10 VINHOS DE SOBREMESA QUE VOCÊ PRECISA CONHECER

Dez ótimas opções para aquele vinhozinho servido junto ou mesmo após a sobremesa

Por RÔMULO PAIVA FILHO 28/06/2020 - 11:33 hs

Bom dia, amigos do vinho. Hoje adentraremos no doce universo dos vinhos de sobremesa. Não há quem não goste de uma tacinha para harmonizar com a sobremesa, após a refeição ou mesmo como aperitivo. Todavia, podemos dizer que os vinhos ditos “de sobremesa“  não costumam ser os mais valorizados pelos enófilos no dia a dia. Todos admitem gostar, mas a maioria reluta em comprar uma garrafa para seu próprio deleite.

 

O grau de doçura ou o alcoólico (mais elevado em alguns estilos como vinho do Porto, por exemplo), varia nos vinhos de sobremesa. No caso dos fortificados como o Porto, cuja fermentação é interrompida pela adição de aguardente vinica, a concentração de açúcar é maior, o que poderia impedir o apreciador de beber maior quantidade, mas essa desculpa não “cola” pois os grandes vinhos de sobremesa nunca são cansativos. Neles, a doçura costuma estar lindamente equilibrada pela acidez e, quando o teor alcoólico é mais elevado, ele também está balanceado, tornando a degustação sempre prazerosa. Mais do que a ideia de piso e intensidade, a sutileza e a profundidade são marcas características dos vinhos de sobremesa.

 

Vou agora indicar para vocês dez vinhos de sobremesa que merecem um lugar de destaque na sua adega:

 

1- Tokaji Aszu - O requintado Tokaji é produzido na região Tokaj-Hegyalja, na Hungria, cercada pelos Montes Carpatos, às margens dos rios Tisza e Bodrog. Esse é um dos vinhos doces mais celebrados de todo o planeta, tido como “rei dos vinhos “. Segundo a lenda, em 1650, o Império otomano avançava em terras húngaras e o clerigo Máté Sepsi Laczkó, Encarregado da veny cultura da região, determinou que a colheita fosse adiada. Com a demora, as uvas foram atacadas pelo fungo Botrytis Cinerea, que causa a chamada podridão nobre, da qual já falamos em outro artigo. Esse fungo desidrata a fruta e aumenta a concentração do açúcar natural. O sabor e a qualidade do Aszú dependem principalmente do número de baldes cheios de bagas secas (puttonyos) e pesam cada um 25kg que são adicionados a um barril de 136 litros. Quanto mais puttonyos mais doce será o vinho. O melhor de todos é o de 6 puttonyos.

 

2 - Icewine - feito de uvas congeladas só é produzido em regiões bastante frias e que apresentam características específicas propícias para o congelamento antes que as uvas apodrecam na videira. Assim, os açúcares da uva não congelam, somente a água, o que torna o mosto concentrado. Acredita-se que os romanos já teriam colhido uvas congeladas, mas não há relatos sobre o vinho. Os primeiros documentos sobre o Icewine ou Eiswein datam do início do Século XIX na Alemanha, mas há pouquíssimos relatos de produção desse vinho naquele século. Além da Alemanha, Áustria e Canadá também produzem o icewine. O Canada a partir de 1978, cuja produção concentra-se na região de Niagara. As melhores uvas para o Icewine são Riesling e Vidal. Os Icewines requerem uma temperatura severa. Por lei, -8 °C no Canadá, -7 °C na Alemanha. Essas temperaturas precisam ocorrer algum tempo depois das uvas amadurecerem, o que significa que elas podem ficar na videira durante vários meses após a colheita normal. Se o congelamento não for rápido o suficiente, as uvas podem apodrecer. Se for muito severo, nenhum mosto poderá ser extraído.

 

3 - Banyuls - Muitas vezes chamado de “O Porto francês“, O vinho fortificado da região de Banyuls-sur-mer, comuna ao sudoeste da França perto dos Pirineus e na divisa com a Espanha, costuma passar despercebido por muitos enófilos, mas quem conhece garante que não existe harmonização melhor para chocolate (de preferência o meio amargo), Superando os Portos nesse quesito. É feito com base de no mínimo 50% de Grenache, uma das uvas típicas da região do Roussillon.É produzido na região desde o século XIII, através do processo de mutage, semelhante ao utilizado nos vinhos do Porto onde a fermentação é interrompida pela adição de álcool ao mosto enquanto há presença de um alto teor de açúcar. Assim, o vinho ganhou o título de “vin doux naturel” e costuma ser armazenado em grandes barris de carvalho ou nas “bombonnes”, garrafas que expõem o vinho à luz do sol, permitindo que ele “madeirize”, uma técnica de aquecimento e oxidação do vinho.

 

4 - Recioto della Valpolicella - Da mesma região do famoso Amarone, o Recioto é bem mais antigo e é conhecido como o pai desse célebre vinho. É preparado a partir de uvas passificadas. O processo de secagem é feito com as uvas colocadas em prateleiras de Junco em um andaime especial de 100 a 200 dias após a colheita. As uvas mais utilizadas são a corvina, a Rondinella e a Corvinone.

 Apenas os cachos mais  esparsos (os “recie”, que no dialeto de Verona significa “orelhas”, ou seja, ficariam nas pontas das vinhas) e maduros são destinados à produção do Recioto. A fermentação do mosto dessas uvas e apenas parcial para que se mantenha um alto grau de açúcar residual. Para o Amarone, a fermentação continua até que os açúcares sejam consumidos. O nome Recioto origina-se de “recie“, palavra cujo significado em latim é cacho. Uma versão, porém, diz que na época do Império Romano, ele teria sido chamado de Retico e teria sido apresentado pelo imperador Augusto

 

5 - Jerez Pedro Ximénez - São diversos os tipos de Jerez que vão dos extremamente secos até os intensamente doces. Os PX, como muitas vezes são chamados, ficam no topo dos tipos doces. Os vinhos de Jerez costumam ter por base a uva Palomino mas a Pedro Ximenes também é usada. A teoria sobre o nome dessa variedade diz que um soldado espanhol chamado Pedro Ximenes, ou então um cardeal católico chamado Ximenes, teria levado a uva da Alemanha, onde ela teria chegado depois de vir das Ilhas Canárias, para Málaga por volta do século XVII. Todavia, estudos mostram que ela provavelmente se originou na própria península ibérica. Para produzir o Jerez PX, as uvas são expostas ao sol. A concentração de açúcares no vinho é tão grande que o resultado é um líquido quase negro com textura de xarope. No entanto, a Pedro Ximenez produz outros vinhos PX que não são Jerez, mas tem estilo parecido, na região de Montilla-Muriles onde está a maior parte de seu cultivo na Espanha.

6 - Auslese - A classificação dos vinhos da Alemanha não é lá muito simples de se entender, mas quem não quiser se enveredar por detalhes técnicos e apreciar um excelente vinho doce, pode escolher sem susto o Auslese. O termo quer dizer “seleção”. Feito a partir da Riesling, ele seria superior ao Spätlese (que significa “colheita tardia”). Ou seja, o Auslese é uma seleção de cachos específicos geralmente já atacados levemente pela podridão nobre. Essa classificação estaria “abaixo “de Beerenauslese (seleção de bagos) e Trockenbeerenauslese (seleção de bagos secos), cujas produções tendem a ser extremamente limitadas. Os Auslese, por sua vez, costumam ser mais comuns. A Áustria também possui classificação semelhante, com requerimento similares, e excelentes Ausleses. Os melhores vinhos dessa classificação, tanto alemães quanto austríacos, costumam apresentar uma doçura delicada combinada com uma acidez cortante que o torna leve, quase etéreo. Ainda é possível encontrar versões secas, mas elas são cada vez menos comuns e tendem a ser acrescidas do termo trocken.

 

7 - Sauternes - Falar de Sauternes sem falar no mítico Château d’Yquem é quase impossível. Sim, a fama desse grande vinho é tal que virou a grande referência da região de Bordeaux, na França, e o sonho de consumo de milhares de enófilos. Mas lá não há apenas Yquem e sim uma grande diversidade de produtores que criam vinhos brancos doces inigualáveis. Eles são feitos com as uvas Sémillon, Muscadelle e Sauvignon Blanc. O clima local favorece o surgimento do fungo Botrytis Cinerea, a mesma podridão nobre a partir da qual é feito o Tokaji, quando as uvas estão no fim do período de maturação.

Apesar de frequente, há anos em que o fungo não se desenvolve e os produtores tendem a fazer vinhos brancos secos, mas com uma denominação de Bordeaux genérica. Quando as condições são favoráveis, os vinhos de Sauternes são inesquecíveis, com seus reflexos dourados, sua doçura sutil, sua acidez saborosa, dando um equilíbrio único. Não a toa, o principal vinho da região já foi chamado de “luz engarrafada”.

8 - Moscato d’Asti - Aromas delicados, leve dulçor e a acidez gostosa, esses são os predicados desse estilo de vinho frisante piemontês. Elaborado a partir da uva Moscato Bianco, cultivada em torno da cidade de Asti, bem como nas províncias vizinhas de Alessandria e Cuneo, na região de Piemonte na Itália, o Moscato d’Asti tem suas uvas colhidas e o mosto refrigerado em tanques de aço inox a temperaturas baixas, próximas do congelamento. Após um período, ele é fermentado em tanques fechados para armazenar o dióxido de carbono. A fermentação então é interrompida por resfriamento até que se atinja o nível de doçura desejado. O vinho não passa por uma segunda fermentação e é mantido no tanque até o engarrafamento. Acredita-se que os primeiros Moscato d’Asti foram produzidos por volta de 1870. Os produtores faziam esse vinho frisante para consumo próprio, pois com baixo teor alcoólico, ele poderia ser bebido num almoço sem atrapalhar o restante da jornada de trabalho.

 

9 - Moscatel de Setúbal -  além do Porto, produzido na região do Douro, não podemos nos esquecer de outro vinho de sobremesa português de rica história: o moscatel de Setúbal. Disse que sua fama remonta aos tempos de Dom Dinis rei de Portugal no Século XII. Posteriormente, Dom Manuel também teria sido um apreciador. Assim como o Porto, esse vinho teria sido apreciado na corte inglesa do século XIV, com encomendas do rei Ricardo II. Mais tarde a corte francesa de Luís XIV, o “Rei Sol“, também desfrutaria do moscatel de Setúbal. Esses vinhos só podem sair para o mercado a partir de dois anos de idade. Para a categoria superior, o mínimo é cinco anos e, além disso, o vinho precisa ter qualidade aprovada por uma comissão de provadores. Ainda as indicações 10 anos, 20 anos, 30 anos e “mais de 40 anos”, com os vinhos que originaram o blend tendo no mínimo, essa idade.

 

10 - Vinho do Porto Tawny - os vinhos do Porto são certamente os mais conhecidos pelos enófilos brasileiros. Não há quem não tenha tido um avô ou tio que, após toda refeição, ia no fundo do armário e, de lá, resgatava uma garrafa de Porto, bebia um cálice ia fazer uma sesta. Apesar de todos serem fortificados, não há apenas um estilo de Porto. Existem os Ruby (devido a sua cor avermelhada) e os Tawny (de cor acastanhada). Estes últimos são preparados a partir de blends de vinhos envelhecidos em cascos ou tonéis. Os aromas costumam exaltar frutos secos e o paladar ser muito rico. Alguns são selecionados para um envelhecimento mais longo em pipa de madeira. Os mais celebrados são os Tawny com indicação de idade como 10 anos, 20 anos, 30 anos, e 40 anos, média de idade de envelhecimento dos vinhos, e os de colheita, de uma única safra. Na exposição natural, o oxigênio concentra e intensifica os aromas e sabores, resultando em tons mais complexos, como mel, especiarias, avelãs e baunilha, por exemplo.



Eis aí, meus amigos, dez ótimas opções para aquele vinhozinho servido junto ou mesmo após a sobremesa, uma carícia final a nosso paladar após uma lauta refeição.

Vou ficando por aqui. Semana que vem tem mais. Forte abraço a todos!

 

EVOÉ!