“As Rosas não falam ”: foi a censura?!!

não posso me dar ao luxo de falar demais: sou das redes sociais, não das redes socialistas...

Por ADRIANO MARREIROS 30/07/2020 - 22:17 hs

 

“As Rosas não falam[1]”: foi a censura?!!

Se a rosa tivesse outro nome,

 ainda assim teria o mesmo perfume

(Shakespeare)

 

 

 

Ouvia os primeiros acordes de So lonely do The Police (nome sugestivo, hoje) mas, opa (!), havia algo de estranho...  Logo, em vez da voz do Sting, escutei a do Leo Jaime cantando “Eu tinha tanto pra dizer, metade eu tive que esquecer.  E quanto eu tento escrever, seu nome vem me interromper ... Solange! Solange! Solange...”. (Referência a Solange Hernandes, chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas -DCDP - entre 1981 e 1984 e tida como uma máquina de vetos a produções artísticas) .

Ah, os nomes mudam mas Solange continua firme: ela é mais que um nome, é um estado de espírito, aliás, de um espírito – digno de exorcismo: Vade retro Satana!

(Leo agora parece tão calado... ou estou enganado)

“Dizem Morena, que teu olhar tem correntes de luz que faz cegar”.  Ah, saudoso Braguinha! Época triste em que ouvir essa marchinha não remete a carnaval nem a a romance. Luz, hoje, só lembra Portador da Luz. Iluminista.  Lembra do Gênesis e do Despotismo Esclarecido da era Absolutista.  Faz sentido, muito sentido... Mas cessa o devaneio e a música prossegue: “O povo anda dizendo que essa luz do seu olhar, a Light vai mandar cortar”. 

“A coisa tá ficando russa... Muita patrulha, muita bagunça”, diz Elis interpretando a canção da Rita Lee.  Russa... Stalin deve estar orgulhoso no inferno.  Bagunça? Sim! Quebra-quebra? Sim.  Destruição do passado, da História e da religião? Sim.  Protestos ordeiros e pacíficos? Não: são antidemocráticos!  Elis faleceu, mas não tenho visto Rita no tom dessa canção: vou indagar ao Marciano, vou ligar pra ele agora.

Olha! Gil mandando ver! “Eu quero entrar na rede, promover um debate, juntar via internet um grupo de tietes do Connecticut”.  Mas ele pode entrar na rede pro que quiser... Tietes, opiniões, críticas.  Ele e os amigos podem.  Só não o tenho visto cantando Cálice.  Belos versos: “Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano...”, ou no início da manhã. Ou a qualquer tempo sem poder mais entrar na rede.  Canta “Cálice”, Gil!

Em nosso país, temos essas três indescritíveis coisas preciosas: a liberdade de expressão, a liberdade de consciência e prudência de nunca praticar nenhuma delas.

Enfim, vou seguir o conselho do Mark Twain e ir ouvir calado minha música, espontaneamente, não posso me dar ao luxo de falar demais: sou das redes sociais, não das redes socialistas...


 

Eu já não posso nem cantar

Meus dentes rangem por você.

(Leo Jaime,

num passado muito, muito distante)

 

Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)



[1] Canção de Cartola.  No tempo em que a Mangueira não fazia política e cultuava a História.