Como acabar com a CUT, FUP, CGT e afins

A liberdade, a justiça e o bom governo da república exigem coerência institucional e constitucional

Por JOSÉ STELLE 09/08/2020 - 19:39 hs

O acontecimento me foi narrado em 1983 por Donald Stewart Jr., da Ecisa Engenharia, sediada no Rio der Janeiro. Anos antes, a Ecisa fora escolhida pelo governo da Tanzânia para construir um pedaço de 300 km da rodovia que iria ligar o porto de Dar es-Salaam a Dodoma, uma espécie de Brasília africana construída na região central do país. O Banco Mundial custeava a obra.  

         Só que havia um problema. A Tanzânia, a ex-colonia inglesa de Tanganyka, era produto do “socialismo africano” de Julius Nyerere. O pouco da work ethic inculcada pelos ingleses durante o período colonial desaparecera. Os trabalhadores contratados pela Ecisa tinham muitos direitos e pouco sentimento de responsabilidade. Construíam um quilômetro de estrada e queriam descansar. Sentavam-se ao lado da estrada, jogavam cartas, sorriam e davam de ombro quando ordenados a se mexer. Ao mesmo tempo, alegavam direitos e queriam ser pagos. A obra não andava, e o governo em Dodoma ameaçava cancelar o contrato.

         Stewart teve então uma ideia revolucionária: corromper a cultura doentia dos trabalhadores modificando as regras do jogo. De agora em diante, eles seriam pagos não por cumprir horário, com ou sem produção, mas por quilômetro construído. Podiam organizar-se como quisessem a fim de completar a obra. Os construtores, antes “explorados” pelo capitalista brasileiro, se reuniram, elegeram chefes de turma, formaram grupos de trabalho, e começaram a construir. Os “vagabundos” eram inicialmente alertados pelos chefes de turma; depois, se não trabalhassem com afinco, eram demitidos. Poucos foram demitidos. A obra não apenas recobrou o que fora perdido como também foi concluída antes da data estipulada no contrato. Em suma, Stewart transformou sua mão de obra africana em capitalistas, por assim dizer, proprietários dos meios de produção e donos de seu destino.

         Algo semelhante ocorreu com a siderúrgica americana Nucor Steel, da Carolina do Norte, deficitária e cheia de greves e problemas trabalhistas nos anos ’60. Em 1968, à beira da falência, a companhia contratou um novo gerente. Homem sensato vindo da classe média e seguidor da moral tradicional, ele rejeitou a conduta dos corporate raiders que dominavam e ainda dominam o mundo capitalista, embora em número menor, dadas as novas teorias e métodos de  administração. Os raiders – ambiciosos, insensíveis, bitolados por teorias duvidosas aprendidas nos programas de MBA de Harvard e outras universidades – entram na empresa com um salário fixo de milhões de dólares por ano e outros milhões em ações, põe empregados na rua a fim de cortar despesas e mostrar lucro, e depois partem para “reorganizar” outra empresa, deixando atrás de si uma trilha de devastação que não resolve a relação capital-trabalho que tem afetado o mundo capitalista negativamente há séculos.

O novo gerente da Nucor fez o oposto. Exigiu apenas um pequeno salário básico, com aumento dependente da produtividade e do crescimento da empresa; e, em vez de despedir os metalúrgicos, reduziu a burocracia da empresa. Com esse exemplo, convenceu os trabalhadores a aceitarem o mesmo sistema: um salário básico (em 1968, cerca de sete dólares por hora; em 1982, 11 dólares), com o restante dependendo do crescimento da empresa. Em épocas de vacas gordas, ganhariam mais; em época de vacas magras, ganhariam menos. Ninguém seria despedido, a não ser por justa causa, e todos trabalhariam unidos para fazer da Nucor Steeel uma excelente siderúrgica.

Com esse sistema, a United Steelworkers (USW), a CUT norte americana, desapareceu da Nucor. Os trabalhadores, conhecendo pela experiência como funciona o sistema de incentivos no mercado, participavam das decisões da empresa, não para ameaçar, fazer greves e piquetes, gritar mais alto e levar”, mas como sócios que compreendiam a relação natural, benéfica e construtiva entre o capital e o trabalho.

         Os resultados positivos começaram a aparecer. Os trabalhadores, tanto engenheiros quanto metalúrgicos, conhecendo de perto sua arte, desenvolveram métodos de fazer mais aço de melhor qualidade em menor tempo. Não foi tudo um conto de fadas. Houve grande esforço e criatividade. Para defender sua estabilidade no emprego, os metalúrgicos da Nucor decidiram trabalhar no sábado pela manhã, sem serem pagos, a fim de adiantar o trabalho de segunda-feira. A empresa cresceu, comprou aos poucos outras pequenas siderúrgicas deficitárias, e dentro de alguns anos produzia o melhor aço do mundo.

Os japoneses, que na época dominavam a indústria, vieram visitar a Nucor Steel para ver o que seu novo concorrente estava fazendo. A United Steelworkers,  esperando recobrar os trabalhadores perdidos com a reorganização da Nucor em 1968, também veio – não para visitar, mas para “organizar” seus metalúrgicos e engordar sua receita. Na eleição, foi rejeitada pelo placar de 430 a 3, e nunca mais voltou. No período 1968-1982, o número de trabalhadores que se havia desligado da empresa podia ser contado nos dedos da mão, e a maioria deles por se mudar para outra cidade. Por volta de 1990, o salário médio de um metalúrgico da Nucor era de 90 mil dólares nos anos bons, e de 40 mil dólares em época de recessão, bem superior aos ganhos dos metalúrgicos “organizados” da CUT norte americana.

A Koch Industries, odiada pelos socialistas do mundo por contribuir para causas conservadoras e liberais, também obteve seu grande sucesso por método organizacional semelhante. Esse método foi aplicado por empresas em outros países, em geral incorretamente, pois não eliminou, por processo natural, o câncer da indústria em questão. Seus gerentes apenas persuadiram os chefes do sindicatos a aceitar a parcela de responsabilidade relativa a ganhos de produtividade. Suas indústrias continuaram nas mãos do grande crime organizado – os sindicatos trabalhistas em geral, base do movimento comunista entre a classe trabalhadora.

A fim de não parecermos reacionários, sempre a favor dos capitalistas e contra os trabalhadores, devemos dizer que existe também o grande crime organizado na área do capital, e esse, por afinidade com aquele, se une a ele, como Hayek menciona em O caminho da servidão, e juntos dominam os partidos e a política corrupta dos diferentes países, abrindo portas para o socialismo.

O que se deduz dessa situação lamentável, que abala as nações, empurrando-as para o socialismo?

Primeiro, que os maiores culpados são os grandes capitalistas, cuja insensatez e desejo de lucro indevido tem embotado seu conhecido engenho em outras áreas de atividade, levando-os a fazerem aliança com aqueles que prometem confiscar-lhes suas propriedades.

Segundo, que, embora correto e sadio, o método estabelecido pela Nucor Steel é necessário mas insuficiente. Deve ser transformado em legislação que extinga os sindicatos trabalhistas, transformando-os em empresas ou cooperativas competitivas de treinamento e venda de mão de obra que, como qualquer outra, luta para melhorar a qualidade de seus produtos a fim de vendê-los para quem quiser comprá-los.

Os sindicatos patronais e as câmaras de comércio também precisam ser reorganizados, retirando-lhes o direito ilícito que tem detido historicamente de moldar a legislação em seu favor.

A liberdade, a justiça e o bom governo da república exigem coerência institucional e constitucional. Em nossas colunas anteriores, apresentamos um resumo da “reinvenção institucional” de Hayek, bem como de emendas que prometem aperfeiçoar aquele plano. Sem dúvida, um dos elementos fundamentais da reconstrução política de qualquer nação é o corte do cordão umbilical histórico entre o privilégio e a legislação. O que foi dito acima no tocante aos sindicatos pode contribuir para esse objetivo.