AS VIÚVAS DO CHAMPAGNE

EVOÉ!

Por RÔMULO PAIVA FILHO 20/09/2020 - 02:46 hs

Bom dia amigos do vinho. Todos nós certamente já ouvimos o dito popular segundo o qual atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher. E realmente isso é fato, pois temos incontáveis exemplos dessa verdade da vida. O que seria de Giuseppe Garibaldi, herói de dois países como Brasil e Itália, se não fosse sua Anita? De John Kennedy sem a força e o charme de sua Jackeline, de Salvador Dali sem sua musa inspiradora Gala e por aí vai. No mundo do vinho essa máxima é tão verdadeira que se encontra estampada nos rótulos de varias das marcas mas famosas do mundo. Hoje falarei de três delas: a Veuve Clicquot, a Bollinger e a Pommery. A mais célebre é, sem dúvida, a Veuve Clicquot. Poucos sabem quem foi essa ilustre viúva cujo retrato está na tampa metálica da rolha da garrafa desse ícone da região de Champagne.


 A francesa Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin (1777-1866), era filha de um grande empresário da indústria têxtil e prefeito de Reims e muito jovem se casou com Nicolas Ponsardin, banqueiro, comerciante de lã e produtor de champagne. Em 1805 Nicolas morre e Nicole se vê subitamente a frente dos negócios do marido, com apenas 27 anos de idade, focando-se inteiramente na produção do champagne e prosperou com a ajuda de seu sogro e seu espírito inovador. Dotada de notável tino comercial e administrativo, Nicole apostou em uma nova técnica de produção de champagne precoce: o remuage, que através do processo de rotação gradual das garrafas, permite o deslocamento das leveduras mortas resultantes da fermentação, do fundo para o gargalo da garrafa. Antes desse revolucionário processo, a segunda fermentação que criava o champagne, resultava em um vinho muito doce e turvo, com a desagradável visão dos resíduos no fundo da garrafa. Com a criação desse processo, a viúva Clicquot reinventou o mercado de champagne e se tornou uma das mais ricas empresárias da Europa e ainda hoje sua empresa leva seu nome.

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Mas a presença das viúvas no mercado do champagne não se limita a viúva Clicquot. Sua contemporânea Louise Pommery (1819-1890) também se viu sozinha repentinamente aos 41 anos de idade e com dois filhos para criar. Nascida Jeanne Alexandrine Louise Mélin, casou-se com o produtor de champagne Alexandre Pommery em 1839. Com a morte do marido em 1860, Louise fez exatamente o mesmo que Barbe-Nicole: Assumiu seus negócios, desfazendo-se do comércio de algodão que fez sua fortuna e se concentrando no champagne. Ousada, Jeanne comprou uma área de solo calcário a 19 km da cidade de Reims e ali construiu uma cave para armazenamento de milhares de garrafas em temperatura constante de 10 graus Celsius 30 metros abaixo da terra. Essas caves pemitiram o lento trabalho das leveduras nas garrafas, resultando nas tão almejadas borbulhas. Varios outros produtores copiaram sua iniciativa, a qual contribuiu sobremaneira na qualidade do champagne, produzindo uma bebida menos doce, com menos adição de açúcar e mais parecida com os espumantes atuais. Em 1874 a Pommery elaborou o seu primeiro champagne Brut. Louise Pommery se tornou tão famosa e influente que foi a primeira mulher francesa a ter direito a um funeral de Estado quando de sua morte em 1890. Nada menos que 20.000 pessoas lotaram as ruas de Reims para se despedir dessa notável viúva.


Vejam bem, meus amigos, que não só essas duas viúvas se mostraram brilhantes empresários e administradoras como também criaram técnicas que revolucionaram o processo de fabricação do champagne e o fizeram ser como ele é hoje, apreciado em todo o mundo. Barbe-Nicole apostou no remuage e Louise construiu as caves onde o champagne fermenta lentamente.


Não bastassem essas duas viúvas fenomenais, ainda temos uma terceira: Madame Lily Bollinger (1899-1977). Filha do Barão Olivier Law de Lauriston-Boubers e de Berthe de Marsay, casou-se com Jacques Bollinger em 1923, neto do fundador Jacques-Joseph Bollinger e diretor geral do Champagne Bollinger. Em 1941 Jacques falece e Lily assume a presidência da Maison Bollinger, onde  permaneceu até 1971. A competência de Lily tornou o champagne Bollinger conhecido internacionalmente. Em 1961 ela lançou o Bollinger R.D. e depois a Cuvée Vieilles Vignes Françaises em 1969, consagrando definitivamente a marca. A partir 1977,  graças à amizade de Albert R. Broccoli, produtor da série 007, com Christian Bizot, presidente da Bollinger, o garoto-propaganda da marca passou a ser ninguém menos que o charmoso espião britânico.


Além de dirigir brilhantemente a casa Bollinger, projetando sua fama mundial, Lily era uma aficcionada pela bebida borbulhante descoberta por Don Pérignon. Indagada certa vez sobre sua preferência, Lily respondeu com a seguinte pérola: 


“Eu bebo champagne quando estou feliz e quando  estou triste. As vezes eu bebo quando estou sozinha. Quando tenho companhia, considero obrigatório. Dou uma bicadinha quando estou sem fome, e bebo quando estou com fome. Se não for assim, eu nunca toco no champagne, a não ser que eu esteja com sede.” (Madame Lily Bollinger 1899-1977).


Bem, amigos, aqui vou me despedindo, até porque esse artigo me deu uma sede danada. Vou ali na adega procurar uma viúva pra saciá-la . Bom domingo a todos e até semana que vem.


EVOÉ


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