A BUSCA DA VERDADE

Entendi que, mais do que Direito, eu precisava estudar as matérias que o circundam e lhe dão sustentação

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 10/08/2020 - 22:16 hs

Muito pouco aprendi, em minha vida acadêmica, de História e outras ciências. Na verdade, nos é passada uma versão deturpada dos fatos, conforme a visão do professor do momento. Eu testemunhei uma narrativa na escola, que foi completamente diversa da que ouvi, quando fiz Mestrado em Ciências Penais e Criminologia. 

Por aqui, a História é contada ao gosto do freguês, e posso dizer que a freguesia do meu Mestrado era de ideologia esquerdista na veia...daí, para denegrirem a Monarquia, a família Imperial, apresentarem D. João como um velho gordo, glutão e abobalhado, e Dom Pedro como um tarado incorrigível que só pensava em sexo, foi um pulo.

Só voltei a pensar em revisitar a História, e buscar a verdade das narrativas, em 2016. Nesse ano, fiz uma mudança profissional radical, deixando de atuar em promotorias de família, onde permaneci por quase dezesseis anos, e voltando para o meu berço, a matéria de minha eleição e pela qual bate o meu coração, o Direito Penal. 

Nessa virada de chave, percebi a necessidade urgente de estudar, me aperfeiçoar, me atualizar. Entendi que, mais do que Direito, eu precisava estudar as matérias que o circundam e lhe dão sustentação: história, filosofia, política, segurança pública, essas eram as lacunas que eu possuía, e que corajosamente resolvi suprir. 

Desde então, fiz inúmeros cursos, no Brasil e no exterior. Participei por dois anos da Escola de Altos Estudos Criminais, de Edilson Mougenot Bomfim, exclusiva para Promotores, em São Paulo, me tornei aluna do Prof Olavo de Carvalho, no Curso Online de Filosofia, e fui estudar com ele na Virgínia. Devorei livros, aulas via internet, documentários e filmes. 

Ao longo dessa trajetória, fiz inúmeros amigos valorosos, os quais pensam como eu, e se identificam com o conservadorismo. Sobretudo, passei a compreender as nuances e as várias formas possíveis de se narrar um fato, contar uma estória, dar uma notícia, valorizar ou denegrir uma biografia. Comecei a raciocinar sobre tudo que entra na minha casa, na minha vida, na minha cabeça.

Essa não é uma mudança fácil. Ela vem acompanhada de muitas outras, em efeito cascata. Naturalmente, vai-se modificando a perspectiva, e muitas amizades, hábitos, programações e até pensamentos, já não fazem mais sentido. Isso gera uma sensação de não pertencimento, que pode perdurar por bastante tempo. Afinal, eu que mudei, ou foi o mundo que mudou e eu não havia percebido?

O professor Olavo aconselha, para esses momentos de dificuldade, em que nos sentimos como peixes fora d’água, um santo remédio: estudar, estudar e estudar. Ele ensina que, quando nada mais parecer fazer sentido ao seu redor, se você possuir um foco no estudo, e buscar a clareza de raciocínio, naturalmente uma resposta surgirá, quando menos imaginar. 

E eu assim o fiz. Estudei com afinco. Passei finais de semana lendo e escrevendo. Viajei para ter aulas ou as recebi online. Investi tempo e dinheiro no que julguei fazer parte de um propósito maior, que norteia minha vida, hoje: descobrir o legado que quero deixar para a posteridade.  

O mais engraçado, no processo de aprendizado, é ter a humildade de Sócrates, ao reconhecer que “só sei que nada sei”. É se sentir incompleto. Como me disse Vicente do Prado Tolezano, a nobreza da vida vem da busca. Porque, quanto mais se estuda, mais se quer ampliar esse portal da sabedoria, e nunca é suficiente. Passamos a fazer associações naturais de algo que escutamos aqui, lemos ali, e assim vamos montando o quebra-cabeças do aprendizado, em nossas mentes. 

Certa vez, ouvi de uma colega também Promotora de Justiça, a seguinte pergunta: “mas por que você gasta tanto dinheiro e desperdiça seu tempo com esses cursos, se isso não aumenta o seu salário?” (no Ministério Público do Rio, não possuímos promoções por merecimento, o que incluiria o desempenho acadêmico, a realização de cursos pelo Promotor, etc). Daí a minha colega entender que tudo isso era absolutamente dispensável.

“Bem, eu estudo para me tornar uma pessoa melhor, para compreender meu propósito de vida, para passar melhores exemplos e para entender mais o mundo ao meu redor”, respondi-lhe. Talvez ela não tenha podido compreender que esse caminho do aprofundamento é absolutamente pessoal, e que essa necessidade vem bater à porta de cada um, de um modo diferente. 

Para mim, o despertar surgiu com uma mudança nas minhas funções profissionais, que me evidenciou que eu queria muito mais, do que apenas me atualizar no Direito Penal. Eu queria respostas, para perguntas que não queriam calar. Eu queria aprender o que, humildemente, sabia não dominar. 

Tenho ido em busca dessas respostas. Quando não me satisfaço com uma fonte, vou a outra, e assim sigo em frente.  A busca da verdade é o sentido da filosofia. Ela faz com que se busque outro sentido: o da vida.

Temos várias opções, várias estradas que podemos seguir. Saber distinguir entre o certo e o errado nos permite escolher melhor. De acordo com Epicteto, filósofo da Antiguidade, de todas as coisas, algumas estão sob nosso controle: o juízo, o impulso, o desejo e a repulsa. Outras, como o corpo, as posses, a reputação e os cargos públicos, e tudo que não for ação nossa, não estão. 

Saber usar o que se controla a seu favor, em busca da evolução moral, isso, sim, pode fazer a diferença,no caminho que se escolheu trilhar. Viver lutando pelo que não se controla e não se pode possuir é perda de energia, é desperdício da força motriz, que nos faz avançar. 

E também não vale se martirizar pelo tempo que jogou fora com inutilidades, e pelas burradas que cometeu: eles fazem parte do processo de evolução, e servem de alerta, para que possamos reavaliar nossa trajetória.