AS PRÓXIMAS GERAÇÕES

As últimas gerações foram privadas do estudo das virtudes...

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 07/09/2020 - 21:26 hs

Pergunto-me, frequentemente, como serão, no futuro, as crianças de hoje. Num país sem heróis e sem memória histórica, como o nosso, a falta de referências para os adultos do futuro, que estamos formando agora, me angustia.            Li, recentemente, uma frase que diz mais ou menos o seguinte: se conseguirmos formar seres humanos maiores ou melhores do que somos, então nosso papel de educadores foi adequadamente cumprido.

                                   Ou seja: se formos bem sucedidos em incutir valores, que possam formar cidadãos de bem e de espírito elevado, teremos do que nos orgulhar, na posteridade. Creio firmemente que essa formação dos filhos, ou daqueles cuja educação nos foi confiada, passa pelos exemplos que a criança colhe na convivência com os outros, e pelas referências afetivas, morais e intelectuais que recebe.

                                   Jordan Peterson, renomado psiquiatra canadense, em seu livro 12 Regras Para a Vida, diz que um dos critérios de nossa formação, são as pessoas das quais nos cercamos. Se desejamos agregar valor à nossa existência, precisamos nos relacionar com pessoas que pensem parecido conosco, e que tenham trocas afetivas e intelectuais similares para realizar.

                                   Santo Tomás de Aquino afirmava que amizade é querer e rejeitar o mesmo tipo de coisas. Para ele, a amizade só era verdadeira, quando as pessoas estavam indo para o mesmo lugar, e valorizavam bens em comum. Isso vale para as crianças, jovens e adultos. Cercar-se de pessoas com ideais elevados de moral e convivência, é ter um padrão de comportamento a perseguir, uma vez que ”a amizade perfeita só pode existir entre os bons” ( Aristóteles).

                                   Na medida em que estabelecemos trocas honestas e valorosas, compartilhando com nossos semelhantes os mesmos tipos de bens imateriais, como amizade, honra, afetividade, solidariedade, educação, altruísmo, generosidade, justiça, temperança, fé, amor, companheirismo, ampliamos nosso campo do saber, aprimorando nosso modo de pensar e de agir e desenvolvendo nossas virtudes.

                                    Podemos ser modelos de virtudes para os mais jovens. O exemplo é o que norteia o agir de uma criança, que funciona por imitação. Se você não possui bons hábitos e não inspira bons atos nos mais jovens, de nada irá adiantar dissertar sobre os mais eruditos temas e os mais elevados valores morais. Os indivíduos com personalidades em formação repetem o que vêem.

                                   As últimas gerações foram privadas do estudo das virtudes. Não se escreve ou fala mais sobre isso, o ser humano não busca seu aperfeiçoamento moral, há um desconhecimento total sobre o que isso venha a ser. Vivemos uma crise de valores na sociedade, em parte porque esses ensinamentos nos foram roubados.

                                   Aristóteles explicava que o sentido da vida (ter uma vida boa, nas palavras do filósofo), era a busca da felicidade (eudaemonia), a qual só viria através do exercício das virtudes. Apenas praticando modos de comportamento mais elevados, poderia o homem viver de forma mais plena e feliz, valendo-se da razão, da força e da vontade, para prosperar como indivíduo.

                                   Apenas através da plena convicção do sentido de sua existência, exercitando suas virtudes, cada homem pode buscar a felicidade. Ainda que não se tenha controle sobre o curso a vida, ao saber-se pelo que se vive, pode-se controlar os próprios pensamentos, o estado de espírito, a fé e, sobretudo, os próprios atos.

                                   O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, que sobreviveu a um campo de concentração nazista, ensinava que quem tem um “porquê”, aguenta qualquer “como”. Ele somente resistiu aos horrores da guerra, porque enxergava em sua vida um propósito, o que lhe dava forças para sobreviver a cada dia no inferno, agindo de forma virtuosa.

                                   Na Antiguidade, descobrir o sentido da própria existência era muito mais fácil. As pessoas nasciam em camadas sociais, e dentro da classe em que se encontravam, herdavam funções familiares ou seguiam uma vocação, fosse esta integrar a nobreza (ou até mesmo tornar-se rei), ser militar ou abraçar a vida religiosa. As mulheres, por sua vez, eram o sustentáculo de seus lares, amparando filhos e esposos na realização de suas virtudes e funções.

                                   O propósito de vida de um indivíduo era definido quando do nascimento, pelas circunstâncias sociais que o envolviam, ou por pactos firmados pelas famílias de origem. Não se questionava isso, e para a adequada realização de sua missão, um indivíduo suportava qualquer intempérie, vencendo nobremente os obstáculos que se apresentavam.

                                   Os mitos gregos surgiram, primordialmente, como meio de se ressaltar o poder da vocação e a importância de ser forte e resiliente, nobre e justo. Contando-se uma história, trazia-se luz às virtudes que estavam por trás dos grandes homens, como forma de ensinamento para as gerações vindouras.

                                   Hoje, isso se perdeu para a Humanidade. Além de termos crescido alijados de todo tipo de educação sobre as virtudes, os manuais fajutos de autoajuda da modernidade, nos incutem a falsa idéia, de que cada um pode ser o que sonhar, tornar-se o que quiser. A qualquer preço. Entretanto, a realização dos sonhos depende dos aspectos que nos rodeiam.

                                   Já dizia Ortega Y Garcez, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Há muitas coisas que não poderemos conquistar, muitas guerras que não teremos como lutar, muitos desejos nossos que irão ser frustrados pelas circunstâncias. Há muitos outros, inclusive, que não nos convêm. O que podemos realizar, colocando toda a nossa alma no projeto, é aquilo que respeita nossas circunstâncias de vida, cabe na nossa realidade e não fere nossas convicções morais.

                                   Temos chance de encontrar a felicidade, agindo com coragem, nobreza e prudência, respeitando aos demais e seguindo em frente, de forma justa e honesta, na realização de nossos propósitos de vida, com sabedoria e fazendo o bem, como ensinaram Sócrates e Aristóteles. O caminho exigirá de nós boas escolhas e um comportamento moralmente adequado. Mas isso não se aprende na escola. Nem em manuais de autoajuda.

 

“Uma vida não analisada não é digna de ser vivida”. Sócrates

“A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces”.  Aristóteles