CIDADES DE LONA PRETA

com suas foices luzentes como baionetas de desfile...

Por PERCIVAL PUGGINA 23/05/2020 - 21:37 hs

Há cerca de 30 anos, numa noite de inverno, retornando em ônibus para Porto Alegre após uma palestra em Frederico Westphalen (RS), o banco ao lado do que eu ocupava permanecia vazio. Havia ali espaço adicional para braços e pernas o que representava um desconforto a menos durante os 425 km a percorrer durante a madrugada. O motorista já acionara o motor e fechara a porta quando ela voltou a se abrir dando passagem a frei Sérgio Görgen, religioso franciscano e um dos principais líderes dos sem-terra no estado. Já nos conhecíamos, o frei e eu, e mantínhamos uma relação cordial.

Ele avançou pelo corredor e o que eu temia, aconteceu. Perdi espaço e sossego. Passamos parte da noite esgrimindo argumentos em voz baixa. Lá pelas tantas, o frei, que pouco depois seria eleito deputado estadual pelo PT, começou a pintar em tom pungente o horror da cidade de lona preta instalada na invasão da Fazenda São Pedro, município de Bagé. Oitocentas famílias, no frio, na chuva, sem água, sem energia elétrica, sem saneamento. Da descrição ao convite foi um salto pequeno: “Puggina, tens que ir lá conhecer as condições em que estão vivendo aquelas pessoas. Vamos combinar e vais comigo”. Após uma sequência de recusas e insistências eu lhe disse: “Sérgio, tua eloquente descrição de uma situação terrível me basta. Desculpa, mas fico me perguntando sobre quem foi o irresponsável que levou milhares de pessoas, com mulheres e crianças, em pleno inverno gaúcho, para cima de uma coxilha, no meio do nada, no interior de Bagé”. A resposta do frei foi de uma sinceridade crua: “Faz parte da luta”. E minha resposta manteve o tom: “Então, como diz meu amigo bageense Moisés Bruno Magalhães: ‘Montou no burro, aguenta o trote’”.

Pessoalmente nada tenho contra quem, na lida da terra se criou, que para a terra está vocacionado e que, por alguma razão, perdeu seu chão e seu lugar no mundo. Só posso ver com simpatia e respeito as aspirações de homens e mulheres que incorporem o vigor dos antepassados. Para estes, assim como a Terra Prometida ao povo hebreu não estava na foz do Nilo, mas no outro lado do Mar Vermelho, a terra da promissão estava do outro lado do Atlântico. Por que exigem, seus descendentes, terra ao alcance da mão, à beira do asfalto?

         São várias as motivações capazes de levar gaúchos a acampar junto às estradas e a participar de invasões: a) os sempre exitosos interesses eleitorais envolvidos nas expectativas que cercam essa atividade e sua organização; b) a tortuosa “caridade” de alguns grupos religiosos que confundem o amor cristão aos pobres com o ódio ideológico aos ricos; c) a possibilidade, obviamente atraente, de conseguir que o poder público designe uma gleba fértil e bem localizada e faculte os meios para trabalhar; e d) a força de arregimentação da pregação coletivista, que excita, em uns, o senso de “justiça” para com as realidades alheias e, em outros, a cobiça pelos bens alheios. A “justiça” coletivista, que já foi utópica, hoje é um comprovado fracasso; a cobiça, contudo, é sempre moderna.

         Tanto os sem teto foram instrumentalizados, tanto se assumiram como brigadas do “general Stédile” com suas foices luzentes como baionetas de desfile, tanto uso fizeram da violência em suas invasões, que mergulharam no descrédito e na rejeição social.  Pisaram vigorosamente na bola, fazendo com que a simples menção a eles e a seus movimentos, traga à mente a invasão da propriedade alheia como estratégia de ação. Em decorrência, apoiá-los é aderir à ruptura da ordem, à invasão do prédio pelos sem-teto, da fábrica pelos sem-emprego, da montadora pelos sem-automóveis, do Banco Central pelos sem-dinheiro e do Poder Judiciário pelos fora-da-lei. Tais procedimentos são tão civil e moralmente inaceitáveis quanto ideológica e politicamente alinhados.

         Numa perspectiva estratégica, também pisaram esforçadamente na bola quando estabeleceram imediata associação de ideias com um determinado partido político e com a hostilidade às demais correntes de opinião.

         A terra é um bem não elástico; sua disponibilidade não aumenta com a população. O planeta não é inflável. Isso torna óbvio que o “direito à terra” não pode ser entendido como “um direito natural da pessoa”, nem é um direito que se configure pela simples manifestação do desejo de possuir. Menos ainda será um bônus da invasão, exercido automaticamente, fora do devido processo, situação em que se caracteriza o crime de esbulho possessório. Aliás, quem desrespeita o direito de propriedade contraria 30% dos mandamentos da lei de Deus.

         O contínuo parcelamento do solo rural não pode ser visto como um objetivo a ser perseguido. A tendência mundial aponta para propriedades cujas extensões médias já são superiores à brasileira, e indica, também, constante redução da população rural. Um expressivo contingente de população ativa no campo é característica de países como Paquistão, China, Etiópia, Índia, Nigéria, e Turquia. Sob o ponto de vista econômico, por fim, resta óbvio que quanto menor a população rural, maior a renda média do campo e maior a produtividade.

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* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.