E na Quarta Feira de Cinzas...

Assassinaram até o Carnaval, literal e literariamente...

Por HARLEY WANZELLER 26/02/2020 - 12:52 hs

O carnaval acabou

Não me refiro a chegada da quarta-feira de cinzas, que renova a esperança dos foliões em um novo carnaval no ano seguinte. A frase afirma, literalmente, que o carnaval acabou.

Não vemos mais a sombra daquilo que um dia foi uma festa popular que unia culturalmente um povo. Sem que nos déssemos conta, permitimos que o politicamente correto fizesse uma verdadeira apropriação cultural do carnaval, transformando a brincadeira sadia em hediondo palanque ideológico.

O texto a seguir não foi escrito hoje ou ontem, e sim na quarta-feira de cinzas do ano 2019*. Infelizmente, parece-me que seguirá atual por um bom tempo. 

“A lápide do Carnaval. 

Carnaval. Carnaval.

Triste é o Carnaval.

Sem máscaras, não caio na gandaia. 

Não sirvo mais para nada.

Ainda bem... 

Dispenso a celebração da parte mundana que em mim habita. 

A imunda parte humana que desnuda um esquálido espírito de porco,

Banhado em um Rio proibido, 

Em um intocado vendaval,

Chamado Carnaval.

Lá vem o bloco....

E eu não vou.

Não estou lá. 

Não quero blasfemar,

Tampouco ostentar presença em área “VIP”, como se o escárnio fosse um gozo.

Não sinto prazer em difamar Jesus Cristo, ou em idolatrar o capiroto.

Não quero homenagens a bandidos. 

Nem louros aos heróis, pois à vista ficariam submissos ao convívio com o esgoto.

Com a fossa moral e abjeta representada em plumas e paetês tingidos por criminosos, 

Adornados em fantasias que nada fantasiam e, sim, revelam a identidade espúria,

A baixa qualidade moral de covardes travestidos de foliões.

Carnaval. Carnaval.

No passado, um temporal de brilhantina...

Quanta saudade da charanga,

Do samba na gafieira,

De crianças envoltas em confete e serpentina,

Das famílias brincando em ruas de blocos, quando os blocos nada faziam além de festejar uma alegria quase casta, 

Em três dias de sossego e folia!

Fazem falta as melindrosas que não se melindravam,

Os palhaços e bailarinas que não escondiam armas nas cinturas,

Os bailes ordeiros, onde máscaras eram somente máscaras.

As festas distintas, 

Distantes do “teatro dos horrores”.

Sinto falta dessa paz... 

Do vendaval de emoções,

Ancestral do Carnaval.

Hoje, as máscaras são escudos e encobrem o pior de cada um.

As alegorias mostram uma realidade quase impublicável de nós mesmos. 

Autorizam o descontrole, 

O desrespeito, 

A libertinagem, 

A sem-vergonhice,

A canalhice. 

Debocham da estirpe oculta por um elegante terno em dia normal.

Mas tudo sob desculpa e argumento:

Relaxa. É só brincadeira!

Tudo pode! 

É Carnaval! 

Vem, quinta-feira! 

Traz de volta a vida normal! 

Cansei destes foliões...

Tira-me deste lodaçal! 

Em memória, já vivi uma festa...

Mas não esse bacanal! 

Imoral assassino de um povo,

Arrastado pelo lamaçal de idiotices. 

Traga de volta pierrôs e colombinas!

Não quero os “mijões” e suas “latrinas”!

Eles matam tudo, e ainda fedem.

Apodrecem minha folia trivial, 

Afrontam minhas boas lembranças,

A memória do que um dia foi “legal”.

Carnaval. Carnaval.

Em que te converteste?

Festa banal de gente boçal?

Tristeza infernal!

Para que, então, viver? 

Morra, Carnaval!” 


*Autor:  Harley Wanzeller - publicado em 06.03.2019 - quarta-feira de cinzas !


Imagens de Canal Chinchila - Música de Filipe Trielli