OS ÚLTIMOS VINHOS DA MONARQUIA

EVOÉ!

Por RÔMULO PAIVA FILHO 12/07/2020 - 01:37 hs

Bom dia, amigos do vinho. Imagino que quase todos vocês conheçam a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a mais linda e charmosa do Brasil e uma das mais conhecidas do mundo. Até o dia 21 de abril de 1960 o Rio foi a capital da colônia portuguesa, do império e da república. Bem no coração do centro da cidade, às margens da Baia da Guanabara está a Ilha Fiscal, hoje parte do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, em cujo suntuoso palácio se realizou no dia 9 de novembro de 1889 o baile que representou o último suspiro da monarquia brasileira, derrubada seis dias após por um levante militar comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. O famoso e fatídico baile foi uma homenagem da Marinha do Brasil aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane e também a celebração das bodas de prata da Princesa Isabel e do conde d’Eu. A vultosa festa foi preparada por Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, presidente do conselho de ministros de Dom Pedro II. Mesmo sabendo que Sua Majestade era avesso a recepções e raramente promovia festas e bailes (o último grande evento teria sido quase 40 anos antes), a ideia de Ouro Preto era celebrar o Império no momento em que ele estava sendo mais questionado. Segundo alguns historiadores, o baile teria sido a pa de cal do regime. Entre os questionamentos da população e principalmente dos republicanos, estava o gasto exorbitante com a festa. O cardápio, guardado até hoje no acervo da Biblioteca Nacional, da uma ideia da grandiosidade do evento e o menu de bebidas deixaria qualquer enófilo de queixo caído

A Confeitaria Paschoal foi responsável pelo cardápio, que teria sido preparado por 40 cozinheiros e 50 ajudantes, e era composto de mais de 20 tipos de pratos diferentes e 12 opções de sobremesa, incluindo 12 mil porções de sorvete de diversos sabores e somente de vinhos havia mais de 30 opções à disposição dos convidados. A recepção começou às oito da noite, com uma seleção de drinques e bebidas como Cognac e licores, mas também vinhos como Jerez, Madeira, Rhin (da Alsacia), Moscatel de Malaga e Moscato Bianco. Isso só para começar. A família imperial teria chegado a ilha fiscal por volta das 22h00, quando o baile teria tido início efetivamente, com os convidados e penetras em torno de 4500 pessoas, o que significa que, para cada dois convidados houve outro que entrou de bicão.O belo palácio em estilo gótico da ilha fiscal havia sido concluído em abril daquele mesmo ano e, como próprio nome já denota, servia de aduana para as embarcações que entravam no Rio de Janeiro. Por volta de meia-noite, a comida foi servida, o que, segundo relatos, causou uma correria para as mesas, num comportamento nada condizente com o naipe dos convidados, pois a maior parte era composta pela “nobreza brasileira“. Segundo jornais da época, havia, na verdade, uma grande mistura de tipos, de pessoas cuja família possuía títulos nobiliárquicos desde o princípio da monarquia brasileira até militares de baixo escalão. A população mais pobre evidentemente não teve acesso a festa, mas ainda assim lotou balsas e pontos no entorno da ilha para admirar as luzes do local, que contou com uma iluminação nunca antes vista na capital brasileira da época. Conta-se que a balbúrdia teria sido tão grande que a família real decidiu ir embora antes mesmo de as sobremesas serem servidas. Acredita-se que muito da falta de compostura dos convidados deveu-se à grande quantidade de bebidas ingeridas. As estimativas não são muito confiáveis mas diz-se que mais de 300 caixas de vinho foram servidas (ou seja, pouco menos de uma garrafa por pessoa) e mais de 10 mil litros de cerveja (mais de 2 litros por convidado). 


A parte dos vinhos foi um show à parte: Madere, Sherry, Grec Blanc, Marsala, Haut Sauternes Chateau d’Yquem,Johannisberg, Liebfraumilch, Marco-brunner Auslese, Chablis, Moscato, Passito d’Asti, Pontet Canet, Margaux, Chateau Lafite, Chateau Léoville, Chateau Bécheret, Chateau Duplessis, Falerno, Lacrima Christi, Madere Rouge, Chambertin-Pommard-Nuits-Romanée. Na parte de vinhos de sobremesa a lista contava ainda com Portos: Vicomte Vellar y Ellen 1834, Vieux Exposition, Extra Especial. E doces como Moscatel, Moscatel de Siracusa, Tokaji, Vin de Constance (o favorito de Napoleão), Mosel Mousseux, Lacrima Christi Mousseux. E por fim os champagnes: Veuve Clicquot, Heidsieck Monopol, Heidsieck Grimun-Dry e Louis Roederer. Entre os bordaleses estão alguns grandes nomes famosos até hoje como Chateau Margaux e Lafite e outros renomados como Pontet-Canet e Léoville (Léoville Las Cases, Léoville Poyferré e Léoville Barton). A lista, como bem se pode ver, era bastante eclética e contava também com vinhos espumantes, brancos, tintos e doces de diversas procedências e estirpes, indo do Chablis ao Madeira, do Jerez ao Moscatel. Alguns vinhos míticos dessa tão rica e diversificada lista acabaram “esquecidos“ posteriormente, como o Falerno, tido como um dos grandes vinhos do Império Romano e o sul-africano Vin de Constance, adorado por Napoleão em seu exílio na Ilha de Elba, o Lacrima Christi, vinho napolitano que já foi reverenciado antigamente mas hoje não tem mais o mesmo glamour e o Moscatel de Siracusa, vinho doce siciliano famoso em outras épocas.


Para harmonizar com tantos e tão diversificados vinhos, foram servidos 3000 pratos de sopa, 50 caixas de peixes, 800 latas de lagosta, 800 quilos de camarões, 100 latas de salmão, 3000 latas de ervilhas, 1200 latas de aspargos, 800  latas de trufas, 3500 peças de caça, Como faisão, por exemplo, 1500 costeletas de carneiro, 1200 frangos, 250 galinhas, 500 perus, 64 faisões,80 patos, 23 cabritos, 25 cabeças de porco, 18.000 frutas, 20.000 sanduíches, 12.000 porções de sorvetes. Uma lista tão grande de pratos e vinhos certamente ofereceria uma gama de harmonizações quase infinita para quem realmente estivesse interessado em comer e beber com sabedoria, mas ao que parece, não foi o que aconteceu no baile que culminou no fim da monarquia. Segundo estimativa do historiador Paulo Cabral, os vinhos servidos naquela noite valeriam hoje mais de US$250.000. A exorbitância desses valores certamente rendeu um prato feito para os críticos da imprensa e dos republicanos. Em dinheiro da época foram mais de 250 contos de reis ou o equivalente a 10% do orçamento do Rio de Janeiro no ano inteiro. Esse foi o custo da festa e o mau uso do dinheiro do erário público foi o gatilho que apressou o fim do Império, mas não se pode dizer que a nobreza tenha aproveitado mal seus últimos dias.



Bem amigos, vou ficando por aqui. Domingo que vem tem mais. Boa semana a todos.


EVOÉ!