CEGUEIRA

O Século em que a humanidade perdeu a visão

Por ÉRIKA FIGUEIREDO 06/10/2020 - 21:50 hs

A humanidade perdeu a visão, no século XXI. Todo o modelo civilizatório antes existente ruiu, e no mundo só restaram dois milhões de habitantes, após um vírus absolutamente letal dizimar os povos.  Agora, é preciso sobreviver nas trevas, e enxergar é uma heresia, que transforma o portador desse dom, automaticamente, em uma ameaça, que deve ser aniquilada de imediato.

                                   Esse é o enredo da série SEE, disponível na Apple TV, responsável por me manter acordada até altas horas nas últimas duas noites. Impossível não me transportar para Platão, e sua célebre narrativa do MITO DA CAVERNA.

                                   A minissérie se desenrola a partir do nascimento de gêmeos, que não são cegos, em uma pequena comunidade. Seu pai biológico, que também enxerga, fugiu, mas antes disso, destinou-lhes uma caixa repleta de livros, de todas as grandes fases da civilização, para que os filhos pudessem ter acesso ao conhecimento, partindo, então, para a construção de um novo mundo.

                                   As crianças precisam ocultar seu dom dos demais habitantes da vila, a fim de não serem perseguidas e mortas, por enxergarem o mundo como ele é. A visão é considerada uma maldição, responsável por todos os males da humanidade.

                                   Na metáfora consagrada por Platão, em seu livro A República, os homens vivem acorrentados desde o nascimento, em uma caverna, no escuro, sob o jugo de suas próprias sombras, que são reproduzidas nas paredes, por meio da chama de uma fogueira. Por julgarem as sombras ameaçadoras demais, não tentam libertar-se, e assim vivem, confinados e sem horizontes, até o dia em que um deles se livra das correntes e encontra a luz.

                                   No início, seus olhos não se acostumam bem à claridade, ele sente dores por não estar habituado a caminhar, se assusta com tudo que vê, ao perceber que o mundo é muito maior do que a sua caverna. O campo de conhecimento dele se expande, e sua capacidade de raciocinar se amplia, na medida em que tem contato com a verdade.

                                    A partir daí, esse homem vive um dilema existencial: retornar e contar aos seus pares tudo que viu no mundo real, e esclarecer que as sombras eram o reflexo dos próprios homens, sendo taxado de louco (já que o universo reduzidíssimo dos demais limitava sua capacidade de raciocínio), ou manter em segredo sua descoberta, retornando em silêncio à caverna, a fim de não ser perseguido?

                                   Platão situou essa narrativa no terreno da crítica à cena política de Atenas, exemplificando o quanto a falta de conhecimento pode levar a falsos julgamentos sobre as pessoas e seus objetivos, impedindo escolhas baseadas na verdade dos fatos, e prejudicando toda uma sociedade.

                                   Dois mil e quinhentos anos se passaram, e ainda assim, esse assunto é atualíssimo e nos faz refletir: se enxergar é tão perigoso, como exemplificado no mito da caverna e na série de tv, isso se dá pelo fato de que a iluminação leva ao conhecimento, e conhecimento é poder. Aí reside o perigo das pessoas que buscam a verdade, perseguem a sabedoria, não se esgotam no aprendizado do que é raso.

                                   Vivemos, hoje, no Brasil, uma cegueira coletiva. Essa cegueira é incentivada pela imprensa, por grupos formadores de opinião, pelas ongs, pelo “politicamente correto”, pelas pautas equivocadas para a sociedade, pelo ensino de má qualidade e pela falta de memória histórica. Tudo que acaba com a hegemonia de pensamento é extremamente intimidatório.        

                                   Na série SEE, os livros são a pior arma que poderia existir. Eles abrem um portal de conhecimento, que depois de ultrapassado, não possui caminho de volta. Eles acenam com a possibilidade de um mundo novo, para as próximas gerações, o que é muito ameaçador, para aqueles que desejam manter as coisas como elas são, e alimentaram a espiral do silêncio e da ignorância por tanto tempo.

                                   A certa altura da série, a personagem mãe dos gêmeos diz as seguintes frases: “quanto mais longa a jornada, quanto mais longos os seus desafios, mais esta transformará os que a enfrentarem. Uma jornada como esta, os que sobreviverem a ela, receio, sairão do outro lado irreconhecíveis uns para os outros”.

                                   O saber nos abre a porta da transformação. Através dele ganhamos força, encontramos nosso lugar no mundo. Adquirimos maturidade. Aprendemos quem somos e para onde queremos ir. E percebemos o que não podemos mais tolerar. HÁ MUITAS COISAS QUE NÃO DÁ MAIS PARA SUPORTAR, por aqui. A hora de enxergar é agora. Já perdemos tempo demais.

                                   Minha mãe sempre me disse: “o conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de você”. Ouso ir mais longe - não nos tiram, também, a personalidade e a fé. Mas isso é assunto pra outros artigos...