APOLO E DIONÍSIO

A ordem e o caos fazem parte de nossa composição...

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 21/09/2020 - 20:24 hs

 

Na mitologia grega, Apolo e Dionísio eram filhos de Zeus, o rei dos Deuses, senhor do Universo. Sendo opostos em valores e hábitos, os irmãos foram transportados para a filosofia, ajudando na compreensão da civilização ocidental.

Apolo se destacava como uma divindade identificada com a luz, a ordem e a beleza. Era um jovem que protegia os seres vivos, sendo patrono dos artistas e da natureza, e transformou-se em um símbolo do otimismo, da razão, da confiança e da vitória, representando a ponderação e a busca da perfeição.

Dionísio, por sua vez, era a antítese de seu irmão, visto como subversivo, desobediente à ordem e aos limites, escravizado pela busca da liberdade e do prazer. Ficou, assim, identificado com a tragédia e a loucura, com a desordem da vida e a emoção descontrolada.

Personificado em Baco, o deus do vinho e das festas intermináveis, onde os excessos estavam sempre presentes, a sua dificuldade de abrir mão dos prazeres efêmeros e de controlar os próprios impulsos, fez com que vagasse sem rumo, pelos quatro cantos do mundo .

Transpondo para os seres humanos as características desses dois deuses, a impulsividade, a frivolidade e a força instintiva, levam, inevitavelmente, à identificação com o comportamento de Dionísio, enquanto as pessoas mais ordenadas internamente, aproximam-se da figura de Apolo. Enquanto este seria o deus da moderação, o primeiro era associado à explosão de cólera e aos excessos.


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A ordem e o caos fazem parte de nossa composição. Nós, seres humanos, somos imperfeitos e sujeitos aos caprichos de nossos temperamentos. Precisamos domá-los. Dionísio e Apolo, assim retratados, representam, metaforicamente, as ambiguidades de todos os indivíduos, os aspectos da psique humana, na complicada busca do equilíbrio pessoal.

Características aparentemente antagônicas, como temperança e cólera, prudência e loucura, habitam o interior de todos nós, devendo-se buscar, entretanto, a preponderância do modo virtuoso de ser. Vivemos, porém, tempos muito difíceis, o que torna bem mais árdua a busca da elevação moral.

Uma expressão muito em voga nos dias atuais é “só se vive uma vez”. Essa frase resume bem a nossa época. Ela contém um chamado para que se viva tudo , intensamente e sem limites, de forma voluntariosa, pensando somente no hoje, sem que se meçam as consequências dos próprios atos. Será esse o objetivo da vida?

Não é. Porque isso não é ter a vida boa que Sócrates pregava. Segundo ele, uma vida que não é inspecionada, não vale a pena ser vivida. Uma vida que não se direciona em busca da realização de sua vocação, que não se ordena para o alto, buscando a Deus e aos valores mais elevados, por certo, não é capaz de proporcionar felicidade e realização pessoal.

A humanidade vive uma crise de identidade sem precedentes, dominada por desejos fugazes. Os vazios modernos, que remetem à medicação exagerada, ao excesso de drogas, álcool e sexo,, ao consumismo exacerbado, aos vícios mais diversos, são a terrível consequência da negligência às coisas fundamentais:: a realização da vocação e o aperfeiçoamento moral, por meio do exercício das virtudes.

 O colapso da civilização advem da negação da importância de se cultivar ideais mais elevados, os quais exigem uma dose de sacrifícios e renúncia. Isso tem levado as pessoas à desordem interna: onde não há equilíbrio, não haverá paz interior.

Todos somos capazes de emergir da cegueira e da esquizofrenia dos tempos modernos, a fim de contribuir  para a sociedade, mergulhando no aperfeiçoamento pessoal, através da realização de nossas missões de vida. Será, a partir da evolução moral dos homens, que a sociedade se transformará. O exercício das virtudes, por cada um de nós, é o combustível para a sanidade social, sem a qual a humanidade se perde em luxúria, corrupção e caos.

Sócrates tratou disso há mais de dois mil e quinhentos anos, e essa questão nunca foi tão atual. Ele percebia um processo de corrupção dos valores essenciais da sociedade, a qual era destruida,, de dentro para fora, pelos comportamentos de seus individuos, de forma muito similar à que testemunhamos hoje em dia.

Há uma hierarquia de valores existenciais, que aponta para o que é mais importante. Os problemas fundamentais do ser humano, desde o início da Humanidade, residem na dificuldade de perseguir os bens corretos, dando-lhes o valor adequado. Ao falhar, o homem mergulha na mediocridade de uma vida sem sentido.

Enquanto se vive, há tempo. Todos nós precisamos lutar contra nossas más tendências e os prazeres fáceis,  a cada instante. Vivemos no mundo real, e esse nos apresenta  muitas provações e tentações. Paulo de Tarso já dizia, que o mal que ele n desejava, cometia com facilidade , mas que o bem que ele almejava, era muito mais difícil de realizar. Viver é fazer escolhas, as quais se tornam mais naturais , quando se sabe aonde se quer chegar.  Você quer ser Apolo ou Dionísio?


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