JULIO CESAR, O TIRANO

As decisões de Alexandre de Moraes, igualmente ameaçam a democracia

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 27/07/2020 - 18:29 hs

Acompanhando os desdobramentos da cena jurídico-política brasileira, em especial o malfadado inquérito das fake news, no qual o Ministro do STF, Alexandre de Moraes, investiga fatos que não são apenados como crimes, confisca computadores e celulares, efetua buscas e prisões, encerra contas em redes sociais, e promove uma devassa nas vidas de pessoas conservadoras de direita, veio-me à cabeça Julio César, pretor, general e cônsul romano, que viveu entre os anos 100 e 44 A.C..

                       Biografado por Plutarco, grande filósofo da Antiguidade, que tinha como principal aptidão, ressaltar as características e as personalidades de seus biografados, Julio César foi descrito como alguém inescrupuloso, capaz de tudo pelo poder, tendo sido assassinado pelos próprios senadores romanos, indignados com sua tirania, sob a liderança de Marco Júnio Bruto. Originar-se-ia daí a expressão: “até tu, Brutus?”, a qual teria sido proferida por César, enquanto era esfaqueado, imortalizada por Shakespeare em sua obra” Julio César”.

                       Mas o que o inquérito ilegal tem a ver com Roma? Ah... pois é. Tem muito. Porque a História nos ensina o passado, para podermos saber o que fazer ou evitar no presente... César tornou-se poderoso demais. Sua trajetória deslanchou após sua arrasadora vitória nas Guerras Gálicas, tendo entrado com uma legião de seu exército em Roma, o que era proibido. Tomou o poder como ditador, após essa atitude provocar uma sangrenta guerra civil.

                       Quando no comando da República Romana, decretava leis ao seu bel prazer, sem ouvir o senado, tecia conspirações, perseguia cidadãos e trocava favores, tendo inclusive ofertado sua filha com Cornélia, Julia, em casamento a Pompeu, seu desafeto, em busca de uma aliança com este.

                       Foi casado com Pompéia (após o falecimento de Cornélia), amante de Cleópatra, e, diz a História, amante de seu próprio sobrinho, Cassiano, a quem transformou em seu sucessor, como primeiro Imperador Romano, por testamento. Extremamente vaidoso, gastava muito, e contraia dívidas para sustentar seu dispendioso estilo de vida, chegando a sair de Roma antes de seu mandato como pretor extinguir-se, aceitando governar a Espanha, a fim de não ser julgado como cidadão comum, por seus débitos.

                        Não media esforços para alcançar seus objetivos. Com cerca de trinta anos de idade, leu a biografia de Alexandre o Grande, tendo proferido a seguinte frase, após cair em pranto: “não vos parece justo motivo de dor, que Alexandre, na idade em que eu estou, já tivesse conquistado tantos países, ao passo que eu nada ainda fiz de memorável?”.

                       Sua competitividade extremada impulsionou-o, e a partir desse episódio, tornou-se um grande general, tendo conquistado mais de oitocentas cidades, dominado cerca de trezentos povos, matado mais de um milhão de pessoas em suas batalhas, e feito outro um milhão de prisioneiros de guerra, em menos de dez anos. Era amado por seus soldados, mas odiado pelos poderosos, posteriormente, no exercício de sua vida pública.

                       Exercendo um modelo de governo populista, em que angariava o apoio da população, em troca de pão e circo (os espetáculos por ele promovidos, de luta com gladiadores, feras, bestas e escravos atraiam cerca de duzentas mil pessoas),  nos bastidores, Julio César agia em causa própria, e em nome de seus objetivos, expandia seus domínios de forma avassaladora, entrando para a História como o responsável pela queda da República Romana, tendo concentrado todo o poder em suas mãos, por meio de alianças espúrias, as quais levaram à sua morte.

                       César iniciou sua trajetória como advogado. Sua eloquência ajudou-o a controlar o povo, com uma excelente retórica e homenagens diversas prestadas às mulheres, aos falecidos, aos heróis de guerra... criou o calendário de meses nos moldes que utilizamos até hoje, tendo o mês sete o nome de Julio em sua homenagem. Entretanto, suas decisões tirânicas avançaram sobre a democracia, de tal modo esgarçando o tecido social, até que se desse o fim da República.

                       As decisões de Alexandre de Moraes, igualmente ameaçam a democracia, atentando de modo ilegal contra grupos que apoiam o Presidente da República, legitimamente eleito, denotando perseguição direcionada e parcialidade de julgamento, atitude inconcebível advinda de um membro da suprema Corte de justiça.

                       Que a História sirva de espelho, a fim de coibir abusos, fazer cessar ilegalidades, trazer lições valiosas sobre os rumos de uma Nação, quando esta vê seus direitos, democraticamente alcançados, sendo vilipendiados, por objetivos políticos e não-republicanos.

                        A República Romana, governada por César, teve seu fim, em decorrência de enormes abusos de poder, transformando-se em Império, no reinado de Cassiano, evento que causou tamanha  convulsão social, que culminou com a queda e extinção do vasto Império Romano.  O que será do Brasil?