A vida in modo juventutis: cultura e política

“Acontece que a vida necessita, objetivamente, da maturidade"

Por FERNANDO RAZENTE 09/08/2020 - 19:19 hs

José Ortega y Gasset (1883-1955) foi um filósofo diferenciado. Atuando como ensaísta, jornalista e ativista político e sendo o fundador da Escola de Madrid, Ortega foi  amplamente considerado o maior filósofo espanhol do Século XX. Em seus livros, como o clássico “A Rebelião das Massas (1930)” Ortega revela toda sua agudeza de espírito, com um olhar perspicaz sobre as causas históricas dos problemas da sociedade ocidental contemporânea. 


Um desses problemas, acredita Ortega, é a juventude ou a vida in modo juventutis. Sobre a juventude, Ortega acredita ser ela uma das grande categorias vitais, ao lado do sexo. Segundo o filósofo, desde as sociedades mais primitivas, a divisão e interação entres os participantes era feita através de classes: de sexo e idade, masculino e feminino, crianças, jovens e velhos. A história humana de uma sociedade em progresso, neste sentido, deve ser entendida nos termos desses conflitos básicos. 


“Cada uma dessas potências significa a mobilização da vida toda num sentido divergente da sua forma oposta”, escreve Ortega. Em outras palavras, há uma colisão nos diferentes momentos da história entre essas classes em que cada uma, a seu modo particular, tenta arrastar no seu sentido a existência humana inteira. Numa época, somos velhos em tudo, em outra somos jovens até quando velhos. Em suma, na visão de José Ortega y Gasset, para se compreender bem uma época, é preciso “determinar-se a equação dinâmica que nela formam essas quatro potências, e perguntar-se: Quem pode mais? Os jovens ou os velhos, isto é, os homens maduros? O varonil ou o feminino?”.


Já no século XX, José Ortega y Gasset apontava para a “juventude” como predominante na formação do direcionamento da sociedade (vida in modo juventutis.). Ele mesmo, em seu contexto, escreveu não saber se este seria um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou. O lamentável é que, como escritores, filósofos e cronistas tem nos mostrado, a adesão do espírito juvenil imaturo permanece no século XXI com uma força colossal.


Um exemplo recente: na sexta-feira, 31 de julho, a famosa revista IstoÉ divulgou nas redes sociais a capa de sua edição impressa da semana. Malala e Felipe Neto, ao lado de Greta Thunberg, aparecem como líderes do que é chamado de “geração transformadora”. Os três jovens surgem na lista de “oráculos” com “pouca idade” que “dominam a cena política” e ditam o pensamento social. 


Em outro caso mais grotesco, revelando a barbárie da sociedade in modo juventutis, o site do jornal The New York Times publicou um vídeo do youtuber Felipe Neto - que ganha a vida pintando seu cabelo de diferentes cores e fazendo vídeos “cômicos” para crianças - criticando os presidentes Jair Bolsonaro (Brasil) e Donald Trump (EUA) sobre suas políticas nacionais. Não me parece necessário nenhuma dissertação sobre esses eventos para mostrar a loucura em que se encontram as modeladoras da cultura, revistas, jornais e mídia em geral. 


O resultado da sociedade do século XXI, numa vida in modo juventutis, é a vergonha da subversão e o rídiculo da arrogância juvenil. “Nas gerações anteriores”, escreve Ortega “a juventude vivia preocupada com a maturidade. Admirava os maiores, recebia deles as normas - em arte, ciência, política, usos e regime de vida - queria sua aprovação e temia irritá-los.” Atualmente, nossos jovens palestram para fóruns econômicos de nível global, dão entrevistas à grande imprensa, educam outros jovens pelas redes sociais, e ditam a política para os maiores. Conforme Ortega observou, a invasão do mundo pela mocidade também faz com que o homem e a mulher maduros comecem a tomar atitude servis em seu dia a dia: imitam seu modo de falar e até de vestir. É tragicômica a situação dos pais e mães que se vêem obrigados a imitar seus filhos e filhas na indumentária. 


Por fim, neste pequeno artigo, preciso pontuar algo especial para este período que antecede as eleições municipais. Os eleitores e candidatos precisam examinar as possibilidade de governo também por essa ótica de José Ortega y Gasset, pois da mesma forma que acontece a infantilização na cultura de massa, acontece com todo o resto, inclusive no setor político e público. A política guiada por jovens será feita sob medida para efebos, que quase sempre é marcada por decisões apressadas, administrações imaturas e danos gerais. 


Tal é essa a verdade que nas Sagradas Escrituras é evidência do juízo divino ser governado por jovens (Isaías 3.4,12). Jovens rapazes e moças sem experiências de gerir eficientemente outras responsabilidades até menores, como uma casa, criação de filhos, uma lojinha e até uma empresa, podem estar aptos para gerir um município?  Vale lembrar o que escreveu o psicólogo clínico canadense Jordan B. Peterson: “Não reorganize o estado até que você tenha ordenado sua própria existência” e para isso, é preciso de experiência, tempo e maturidade. 


Finalizo com mais uma reflexão perspicaz de Ortega sobre a juventude:  “Acontece que a vida necessita, objetivamente, da maturidade; portanto, que a juventude também precisa dela. É preciso organizar a existência, ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem (...) A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de chegar à maturidade sem aptidão.” O que será da nossa cultura, política e da vida social direcionada por uma classe que só se preocupa em se afastar, até onde pode ser possível, das preocupações com a outra idade?