O Quarto Mandamento

posso estar errado, mas me parece que essa noção meio que se perdeu nas brumas do tempo.

Por DARTAGNAN ZANELA 09/08/2020 - 20:28 hs

Uma vez, num reino tão, tão distante, voltando pra casa depois de uma semana de trabalho, parei meu pé de borracha para abastecer num posto de combustível qualquer. O frentista me cumprimentou e perguntou o que eu desejava. Álcool até a tampa, respondi. O tanque do carro estava no mico. Mais um pouco e o cavalo velho que estava no volante seria a única força de tração do veículo.

 

Junto ao posto, como em boa parte dos postos de combustível do nosso país, havia uma lanchonete, um ponto de encontro da galerinha e, neste, havia um grupo de rapazes, faceiros da vida, enchendo o pote. Afinal, era fim de tarde de uma sexta-feira. Bom pra eles.

 

Um deles, etilicamente faceiro, resolveu assuntar um pouco comigo.

 

“Cara, você é daqui”? “Não. Estou só de varagem”. “Que barba phoda essa sua”. “Obrigado”. “Quanto tempo você levou para que ela ficasse assim”? “Uns quatro meses”. “Nossa! Só?” “Só”. “Viu, deixe que eu pago a abastecida do teu carro”. “[risos]” “É sério. Pode deixar que eu pago”. “Não. Obrigado. Não precisa não”. “Tá bom. Então pague duas cervejas para nós”. “[risos]”. “Pô cara! Eu ia te pagar um tanque de gasolina e você não vai pagar nem duas cervejas pra nós?” “Não”. “[risos]”.

 

O frentista olhou meio sem jeito pra mim. Olhei pra ele e, sorrindo, disse: nem esquente. Vamos ser sinceros. A jogada foi ótima. Ele riu, nós rimos, conversamos sobre outros assuntos e a vida seguiu o seu rumo, com ou sem prumo.

 

O amigo leitor deve estar pensando que essa historieta, a muito vivida por mim, terá alguma relação com o tema que será abordado nessa escrevinhada. Se pensou, perdeu playboy. Apenas quis conta-la.

 

Na verdade, faz alguns dias que estava matutando sobre os dez mandamentos. As dez advertências que nos foram apresentadas pelo Altíssimo para, a partir delas, organizarmos o passo de nosso peregrinar por esse vale de lágrimas. Aí, matutando, ocorreram-me algumas coisas que, para sua infelicidade, resolvi escrevinhar.

 

O cumprimento dos mandamentos, por si só, não nos torna uma pessoa especial, linda e cheirosa. Não. A observância dos mesmos nos auxilia a tão só e simplesmente a sermos gente. Só isso.

 

O quarto mandamento, por exemplo. Honrar pai e mãe. Sim, sabemos que há certos tipos de pai e determinados figuras de mãe que só por Deus. Porém, o mandamento diz que devemos honrá-los, independente de quem eles sejam, seguindo, nesse caso, o caminho que nos é indicado pela parábola dos talentos. Ou seja: por pouco que tenhamos recebido (em termos morais, espirituais, etc.), temos o dever de cultivar esse pouco para que ele frutifique.

 

Trocando em miúdos, respeitar pai e mãe não nos torna santos, nem heróis. Não mesmo. Respeitá-los, honrá-los, é o mínimo que qualquer um deve fazer para ser gente.

 

E tem outra: até onde sei, nenhum indivíduo se torna uma pessoa melhor desonrando os seus genitores.

 

Pois é. Mas, infelizmente, todos nós acabamos uma vez ou outra ofendendo os nossos velhos; e carregamos essa dor, esse arrependimento, para todo o sempre em nosso coração. Quer dizer, ao menos penso que seja assim com todos, pois comigo é bem desse jeito. E é cada arrependimento, meu amigo, que eu prefiro nem contar.

 

E o mais interessante é que se formos dar um zóio naquilo que é ensinado por outras tradições, por outros povos nas mais diversas épocas, nós não encontraremos nenhuma, nenhuma, nenhuma tradição que ensine para os seus que se deve desonrar seus velhos.

 

Desde que o mundo é mundo, não temos notícia de uma sociedade que ensine isso.

 

Se formos matutar sobre cada um dos dez mandamentos iremos, sem pestanejar, chegar na mesma conclusão, de que existem certos princípios morais que são universais e que o cumprimento dos mesmos não nos torna bons, mas sim, que a observância dos mesmos nos ajuda a nos tornarmos minimamente gente. E se não somos minimamente gente, não adianta nada, nadinha, dizer que somos uma alminha “do bem”.

 

Para sermos realmente bons temos a necessidade de dar um passo a mais. Nesse caso, lembremos do jovem rico que foi ter um tête-à-tête com Jesus para sabermos qual é o passo.

 

Atualmente, posso estar errado, mas me parece que essa noção meio que se perdeu nas brumas do tempo.

 

Não são poucas as pessoas que escondem sua pequenez humana atrás de um mandamento moral, ou duma regra de convívio social, ou de uma mera encenação de marketing digital.

 

Por exemplo: o fato duma pessoa usar uma máscara - de olhar com cara feia, ou de fazer um escarcéu diante de uma pessoa que está sem a dita cuja - não significa que ela seja um exemplo de bondade; sinaliza apenas que ela segue à risca uma determinação sanitária.

 

O fato de um indivíduo defender uma causa política, também, não é prova de que ele seja a manifestação da bondade entre nós. Não. Apenas indica que ele considera essa ou aquela ideologia, esse ou aquele grupo político mais apto para nortear os rumos da sociedade.

 

É. Mas não são poucas as pessoas que imaginam ser a voz “do bem” só porque aderem a uma ideologia política, ou adotam uma conduta social, ou defendem uma causa.

 

Se consideram tão boas que todo e qualquer mal perpetrado em nome da sua causa, em favor do seu código e em prol de sua ideologia são vistos por elas como algo a ser comemorado e, infelizmente, tal impostura se torna cada vez mais frequente entre nós e, às vezes, em nós.

 

Por essas e outras, penso que eu poderia voltar até aquele posto de combustível e pagar uma cervejinha para aqueles bebuns e, com eles, dar umas boas risadas e tomar algumas ampolas de cevada. Porém, algo me diz que não irei encontrá-los outra vez, mas encontrei você, amigo leitor, mais uma vez, aqui, na última linha duma escrevinhada minha.

 

Que bom. Em bebermos, mesmo que distantes, uma boa xícara de café a isso.

            Escrevinhado por Dartagnan Zanela



e-mail: dartagnanzanela@gmail.com