Abraços sem braços

Nada do menino que saíra com um caderno debaixo do braço, e mil sonhos para a vida

Por HARLEY WANZELLER 15/03/2020 - 16:57 hs

As noites escuras ressaltam as incertezas de um tempo em que viver tornou-se luxo.

O breu da mente compôs a aflição do coração.

E foi assim, em um dia qualquer, 

Numa hora que deveria ser de paz,

Que uma mãe entrou em oração.


  • Oh, meu filho... 
  • Por onde andas? 
  • Volta logo para o meu braço...


Madrugada alta.

Nada de notícias. 

Nada do menino que saíra com um caderno debaixo do braço, e mil sonhos para a vida. 

Ah, mãe! Se soubesses onde está o teu menino...

Trocarias de lugar com ele.

Implorarias por mais um abraço.

Desejarias com toda força voltar ao final de qualquer tarde passada, 

Quando o mormaço aquecia os peitos há muito em chamas, por tanta felicidade. 

Voltarias a sorrir. 

A ter fé.

Tenha fé, mãe! 

Ore mais um pouco. 

De repente, seu menino volta. 

Lembre-se que a fé é amiga.

Vilã é a realidade. 

Se a mãe tivesse noção da verdade, 

E soubesse que no coração pulsante do guri,

A última coisa que entrou era de aço. 

Que o retorno ao regaço já é impossível 

Como impossível será viver 

O primeiro dos últimos abraços.

Apertado. 

Inconsolado.

Dolorido. 

Abraço em memória. 

Sem braços.


A dor apertou o menino por pouco tempo.

Alguns segundos, apenas.

Nem deu tempo de ver a poça vermelha que manchava o asfalto, bem ao lado do peito do moço. 

O que era quente, rápido esfriou-se.

Não houve tempo para quase nada, nem para sofrer.

Talvez para uma rápida lembrança.

A imagem de quem ficaria,

E sofreria pela falta de mais um afago. 

Doravante o tempo estaria casado com o sofrimento,

Em união indissolúvel. 

Perene. 

Macabra.


Pobre mãe. 

Se soubesse que a lembrança mais próxima deste dia seria o riso do monstro que cuspiu o aço, 

De sua hedionda defesa escarnecendo sobre o corpo do menino, 

Dos sangrentos abraços que ele ainda daria,

E de tudo o que mais viveria.

Dos anjos dos “manos” que vitimam a escória e incriminam quem se foi. 

Ah! 

Só Deus para acolher a pobre mãe diante dos muitos calhordas que abraçam os monstros. 

Tenha fé, mãe! 

A inabalável fé se confunde com a lembrança, que alimenta a esperança, que devolve a fé. 

Pois, antes pensar que o guri nem sofreu tanto. 

Que não doeu tanto quanto dói em quem ficou. 

Mas... 

Se ao menos ambos pudessem viver as regalias do monstro...

Dizer um ao outro o  último “te amo”.

Dar o último beijo.

O último abraço.

Trocar os últimos carinhos.

Ao menos, uma despedida...

Contente-se, mãe! 

Há no espaço um abraço retido.

Um hiato entre duas pessoas mortas.

O inocente guri que se foi,

E sua mãe, que o destino insistiu deixar. 


                                                                  Harley Wanzeller.