Carpe diem!

falar a verdade - um ato revolucionário - e prantear as nossas perdas é quase impossível

Por FABIO COSTA PEREIRA 28/07/2020 - 23:16 hs

Estava disposto, esta semana, a escrever sobre a utilização do medo, durante a pandemia, como instrumento de dominação.


Pensei, também, em escrever sobre o efeito Dunning-Krugger (o efeito de alguém, sem muitas luzes, achar que sabe mais do que sabe) e que se assomou das redes sociais e de muitos dos gestores da crise provocada pelo Covid-19; ou, de forma alternativa, rascunhar algo sobre o cerceamento da liberdade de expressão a que estamos sendo submetidos.


No entanto, resolvi postergar a discussão dos três assuntos, extremamente importantes dentro de um contexto democrático, por outro mais sutil e muito presente em nossas vidas neste momento da história, as perdas e os lutos.


Em 1990, portanto há  trinta anos, assisti a um filme que me marcou muito, A Sociedade dos Poetas Mortos.


No início do filme, Robin Willians, que encenava o papel de um professor não convencional em uma tradicional escola norte-americana dos anos 50, leva os seus alunos por um “tour” pelas instalações do instituto educacional em que lecionava.


Em uma sala  de troféus, memorabilia e fotos dos alunos do passado, outrora tão jovens quanto aqueles que ali estavam, o Professor fez os seus pupilos deterem-se diante de uma das fotografias onde as pessoas que  ali estavam retratadas, provavelmente há muito estavam mortas.


Como que de surpresa, enquanto os estudantes fitavam a foto, o professor sussurrou,  no ouvido de seus alunos, a expressão latina “carpe diem”, cuja literal tradução quer dizer, aproveite o dia.


Do eco do passado, dos jovens que haviam envelhecido e morrido, Robin Wlians tentou dizer para os seus alunos que a vida é muito rápida e que, quando a gente se dá conta, ela já se foi.


Aproveitar o presente, sabendo que o futuro é uma ilusão e o passado apenas uma referência, é a certeza de que não desperdiçaremos  o nosso curto interstício sobre a face da terra.


Nas últimas semanas, por conta da morte de inúmeros amigos e conhecidos que, em tese,  tinham a vida toda pela frente, lembrei-me do filme de WILLIAMS.


Por conta da pandemia, nem mesmo os ritos finais de despedida são possíveis e todo os passos  que envolvem o luto, tão essenciais para a assimilação da perda, abreviados.


Nestes tempos difíceis em que imersos, cercado por uma doença mortal, onde o medo tornou-se em instrumento de domínio e falar a verdade um ato revolucionário, prantear as nossas perdas é quase que impossível.


Fico imaginando a dura situação das famílias que perderam os seus entes queridos para a Covid-19 e que não puderam deles se aproximar nem para o derradeiro adeus.


Quanta angústia, dor e sofrimento envolvidos que, somente quem viveu tal situação é que pode a descrever.


Talvez a grande lição a aprender com tudo o que está acontecendo é que devemos aproveitar cada instante da vida, que é único e irrepetível, em especial com as pessoas que nos são caras, pois nunca saberemos o tempo que elas permanecerão conosco.


Portanto, “carpe diem”!


E que Deus tenha piedade de nós!