NEM SEMPRE TEREMOS PARIS...

Play It Again Sam, please...

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 13/07/2020 - 22:27 hs

                                            NEM SEMPRE TEREMOS PARIS...

            Quem me conhece bem, sabe o quanto adoro viajar, e o quanto as minhas memórias afetivas estão intimamente ligadas a viagens que fiz. Meus filhos também carregam essa paixão no DNA, e quando voltamos de um destino, já no voo de volta, vamos planejando o próximo. Por amar a arte e a beleza, elementos que, segundo Roger Scruton, nos fazem acreditar que a vida vale a pena, perdi as contas das vezes que fui a Paris.

            A Cidade-luz é um lugar ao qual sempre me permiti retornar. Em viagens internacionais, ainda que para outros países, muitas vezes voei de Air France, apenas para ter o stop over gratuito por lá, e desfrutar de sua atmosfera encantadora por dois ou três dias, antes de voltar para casa. Entretanto, há cerca de três anos, deixei de pensar assim...

            Amanhã, 14 de julho, comemora-se, na França, a queda da Bastilha (famosa prisão situada em Paris, que demarcava os limites da parte abastada da cidade). Trata-se do acontecimento histórico mais importante do final do século XVIII, na Europa, precursor da Revolução Francesa, movimento que tinha por objetivo contestar os privilégios dos nobres, em detrimento da população empobrecida e esfomeada.

 Os protestos supostamente iniciados pelo fim do absolutismo e por uma divisão mais igualitária de riquezas, culminaram na decapitação do Rei Luís XVI e da rainha, Maria Antonieta, famosa por uma frase que nunca proferiu, a respeito da fome que assolava a classe trabalhadora: “se não têm pão, que comam brioches”.

            A aludida revolução mudou a cara das monarquias européias, disseminando o terror e o medo de represálias nas cortes, e provocando mudanças, em um sistema de governo que passou a ser visto como ultrapassado.

 Ocorre que a Revolução Francesa foi um projeto embrionário de socialismo, o qual, como sistema comunista que é, causou morte, destruição e efeitos devastadores sobre a população. A França não se libertou da Revolução até hoje. Nos últimos anos, por meio de sucessivos dirigentes de viés socialista, em que o Estado assume papel de protagonista, no provimento dos recursos e nas ilimitadas regras de inclusão social e estímulo à imigração, foram sendo adotadas posturas que levaram ao caos social.

O aumento exponencial da comunidade muçulmana, que hoje busca impor suas regras religiosas a toda a população, é prova disso. Por meio da flexibilização de leis de imigração e de fixação de residência,  hoje a França assiste impávida às calçadas da Avenida Champs Elysées sendo tomadas, nos horários sagrados para os islâmicos, por homens e mulheres de joelhos, saudando Alah, voltados para Meca. Nas escolas e universidades, uma profusão de véus e burcas, em uma sociedade que não adotou o islamismo e se diz laica, mas elevou a tolerância a um patamar perigoso.

            Grupos terroristas islâmicos devastam a própria cidade que gentilmente os acolheu, tendo inclusive assumido a autoria de diversos atentados na cidade, como o que vitimou pessoas na sede do Jornal Charles Ebdo, o qual teve como estopim a insatisfação dos muçulmanos com uma charge. Quem caminha por suas ruas, vê como Paris está suja, perigosa após o horário noturno do rush, com regiões abandonadas, pichações por toda parte. Um retrato muito triste da outrora linda cidade, que vai perdendo sua identidade.

            Os subúrbios são territórios sem lei, ocupados por imigrantes, que se apinham em conjuntos habitacionais, vivendo precariamente, reféns de  gangues que vivem na marginalidade e dominam o tráfico local. Depredações, assassinatos, roubos, furtos, tudo isso faz parte da atmosfera violenta desses bairros. A tão propalada inclusão social, abraçada pela esquerda, implantada de modo desordenado, só destrói paulatinamente a cidade das luzes.

             Em 2018, Paris foi palco da revolta dos Coletes Amarelos, a qual gerou uma série de atos de vandalismo e violência. Esse discurso em prol dos direitos das minorias, quando estas já se encontram devidamente amparadas, é típico da visão socialista de governo. O movimento, iniciado por conta do aumento dos impostos sobre o petróleo, descambou para protestos acerca do valor do salário mínimo e da redução do poder de compra das classes trabalhadoras. Frise-se que mais da metade da população recebe benefícios e auxílios do Estado, que é inflado ao grau máximo com isso, e opera sempre com déficit fiscal .

            Mesmo com todos os sinais de que há algo de muito podre na Terra do Iluminismo, o Presidente Emmanuel Macron parece alheio ao que acontece ao seu redor. Os franceses, muito em breve, mergulharão numa onda de ódio e convulsão social incontroláveis, face ao desgoverno e a políticas desastrosas, como os últimos episódios demonstraram.

            É uma pena... Perde-se um símbolo de elegância, cultura e beleza, em decorrência de políticas socioeconômicas equivocadas. Se você não conhece a cidade, corra, vá logo, antes que acabe. “Nós sempre teremos Paris”, a famosa frase, dita por Humphrey Bogart a Ingrid Bergman, em sua triste despedida em Casablanca, provavelmente, dentro em breve, não terá mais o mesmo significado.