O legado de Kobe Bryant

O basquetebol mundial está de luto.

Por HARLEY WANZELLER 30/01/2020 - 22:19 hs

O basquetebol mundial está de luto. 


Faleceu esta semana um dos atletas mais influentes de nossos tempos. Estamos falando de Kobe Bryant, a lenda eternizada pelas camisas 8 e 24 do igualmente lendário Los Angeles Lakers.

Quanto aos feitos de Kobe, muito pouco temos a comentar pois as imagens gravadas falam por si. Em cada partida sua, não havia como selecionar os melhores momentos. Para o expectador, o melhor momento confundia-se com o lapso entre o ingresso do astro na quadra e a sua saída. Cada lance era um ingrediente cuidadosamente inserido no caldeirão daquele verdadeiro mago, que, com seus “poderes”, prolongava um êxtase capaz de contaminar até mesmo os mais indiferentes ao esporte. 

Ele era diferente. E fazia tudo diferente. Era o único capaz de repetir movimentos exclusivos de Michael Jordan, sem perder em qualquer momento sua identidade. Jamais pretendeu ser a cópia do melhor de todos os tempos. E não foi. 

Ele era a sombra de Jordan. Um verdadeiro raio que, na linha do tempo, caiu exatamente no mesmo local. 

Era, simplesmente, Kobe Bryant - a mamba negra.

Em regra, a morte de qualquer pessoa suscita a busca das boas lembranças. Como se o corpo inanimado tivesse o extraordinário poder de apagar os erros daquele que se foi, ao tempo em que ronda na mente dos que ficam tudo o que de melhor foi deixado. 

Talvez seja o despertar de nossa pequenez um fator que proporcione a busca do legado de cada um. Quem sabe?  

Porém, prefiro entender que a busca do legado está intimamente ligada à automática busca do sentido da vida. É neste momento que reflexões como “para que tanto dinheiro, se vai para o caixão?”, ou, “a vida é um sopro...” assaltam nossas mentes. É como se o nosso inconsciente precisasse buscar, naquele momento de perda, o sentido de nossas próprias vidas. 

Então. Qual o legado deixado por Kobe Bryant? Para que serviu sua passagem neste mundo?

Bem. Para cada um, haverá um significado ou uma lição, a depender da experiencia de vida e proximidade havida com o astro.

Mas há traços comuns que marcam a existência de uma pessoa, e isto não se confunde com lindos dribles, arremessos perfeitos, riqueza, fama ou beleza, pois estes aspectos são meros resultados de todo um caminho percorrido. O que fica em nossos corações (dos mais próximos até os fãs mais longínquos - meu caso) é o exemplo do caminho percorrido e resumido nos atos que descrevem o real sentido da vida. 

Neste contexto, me veio à cabeça uma passagem da vida do "mamba", pouco lembrada nestes dias.

Kobe era filho de Joe Bryant, um ex-jogador que fez carreira na franquia Philadelphia 76ers (NBA) e na Europa, e antigo técnico do Los Angeles Sparks, equipe feminina de basquete da liga americana. Portanto, Kobe nasceu no mundo que o fez brilhar. Mas o que poucos sabem é que Kobe, entre os 11 e 14 anos, tinha um rendimento abaixo de qualquer crítica no basquete. 

É isso mesmo! O filho de Joe não “levava muito jeito para a coisa”. 

Mas o pai, sabendo da vontade do filho, o incentivou a continuar o caminho. E o filho entendeu que poderia melhorar e até chegar a jogar em um nível de competição. Bastava que aplicasse à vida uma fórmula matemática simples resumida na seguinte frase: treinar mais do que qualquer um! 

Kobe identificou a média de horas treinadas e jogadas pelos jogadores de sua idade, e decidiu com fervor no coração, multiplicar esta média em sua vida. 

A partir daí, Kobe passou a treinar incessantemente. Todos os dias. E como resultado deste esforço, tornou-se um dos melhores de todos os tempos. 

Isso mesmo! Aquele que não “levava jeito” superou a todos e a todas as expectativas, trabalhando todos os dias, subindo um degrau por vez, aprendendo com suas vitórias e derrotas. 

Se Kobe teve um “Coach” para isso? Não sabemos ao certo. 

Sabemos, porém, que Kobe era de família católica. E em que pesem as divergências e teorias conspiratórias a respeito da fé do ex-jogador, todos os seus atos em vida coincidem - e muito - com as palavras divinas registradas no Evangelho de Mateus, quando Jesus nos lançou a parábola dos talentos (Mateus 25: 14-30). 

Quando era criança, Bryant podia não ter talento aos olhos dos homens. Mas trabalhou com fidelidade os talentos que Deus lhe concedeu. Trabalhou tanto a ponto de fazer valer a velha lição dada a todo aquele que enterra seus talentos e os esconde atrás de desculpas anuladoras. Para este, resta perder os talentos, que são transferidos por obra e graça divina  para quem os merece em virtude do trabalho árduo e dedicado. 

Eis então um motivo bastante para que atentemos ao sentido do final da passagem bíblica, quando se afirma: “Em seguida, o senhor ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai àquele que tem dez! Pois a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. E quanto a este servo inútil, lançai-o fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 25,28-30) 

Kobe errou diversas vezes na vida, como todos nós erramos. Mas o seu legado demonstra que, consciente ou inconscientemente, ele decidiu ser um “servo fiel”, e honrou cada talento recebido por Deus, com dedicação ímpar, sem arrumar, nas dificuldades, desculpas para seus tropeços. 

Ele tropeçou como todos nós tropeçamos. Caiu como todos nós caímos. Mas decidiu ir adiante e assumiu as circunstâncias que a vida lhe apresentava, trabalhando incansavelmente para sempre se erguer. 

Por isso, ele foi Kobe Bryant. Este foi o seu legado. 

Diante deste legado, e de sua própria vida, qual seria a resposta caso você - leitor - se perguntasse: Sou um (a) servo (a) fiel ou infiel?

Você já se perguntou o que tem feito com seus talentos?