as potestades estatais, entidades políticas e corporações têm todo esse poder sobre aqueles que praticamente não tem poder algum, em grande medida isso se deve a dureza do nosso coração que coloca as soluções políticas estatais no lugar [e bem acima] da ação individual e comunitariamente caritativa. Literalmente, sem nos darmos conta, invertemos a ordem de importância das coisas.

 

Se realmente procurássemos conhecer, com a devida atenção, as grandes obras que foram realizadas pelos grandes santos da Igreja, nos mais diversos momentos da história, nos mais variados cantos do mundo, iríamos constatar, com uma tremenda vergonha, que essas joias da coroa celeste fizeram muito por muitos sem ter praticamente nada e sem se candidatar a patavina alguma.