DOAR-SE PARA SALVAR A SI MESMO

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 20/06/2022 - 21:56 hs

Acabei de assistir ao filme ARREMESSANDO ALTO, na Netflix. Estrelado por um Adam Sandler que, definitivamente, abandonou a veia histriônica – o que lhe caiu muito bem, diga-se de passagem - esse drama mostra a trajetória de superação de um ex-jogador fracassado da NBA , Stanley Sugerman (Sandler), que busca tornar-se técnico, abandonando, assim a carreira de olheiro e as desgastantes viagens, que deixam-no longe da esposa Teresa ( Queen Latifah) e da filha.

            Nessa saga de viagens e peregrinações, em que segue atrás de jogadores promissores, empanturrando-se de fast food em hotéis aleatórios e praticando a autocomiseração, Stanley depara-se, inesperadamente, na Espanha, com um pedreiro, jogador de basquete  nas horas vagas, chamado Bo Cruz (vivido pelo astro do Utah Jazz, Juancho Hernangómez).

            Bo é um talento, mas boicota-se o tempo todo. Não acredita em seu potencial, carrega muitas mágoas do pai, não controla a própria agressividade, nem seus pensamentos. Cabe a Stanley, que rompe com seu empregador, o time Philadelphia 76ers, treiná-lo, atuando como agente independente, indo contra tudo e todos.

            Stanley está quebrado, e precisa, além de treinar Bo, sustentá-lo nos EUA, por quase dois meses, a fim de que concorra nas eliminatórias da NBA. Superando as próprias frustrações e apontando as fraquezas e limitações de Bo, num esforço de doação e entrega pessoal intensas, Stanley vai curando o jovem, mas, sobretudo, a si mesmo.

            Este, portanto, não é um artigo sobre coaching ou capacidade de superação, tão somente. É um artigo sobre SERVIR. Porque, ao nos despirmos de tudo, para servir a alguém, reencontramo-nos com a nossa essência, e resgatamos o que encontrava-se, muitas vezes, enterrado dentro de nós mesmos, e que não mais contactávamos. Vou explicar:

            Stanley é ressentido, sente-se fracassado por não ter prosseguido com sua carreira, vive sem grana e nem sempre enxerga a vida com gratidão e fé. Ao fazer por Bo o que não foi capaz de fazer por si mesmo, renova-se em esperança e amor, e vê um milagre acontecendo em sua própria vida.

            Bo, ao receber, por via transversa, de Stanley, um amor que não obteve do próprio pai, e o amparo que a vida não lhe forneceu, abre-se, cresce, renova sua fé em si mesmo e nas pessoas, e consegue entregar o seu melhor.

            Servir é isso. Abrir-se para o outro, sem esperar recompensa. Imbuir-se da tarefa, sem a garantia de gratificação. Sobretudo, servir é perceber-se como o maior beneficiário dessa entrega, por poder contactar o que há de mais humano em si. Porque, ao nos fecharmos, para pessoas, situações e sentimentos, vamos nos dessensibilizando, e isso tem um preço.

            Quando não conseguimos mais olhar as pessoas e acontecimentos com emoção, deixamos de nos movimentar, no mundo, do modo para o qual fomos criados: somos os únicos seres vivos capazes de sentir AMOR,  fomos criados para AMAR.

            Em decorrência da incapacidade generalizada das pessoas, de sentirem e exercitarem o AMOR, o mundo marcha, cada vez mais, para o imediatismo, os transtornos psicológico-psiquiátricos, os distúrbios comportamentais (os quais são, muitas das vezes, identificados como vícios, adicções e compulsões), o ódio, a intolerância, o egoísmo, a tirania.

            Ao conseguirmos essa conexão com algo ou alguém, que faz com que doemo-nos a uma tarefa, uma pessoa, uma comunidade, uma ideia, um sonho, ou o que quer que seja, nos percebemos vivos e honrando a nossa missão primeira, nessa vida: servir. E é esse serviço que nos permite sentirmos AMOR.

            Imaginem um bebezinho. Ele chora, acorda a noite toda, não deixando ninguém descansar. Sente fome, sede, frio, precisa ser cuidado. Para que ele sobreviva, alguém precisa servi-lo. Doar-se para ele. Toda pessoa adulta viva, recebeu isso de alguém, ou aqui não estaria, hoje. Quem doou-lhe tudo, com certeza, tornou-se alguém melhor.

            Do mesmo modo um casal, quando vivencia uma relação de amor, ajudando-se mutuamente, doando-se diariamente, desejando elevar o outro até o céu e fazê-lo feliz, vê um milagre materializar-se, debaixo dos seus olhos, nessa convivência tão íntima e revigorante. Esse sentimento de pertencimento, de gratidão, que passam a sentir, advém do recebimento e da entrega real, daquilo para o que foram gerados para fazer, no mundo: AMAREM E SEREM AMADOS.

            Stanley, ao despir-se de seus problemas e dilemas existenciais para ajudar Bo, contacta um amor paterno pelo jovem, que também contacta esse amor, vindo de um homem estranho, que acreditou nele. Devolve-lhe, então, o mesmo amor, sob a forma de dedicação aos treinos, amadurecimento pessoal, força de vontade.

            Histórias de superação envolvem AMOR e DOAÇÃO. Não somente força de vontade, “pensamento positivo” e autoestima, como os livros de autoajuda gostam de cravar. Só superamos questões internas e situações, de forma definitiva e não reincidente, quando amamos ou nos sentimos amados, quando doamos ou recebemos AMOR. Isso nos inunda de motivação e gratidão, e nos faz avançar.


            Logo, Adam Sandler, intuitiva ou racionalmente, acabou produzindo um lindo filme de AMOR, no qual deixa-nos antever, através da tela, o que de mais humano há, em nós mesmos. Não deixe de assistir e emocionar-se, questionando-se profundamente sobre isso: VOCÊ É CAPAZ DE SERVIR A ALGUÉM? Esse é o caminho.