LIBERALISMO E COMUNISMO

Os filhos diletos do Iluminismo

Por Márcio Freyesleben 20/09/2020 - 17:41 hs

O liberalismo e o comunismo são cosmovisões filhas do Iluminismo. Antes, porém, de se constituírem como filosofias políticas ou teorias econômicas, surgiram  como   visões de mundo que  abarcavam todos os aspectos da vida humana, para muito além das dimensões teóricas e doutrinais que, desde a entrada da Modernidade, tentaram circunscrevê-los nos domínios da Ciência Moderna.

 

         O homem historicamente sempre se considerou como  membro de uma realidade criada  que não dependia dele.   Toda revolta contra essa ordem foi sempre uma reação de ordem individual, às vezes comunitária, mas nunca geral.

 

         No séc. XVI, ocorre a primeira revolta geral contra a ordem natural: a Reforma Protestante. Lutero preparou metade do mundo ocidental para o progressivo afastamento da autoridade da Igreja. O homem – dizia-se –  não dependeria da autoridade papal, era  livre para praticar a sua fé: sola scriptura. “Diz-se que ele destronou o Papa e entronizou a Bíblia, a Palavra de Deus, que todo fiel podia consultar sem a interposição da Igreja, visão revolucionária, que enfatizava a consciência individual”.[1]

 

         A idéia de consciência individual  irá  expandir-se para culminar na  revoltar contra todas as autoridades. Depois de libertar o homem da autoridade espiritual, o Papa, iria libertá-lo da autoridade temporal, o monarca.  

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         A Revolução Francesa proclamou valores inconciliáveis: a liberdade e a igualdade, valores que  iriam catalisar a  revolta difusa contra todos os tipos de autoridade: se as autoridades espiritual e temporal estavam comprometidas, não tardaria para que todas as demais autoridades intermediárias também estivessem;  a autoridade  paterna, inclusive.

 

         O homem passou para o centro do mundo.

 

         A revolta contra as autoridades é a  essência do liberalismo como cosmovisão. É a revolta contra tudo que limitava a vontade do homem de se determinar no mundo.

 

         Na ordem antiga, a família era a unidade básica da sociedade; na nova ordem liberal, é o indivíduo. E, então,  a sociedade se atomizou.  

        

         A Revolução Francesa instaurou  a autoridade da soberania popular: a vontade do homem é a nova ordem de regência da sociedade. E, assim, surgiu o conceito de democracia liberal.

 

         O Estado liberal, que nascera sob o signo do  laissez faire laissez passer,  logo revelaria sua verdadeira face. “O Estado liberal, não intervencionista, surgido da Revolução Francesa, durou pouco. Em breve deixou de restringir-se à manutenção da ordem e a contemplar displicentemente a concorrência e a luta entre os indivíduos. Estes, e mesmo os mais liberais, exigiam que ele se transformasse no Leviatã de Hobbes, que a todos protege... e depois devora. Foi erigido em Providência onipotente pelo fetichismo político do homem moderno, e incumbido não apenas de manter a ordem nas ruas, mas também de dar paz e conforto aos corações magoados e aos espíritos inquietos, saúde aos enfermos, alegrias aos infelizes, ciência aos ignorantes, senso aos levianos. Não bastou que distribuísse justiça: teve também que distribuir  pão, água, luz, música e notícia. Emaranhado e perdido no meio de uma civilização comprometida pelo egoísmo, a crueldade e a ânsia dos gozos materiais, o homem começou a apelar desesperadamente  para o Estado. A cada necessidade, a cada desejo, a cada veleidade da cupidez e da ignorância coletiva, o ventre do Estado, em contínua gestação, dava à luz uma lei, um regulamento, uma ninhada de funcionários – novo serviço público”.[2] Enfim, “transformou-se numa engrenagem monstruosa e desconjuntada. Nas mãos de bons governantes, pouco eficiente; nas mãos dos maus, um engenho infernal, que em vez de ordem e justiça produz ao funcionar a intranquilidade e a ruína”.[3]

 

         A República iluminista proclamou o improclamável: a insensata ilusão   de  que todos possam ser  fraternamente livres e fraternamente  iguais ao mesmo tempo, no reino encantado  da soberania popular.  Feito isso, da democracia liberal para a democracia marxista seria apenas uma questão de tempo.

 

Com razão afirmava Bernanos  que  a democracia não  é o oposto da ditadura, mas, sim, a causa dela; porque o igualitarismo iluminista  conduz inexoravelmente à democracia totalitária, que é incompatível com toda sorte de  liberdade individual.

 

         Com efeito,  as ditaduras totalitárias modernas  sempre contaram com os inestimáveis préstimos de Sua Majestade a Democracia Liberal,  a meretriz da Corte.

 

 

Márcio Luís Chila Freyesleben – Marceneiro Livre



[1] J. M. Roberts, História do Mundo, pág. 465, 2002,  11ª ed., Ed. Ediouro.

[2] Darcy Azambuja, Teoria Geral do Estado, págs. 131 e 132, 1988, 27ª ed., Globo.

[3] Idem, pág. 132.

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