O Império contra-ataca: sempre contra-ataca...

A ficção era atual quando aconteceu

Por ADRIANO MARREIROS 13/07/2020 - 19:16 hs

Lasciate ogni speranza vou ch‘entrate

Dante. A Divina Comédia.

Canto III do Inferno, 9o verso.


O Ministério estava interferindo em Hogwarts.  Começou ridicularizando na imprensa tradicional (O Profeta Diário) Dumbledore, o diretor, e Harry Potter, o aluno mais famoso, por terem dito a verdade sobre a volta de Voldemort, o mais cruel bruxo das trevas de todos os tempos: foram acusados de espalhar notícias falsas, de querer aparecer, de pretenderem formar uma milícia contra o Ministério da Magia.  Então mandaram Umbridge como professora e que já chegou com um discurso politicamente correto mas que já anunciava censura com desculpas de boas intenções.  Logo ela se tornou Alta Inquisidora.  A Censura foi realmente imposta, os meios de se defender foram proibidos.  Os críticos e discordantes eram perseguidos.  Até times e associações foram dissolvidos e só poderiam se constituir novamente com expressa autorização dela... Claro: se compartilhassem das mesmas ideo, digo, idéias do Ministério.  Uma agradável escola se tornou um inferno. O orgulho de ser aluno acabou:  quem não ouviu Harry e Dumbledore se arrependeu já tarde demais... O tempo perdido permitiu a ascensão do Lorde das Trevas ao poder e o fim das liberdades...  Mas bruxos e magia não existem...  Ufa!

No segundo filme da semana, assisti ao Demolidor: aquele com Silvester Stalone, Wesley Snipes e Sandra Bullock.  Em um futuro não muito distante, o policial John Spartan fora acordado de uma prisão criogênica em uma sociedade sob a ditadura absoluta do politicamente correto.  Todos eram obrigados a comer comidas saudáveis quase insípidas e inodoras, o sal era proibido, palavras machucavam (e painéis dirigiam palavras de carinho a todos), um homem foi agredido pelo vilão Phoenix (Snipes) e pediu desculpas ao bandido, a polícia estava de mão atadas sob a desculpa de se evitar violência policial e a paz[1] era total, só não havia liberdade, essa coisinha tão inútil...  Ainda bem que era só um filme de ficção científica com um roteiro absurdo...

“Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro”, disse o Djavan no Spotify.  O Grande Irmão está de olho em você, me avisava Orwell em sua obra prima[2].  Olhei em volta assustado e voltei à leitura sem muita tranquilidade.  A monitoração era constante, até em casa a qualquer momento o governo podia violar sua intimidade sem maiores explicações.  O passado era incerto: podia ser suprimido a qualquer tempo.  Pessoas podiam passar de heróis a vilões ou até mesmo nunca terem existido.  Inimigos podiam passar a amigos com quem nunca se teve hostilidades.  A coerência era suprimida pelo Duplipensar: dependendo da situação ou, principalmente, de quem, as normas e decisões eram aplicadas ou não, desta maneira ou daquela, em completa assimetria e insegurança jurídica.  A Novilíngua consistia na criação constante de novas palavras que proibiam outras tantas, induziam novos conceitos e modificavam outros, delimitando de forma bem precisa onde os pensamentos podiam ir.  Mas estamos em 2020 e 1984 já passou.  Não era profecia, era um mero livro de ficção...  Winston sofria, não eu...

A Vitória sobre a Estrela da Morte me veio à mente.  Mas vira o filme havia pouco e optei por rever o seguinte: “O Império Contra-ataca”.  Sempre contra-ataca... A vitória não garantira nada... esse foi o mais melancólico da série.  Houve outra vitória no Retorno de Jedi!  Que linda cena em volta da fogueira.  Mas o Império Contra-ataca. Sempre contra-ataca: tanto que de sua derrocada surgiu a Primeira Ordem...


 

Do! Or do not!

There is no try

 (mestre Yoda em O Império Contra-ataca)

 

Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)



                           [1] Paz sem voz não é paz: é medo!  (Rappa)

                           [2] O livro 1984.