O sonho de João sem-terra

Tem compaixão do meu sonho! Por piedade...

Por HARLEY WANZELLER 24/05/2020 - 21:57 hs

O sonho de João sem-terra 


Quede minha terra, seu menino? 

Lembra de mim? 

O João, lá da beira

Fui recrutado na fronteira

Para ter um punhado dela. 

Queria só plantar e colher 

E esquecer toda a agonia

Para no final do dia

Chamar minha família  

E encher nossa panela 

Com a comida que Deus permite ter.

E sonhar...

Sonhar que amanhã terei a liberdade

De plantar e colher de novo,

Para sonhar de novo,

E assim viver em paz.


Quede meu punhado de terra, seu menino? 

Não aguento ser soldado andarilho

Com uniforme em cores que escondem o sangue derramado. 

Sangue de lavrador honesto. 

A foice não é arma, seu menino... 

Serve para colher, e não para matar ou morrer.

Quando muito, deveria matar a fome dos meus guris.

Mas eles estão famintos, seu menino...

E olha que já conquistamos um par de terras.


Sabe, seu menino. 

Não entendo como você e mais alguns dos nossos andam de carrões.

São granfinos,

Moram em mansões.

E eu aqui... 

Implorando pelo pedaço de chão,

Com chinelos gastos,

Barriga vazia,

Choro de criança no colo de Maria,

E uns dois ou três fantasmas que o caminho me deu.

Maldito caminho! 

Tudo que queria era a terra!

Queria plantar e colher comida. 

Uma vida.

Não a morte. 

Se pudesse voltar, seu menino... 

Ah, se pudesse voltar. 

Voltaria sem pensar.

O meu sonho era de paz e liberdade, seu menino! 

Virei o arado da riqueza de safados. 

Usaram minhas mãos para assassinatos.

E agora?

Como posso encarar meus filhos, seu menino?

Sem terra. Sem honra. E com sangue de inocentes nas mãos. 

Eu. Logo eu, temente a Deus... 

Meu Deus!

Tem compaixão do meu sonho!

Por piedade,

Dá-me liberdade! 

É tudo que peço, meu Deus.

Que eu seja teu passarinho,

E voe para longe de meus pesadelos 

Construídos debaixo dessa terra que nunca terei.

Harley Wanzeller

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