O Conceito Falho de Raça

Socialmente construído sem nenhuma evidência científica...

Por FERNANDO RAZENTE 28/06/2020 - 12:23 hs

“Essa idéia de impor categorias artificialmente às pessoas de acordo com a cor da pele - sua biologia - é uma grande bobagem. É uma impossibilidade.” - Thabiti Anyabwile[1]

Em 389 d.C., Santo Agostinho (354-430 d.C.) e seu filho Adeodato (372-388 d.C.) publicaram o livro De Magistro, onde os dois ensinam, com maestria filosófica, que as palavras ou conceitos são meramente sinais. As palavras possuem uma natureza teleológica - de finalidades externas à si mesmas. Ou seja, as palavras, em geral, buscam expressar uma realidade, sempre a partir desses “códigos” semânticos. A semântica, por sua vez, é considerada o “estudo dos significados das palavras”; caso seja feita alguma alteração na raiz das palavras, o sentido de toda uma frase ou de uma idéia, logicamente, altera-se também.  Essa perspectiva das palavras como sinais nos dão uma introdução a respeito da importância da objetividade do conteúdo das palavras que usamos. Não podemos usar qualquer palavra para expressar qualquer realidade, sem com isso comprometer a qualidade do nosso conhecimento.

Introduzi essa nossa reflexão falando sobre a finalidade das palavras e os perigos das transformações semânticas, pois estou certo de que sofremos desse problema na discussão sobre raças e racismo. No que se refere ao nosso uso do conceito de raça, o filósofo David Platt defende que “no processo de discutir nossa diversidade da perspectiva de diferentes ‘raças” desconstruímos nossa unidade de raça humana. (...) O critério de ‘raça’, conforme usamos normalmente, não nos ajuda, porque situa a identidade na aparência física.”[2]

 Em outras palavras, em primeiro lugar o uso do conceito “raça” perpetua a ideia de que os grupos humanos são divididos de acordo com características biológicas, como se não houvesse uma unidade. O conceito também cria a percepção de que há uma similaridade axiomática entre a cultura e a biologia de tal indivíduo de uma raça, criando assim uma bolha cultural sempre específica à determinado grupo com determinado conjunto de caracteres físicos hereditários (cor da pele, formato da cabeça, tipo de cabelo etc.)  Com esse conceito, partimos para uma discussão condicionados por um termo que nos força a ver a humanidade dividida em tipos essencialmente distintos de seres humanos. Aliás, é assim que os conceitos funcionam.

Carregados de significados, eles determinam previamente o desenvolvimento da reflexão. Segundo o Doutor em História José D'Assunção Barros, os conceitos “(...) são, por excelência, instrumentos através dos quais o pesquisador ou produtor de conhecimento procura ‘ver’ as coisas, a partir de uma perspectiva teórica mais bem delineada.” Os conceitos, prossegue Barros, “(...) correspondem a noções gerais que definem classes de objetos e de fenômenos dados ou construídos, e que sintetizam o aspecto essencial ou as características existentes entre estes objetos.”[3]

O conceito de raça - socialmente construído sem nenhuma evidência científica - atribui categorias morais e qualitativas de acordo com cor da pele - sua biologia. Esse conceito não reflete a realidade. As nossas características biológicas em nada interferem ou condicionam em nossa cultura. Lembro-me agora de um amigo, que resistindo à crer no cristianismo, argumentava comigo: “Quem me dera ter vindo da linhagem de família judaica, assim eu - como alguns famosos teólogos cristãos - teria mais facilidade de crer no Messias!”.

A questão é que nossas crenças (cultura) não tem ligação com nossa diversidade étnica. (características biológicas). Aliás, o termo “etnia” expressa muito melhor nossas diferenças biológicas. A Bíblia, por exemplo, fundamenta nossa compreensão da diversidade humana na etnia (Gn 10). Afinal, se “raça” é o conjunto científico de nossas diferenças biológicas e sociais, por quê o racismo não pode ser aceito como uma piedosa fidelidade à pureza de sua raça? Mas se  lembrarmos de que “De um só  [Deus] fez toda a raça humana para que habitasse sobre toda a superfície da terra.” [Atos 17.26], os marcos da segregação acabam e voltamos a considerar o racismo como ele é: uma grande bobagem, uma impossibilidade.

  

 



[1] Thabiti Anyabwile, Bearing the image, p. 64.

[2] David Platt, Contracultura, p. 220.

[3] José D’ Assunção Barros, Teoria e Metodologia - algumas distinções fundamentais entre as duas dimensões, no âmbito das Ciências Sociais e Humanas, p. 7.