E DAÍ?

Longe disso gerar a pandemia da burrice, deveria gerar a certeza da humildade...

Por MAURICIO MARQUES CANTO JR. 12/07/2020 - 21:31 hs

Já sabemos que os fatos ocorrerem repetidamente na realidade geram o conhecimento indutivo. Também sabemos que estas leis, derivadas de relações homogêneas de causalidade, geram o conhecimento dedutivo. 

Elementar, meu caro Watson. Afinal, você nunca ouviu falar do adagio “quem não conhece a história está condenado a repeti-la“?

Para isto, também, serve a literatura, pois os limites das possibilidades humanas são registráveis na linguagem do possível. Todos os dramas, ciúmes, traições, amores, saudades, desejos, heróis e vilões; enfim, (quase) todas as possibilidades humanas já foram registrados em alguma história. 

Ao conhecer muitas histórias você compreende os limites do que já pode ter ocorrido no mundo, além daquilo que ainda não aconteceu, permitindo a você construir um mundo de sonhos, fazer da sua própria vida a sua realidade. 

Por isso, quem lê sabe mais. Reconhecendo os erros e acertos dos outros, torno-me melhor informado do que as pessoas limitadas apenas às suas concretas experiências pessoais, imediatas e diretas.

Mas a questão agora é a seguinte: e se estivermos tratando de um fato que não possa ser repetido várias vezes, uma situação em que não exista pluralidade de reincidências e você não possa ou não tenha tempo de analisar várias vezes a mesma relação? Como produzir conhecimento sobre isso, sobre coisas que não se repetem com tanta frequência?

É nesse momento que começa a produção do conhecimento científico moderno. Quando você não tem tempo ou não tem a possibilidade de verificar o fato ocorrer naturalmente na realidade, deve artificialmente criar esse fato. Para tanto, existem os laboratórios científicos, centros de produção de conhecimento onde teorias e hipóteses são testadas.

Ou seja: as mentes criam as teorias mais férteis, imaginam as hipóteses mais complexas e essas são testadas no mundo real.

Por óbvio, não podemos esquecer da serendipidade: a capacidade do ser humano de descobrir coisas fantásticas totalmente ao acaso, como a penicilina. Se não fosse o cientista Alexander Fleming ter deixado melões apodrecerem no seu laboratório, nunca descobriríamos o antibiótico originado de um fungo que mata bactérias. Mas, como diria Paster, o acaso só favorece mentes aguçadas e preparadas para perceber o mundo. A história do microondas também é fantástica, mas talvez falemos disso num outro momento.

A questão é não contar com a sorte, mas propor a testagem de hipóteses, de teorias, de ideias que possam criar algum resultado verificável, repetível, controlável.

Esse é o método hipotético-dedutivo. O método hipotético-dedutivo é o meio pelo qual os cientistas produzem a maioria das descobertas atuais. Afinal, apenas analisar a realidade e conhecer repetições, relações homogêneas de causalidade, já integram a maior parte do nosso arcabouço de ciências conhecidas.

Enfim, não dispondo da realidade natural para que o mesmo fato ocorra várias vezes, você artificialmente cria este fato para analisar se a sua hipótese sobre a realidade é verdadeira. 

Com isso, você chegou limite do conhecimento científico atual, que significa o seguinte: temos uma hipótese e vamos testa-la na realidade. Se der certo, ótimo, essa hipótese é confirmada. E, se der errado, simplesmente descartamos a hipótese e pensaremos em novas ideias para melhor conhecer o mundo.

Essa visão era suficiente, no mínimo, desde Newton. Mas a teoria da relatividade, e da mecânica quântica, trouxeram novos desafios aos cientistas: sim, temos certeza sobre alguma hipótese, então o método hipotético-dedutivo ainda é válido. Testamos aquela hipótese e deu certo.

Só que às vezes aquela mesma hipótese dá certo e às vezes não. Como lidar com isso?

Nisso, o cientista Karl Popper trouxe uma epistemologia radicalmente nova: não verificamos mais as hipóteses, mas a corroboramos.

Ou seja, passamos do método hipotético-dedutivo verificacionista para o método hipotético-dedutivo corroboracionista. Nossas certezas científicas não são absolutamente certas: uma hipótese é válida até encontrarmos outra melhor.

Claro que isso foi um prato cheio para o puro relativismo, para aquela mente fraca, vazia, antissimbólica e imbecil acreditar que tudo seja relativo e, por isso, tanto faz. Nem ciência deveria existir.

Isso não é apenas um erro, é uma fraqueza da própria alma: O indivíduo que não consegue firmar mais a sua inteligência perante o mundo nega existência da própria inteligência.

A superação dessa fraqueza é a seguinte: aquela hipótese testada na realidade é verdadeira, mas somente até o momento de chegar uma nova hipótese, ainda melhor, e construir uma nova certeza sobre essa realidade. Todas as nossas certezas são frágeis e, em algum momento, podem ser modificadas.

Longe disso gerar a pandemia da burrice, deveria gerar a certeza da humildade: os nossos conhecimentos são limitados e aquele geniosinho que acredita conhecer tudo do mundo só poderá ter certeza de uma coisa: é pura arrogância, originada do medo, acreditar que já saiba tudo do que seja feito a realidade. Afinal, nosso limite é a metafísica e até os números irracionais na matemática mostram a dificuldade de nos agarrarmos às nossas certezas absolutas.

Enfim, a ciência é composta da busca do conhecimento e da formação de certezas precárias, as quais estão sujeitas a serem desmentidas em momento posterior. 

E daí?

E daí que a ciência não pode ser a última palavra da determinação de certezas perante o mundo?

Para que eu passei tanto tempo lendo este texto? Por que saber disso?

Para podermos ter a certeza do seguinte: nós estamos vivendo um genocídio mundial.

Pessoas repetirem, bovinamente, que não pode ser usado o protocolo de Belém, a hidróxicloroquina, azitromicina, o zinco etc... para tentar salvar as pessoas que estão morrendo do COVID-19 é uma afronta.

É óbvio que os limites de certezas possíveis na ciência só serão gerados daqui alguns anos, (como o coquetel AZT, para o tratamento da Aids, só obteve melhoras certezas científicas dez anos após o início de seus estudos). 

A civilização, as pessoas, eu e você, não podemos esperar 10 anos para termos alguma certeza proximamente irrefutável (mas NUNCA atingível, conforme vimos). Nós precisamos nos apoiar com as probabilidades que se encontram na nossa frente, pois, no fundo, é tudo o que temos.

Se alguém tiver a pachorra de dizer que não pode usar o protocolo de Belém, como uma repórter na CNN disse que seria “pregação” o uso da hidroxicloroquina (só mostrando que não entende de ciência e, pior, não conhece as milhares de pessoas salvas), peça para elas analisarem esse site !  

O mau ceticismo, a ignorância e a incapacidade de perceber a realidade não podem ser, hoje, o motivo do genocídio silencioso de milhões de vidas. Por isso esse artigo foi escrito: ninguém tem o direito de ser tão burro a ponto de custar a vida dos outros.

O cientificismo gerou aberrações como o nazismo e o comunismo. O fascismo (tirando a lacração esquerdista de chamar todo mundo de fascista, vide o livro “O Terrorismo Intelectual”, de Jean Sévillia, que já explicou tudo o que precisamos conhecer sobre esse mero bullying, método de censura) e todas as formas totalitárias de política, dessa diabólica “fé metastática” voegeliniana em acreditar que as condições desse vale de lágrimas possam ser modificadas por meio da política, já causou destruição demais.

A inteligência humana é mero instrumento, meio, caminho.

Sem valores que a orientem, poderá gerar tanto o mal quanto o bem, mas isso é assunto para as próximas semanas.