Doces Zumbis

Por HARLEY WANZELLER 05/07/2020 - 22:22 hs

Minhas queridas crianças,

Venham! 

Aproximem-se e aproveitem ao máximo 

O gozo que flui de tudo que posso lhes dar. 

Venham! 

Deleitem-se! 

Deletem qualquer coisa que seja dita má.

Pois só o mal corrói o coração. 

O que vale, mesmo, é a intenção. 

  - Se nunca desejei mal a alguém... que pena mereceria? 

  - Que erro teria cometido, se só quero ser feliz? 

  - Se os prazeres existem, então que os vivamos! A vida é uma só!

  - Quando muito, se errar, errarei comigo mesmo.

  - Pelo menos terei história para contar.

  - E quem tem a ver com isso? 

  - A vida é minha... 

Isso!!! Isso!!! 

Repitam isso!!! 

Usem essas frases. Abusem delas...

Quantas vezes preciso for, 

Fujam de si, e de qualquer dor.

Com as ébrias egoísticas sentenças,  

Ditas num oásis árido 

Onde o eco não retorna 

E a água não brota. 

Lugar ermo, em que vocês fingem estar bem

Com os olhos opacos e cheios de pouca vida.

E o peito vazio de tanto entulho fugaz,

Resultado de anos e anos,

Cultivando a migalha do pecado que antes até levava algum prazer, 

Mas hoje, é tão fraco quanto um espírito baixo

E não dura nem uma fração de segundo mal vivido.

Em sã consciência, vocês hão de arrepender-se. 

Mas em sã consciência. Não em satânica consciência. 

Neste outro tempo, julgarão que, bom mesmo, era a tenra idade,

Quando pouco sabiam das coisas 

E muito entendiam sobre tudo. 

Vocês lembram dessa época? 

Eram inocentes...

Rezavam ao “Papai do Céu” 

Acreditavam nas palavras de Jesus. 

E acreditem: sequer questionavam seus mandamentos! 

Nessa época, vocês não tinham um Cristo próprio, feito sob encomenda em alfaiataria. 

A Bíblia era um livro de certa autoria. 

E não tinham as Palavras confundidas com os seus meros caprichos. 

Mas isso eram outros tempos... 

Esqueçam estes tempos, meus doces zumbis! 

Aproveitem o mundo que temos! 

O aqui. O agora.

É tudo que posso oferecer antes de dançarmos a derradeira valsa eterna. 

Peito com peito, em ardência simbiótica.

Fomos irmanados pela inveja. 

Na vida, brincamos de deuses, na esperança de sermos Deus.

E acabamos sem Ele. 

Nós, que tanto nos amamos a nós mesmos. 

E sempre nos pusemos em primeiro.

No final, levaremos conosco somente isso. 

O pó.

Ou nada. 


                                                                                                              Harley Wanzeller